Língua Portuguesa — CACD 2022

IADES · CACD – 1ª fase (TPS) · 40 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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Texto 4 1  Estava alegre nesse dia, bonita também. Um pouco de febre também. Por que esse romantismo: um pouco de febre? Mas a verdade é que tenho mesmo: olhos brilhantes, 4 essa força e essa fraqueza, batidas desordenadas do coração. Quando a brisa leve, a brisa de verão, batia no seu corpo todo ele estremecia de frio e calor. E então ela pensava 7 muito rapidamente, sem poder parar de inventar. Sempre a mesma queda: nem o mal nem a imaginação. No primeiro, no centro final, a sensação simples e sem adjetivos, tão cega 10 quanto uma pedra rolando. Na imaginação, que só ela tem a força do mal, apenas a visão engrandecida e transformada: sob ela a verdade impassível. Mente-se e cai-se na verdade. 13 Mesmo na liberdade, quando escolhia alegre novas veredas, reconhecia-as depois. Ser livre era seguir-se afinal, e eis de novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro 16 de si. Perdido pois o gosto de imaginar. E o dia em que chorei? – havia certo desejo de mentir também – estudava matemática e subitamente senti a impossibilidade tremenda 19 e fria do milagre. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais. Lembro-me de um estudo cromático de Bach e perco a inteligência. Ele é frio e puro como gelo, no 22 entanto pode-se dormir sobre ele. Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, 25 mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no 28 que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que eu sinto mas o que eu digo. Sinto quem sou e a impressão está alojada na parte alta do cérebro, nos lábios – na língua 31 principalmente –, na superfície dos braços e também correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu não sei dizer. Mas sobretudo donde vem essa 34 certeza de estar vivendo? Não, não passo bem. Pois ninguém se faz essas perguntas e eu... Mas é que basta silenciar para só enxergar, abaixo de todas as realidades, a 37 única irredutível, a da existência. E abaixo de todas as dúvidas – o estudo cromático – sei que tudo é perfeito, porque seguiu de escala a escala o caminho fatal em relação 40 a si mesmo. Nada escapa à perfeição das coisas, é essa a história de tudo. Mas isso não explica por que eu me emociono quando Otávio tosse e põe a mão no peito, assim. 43 Ou senão quando fuma, e a cinza cai no seu bigode, sem que ele note. Ah, piedade é o que sinto então. Piedade é a minha forma de amor. De ódio e de comunicação. É o que me 46 sustenta contra o mundo, assim como alguém vive pelo desejo, outro pelo medo. Piedade das coisas que acontecem sem que eu saiba. Mas estou cansada, apesar de minha 49 alegria de hoje, alegria que não se sabe de onde vem, como a da manhãzinha de verão. Estou cansada, agora agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre 54 o mar, eis o sono.

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem (recurso eletrônico). Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2019.

No que concerne às ideias e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 1.

    No texto, a personagem é descrita como uma pessoa que tem “olhos brilhantes, essa força e essa fraqueza, batidas desordenadas do coração” (linhas 3 e 4), ao mesmo tempo em que “tem a força do mal, apenas a visão engrandecida e transformada” (linhas 10 e 11).

  2. 2.

    A piedade, segundo a personagem, está para ela assim como o medo e o desejo para determinadas pessoas.

  3. 3.

    A alternância entre a primeira e a terceira pessoas do discurso, ao longo do texto, reflete a oscilação da personagem-narradora em sua relação consigo mesma: ora sente-se próxima e dona de si, ora sente-se distante e apartada de si mesma.

  4. 4.

    No trecho “Quem sou? Bem, isso já é demais.” (linhas 19 e 20), fica explícito o temperamento reservado da personagem e sua reticência em se expor.

Texto 2 1  A primeira das apresentações seria dedicada à pintura e à escultura; a segunda, à literatura, e a terceira à música. A notícia da Semana fora recebida “com um frêmito de 4 curiosidade” nas rodas intelectuais e “altamente mundanas” de São Paulo, o que seria natural, pois se tratava da primeira tentativa de realizar no Brasil “um certame dessa natureza”. 7 Os modernistas de São Paulo usavam habitualmente o termo “futurismo”, mas o faziam em sentido elástico, para designar as propostas mais ou menos renovadoras que se 10 opunham às receitas “passadistas” e “acadêmicas”. A polarização futurismo x passadismo servia como uma tática retórica eficaz – mas também simplificadora. Esse aspecto 13 do discurso modernista, que se apresentava como ruptura com o “velho”, acabava por atirar na lata de lixo do “passadismo” manifestações variadas, às quais, diga-se, não 16 raro os próprios “novos” estavam atados. O rótulo “futurista” gerava incompreensões e facilitava ataques por sugerir subordinação às ideias de Marinetti. Por isso, Mário 19 de Andrade preferia, “bandeirantemente”, recusar em público a batuta do vanguardista italiano. Os “rapazes modernistas” desejavam apenas “ser atuais, livres de 22 cânones gastos, incapazes de objetivar com exatidão o ímpeto feliz da modernidade”. A expressão “ímpeto feliz” vinha como um grito de frescor e juventude em oposição à 25 sisudez “passadista” e ao ambiente soturno dos anos anteriores, imposto pela guerra. Mário gostava de citar a “mocidade alegre” e Oswald, alguns anos depois, em 1928, 28 sentenciaria no Manifesto Antropófago: “A alegria é a prova 29 dos nove”.

GONÇALVES, Marcos Augusto. 1922: a semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, com adaptações.

Tendo em vista os aspectos linguísticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 5.

    As expressões “mas o faziam em sentido elástico” (linha 8) e “atirar na lata de lixo do ‘passadismo’ manifestações variadas” (linhas 14 e 15) são exemplos da função referencial da linguagem, predominante nesse ensaio acerca da Semana de Arte Moderna.

  2. 6.

    A citação de trecho do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, ilustra o emprego da intertextualidade a serviço da progressão textual e da coerência entre as ideias apresentadas a respeito dos “‘rapazes modernistas’” (linhas 20 e 21).

  3. 7.

    O uso de aspas se justifica para marcar expressões informais de sentido ambíguo por ser texto escrito no nível formal da língua e concernente a tema relativo à cultura brasileira.

  4. 8.

    Em “às quais, diga-se, não raro os próprios ‘novos’ estavam atados.” (linhas 15 e 16), a expressão iniciada pelo acento grave indicativo de crase é o complemento nominal do predicativo “atados”.

Texto 1  Discurso sobre a história da literatura do Brasil 1  Através das espessas trevas em que se achavam envolvidos os homens neste continente americano, viram-se alguns espíritos superiores brilhar de passagem, bem 4 semelhantes a essas luzes errantes que o peregrino admira em solitária noite nos desertos do Brasil; sim, eles eram como pirilampos que, no meio das trevas, fosfoream. E 7 poder-se-á, com razão, acusar o Brasil de não ter produzido inteligências de mais subido quilate? Mas que povo escravizado pôde cantar com harmonia, quando o retinido 10 das cadeias e o ardor das feridas sua existência torturaram? Que colono tão feliz, ainda com o peso sobre os ombros e, curvado sobre a terra, a voz ergueu no meio do universo e 13 gravou seu nome nas páginas da memória? Quem, não tendo a consciência da sua livre existência, só rodeado de cenas de miséria, pôde soltar um riso de alegria e exalar o 16 pensamento de sua individualidade? Não, as ciências, a poesia e as belas-artes, filhas da liberdade, não são partilhas do escravo, irmãs da glória, fogem do país amaldiçoado, 19 onde a escravidão rasteja e só com a liberdade habitar podem.  Se refletirmos, veremos que não são poucos os 22 escritores, para um país que era colônia portuguesa, para um país onde, ainda hoje, o trabalho do literato, longe de assegurar-lhe com a glória uma independência individual, e 25 um título de mais reconhecimento público, parece, ao contrário, desmerecê-lo e desviá-lo da liga dos homens positivos que, desdenhosos, dizem: é um poeta! Sem 28 distinguir se apenas é um trovista ou um homem de gênio, como se dissessem: eis aí um ocioso, um parasita, que não 30 pertence a este mundo. Deixai-o com a sua mania.

MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves. Discurso sobre a história da literatura do Brasil (manifesto publicado na revista Nictheroy em 1836). Disponível em: <http://acervo.bndigital.bn.br>. Acesso em: 3 mar. 2022 (fragmento).

No que tange aos aspectos linguísticos e ao sentido do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 9.

    Na linha 26, os pronomes oblíquos em “desmerecê-lo” e “desviá-lo” referem-se ambos a “literato” (linha 23).

  2. 10.

    O termo “fosfoream” (linha 6) possui sentido crítico e remete à debilidade dos produtores de arte no Brasil.

  3. 11.

    O sujeito da forma verbal “podem” (linha 20) é composto por dois núcleos: “escravidão” (linha 19) e “liberdade” (linha 19).

  4. 12.

    O pronome pessoal “eles” (linha 5) relaciona-se ao seu antecedente “os homens” (linha 2).

Texto 2 1  A primeira das apresentações seria dedicada à pintura e à escultura; a segunda, à literatura, e a terceira à música. A notícia da Semana fora recebida “com um frêmito de 4 curiosidade” nas rodas intelectuais e “altamente mundanas” de São Paulo, o que seria natural, pois se tratava da primeira tentativa de realizar no Brasil “um certame dessa natureza”. 7 Os modernistas de São Paulo usavam habitualmente o termo “futurismo”, mas o faziam em sentido elástico, para designar as propostas mais ou menos renovadoras que se 10 opunham às receitas “passadistas” e “acadêmicas”. A polarização futurismo x passadismo servia como uma tática retórica eficaz – mas também simplificadora. Esse aspecto 13 do discurso modernista, que se apresentava como ruptura com o “velho”, acabava por atirar na lata de lixo do “passadismo” manifestações variadas, às quais, diga-se, não 16 raro os próprios “novos” estavam atados. O rótulo “futurista” gerava incompreensões e facilitava ataques por sugerir subordinação às ideias de Marinetti. Por isso, Mário 19 de Andrade preferia, “bandeirantemente”, recusar em público a batuta do vanguardista italiano. Os “rapazes modernistas” desejavam apenas “ser atuais, livres de 22 cânones gastos, incapazes de objetivar com exatidão o ímpeto feliz da modernidade”. A expressão “ímpeto feliz” vinha como um grito de frescor e juventude em oposição à 25 sisudez “passadista” e ao ambiente soturno dos anos anteriores, imposto pela guerra. Mário gostava de citar a “mocidade alegre” e Oswald, alguns anos depois, em 1928, 28 sentenciaria no Manifesto Antropófago: “A alegria é a prova 29 dos nove”.

GONÇALVES, Marcos Augusto. 1922: a semana que não terminou. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, com adaptações.

Com relação às ideias e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 13.

    O neologismo “‘bandeirantemente’” (linha 19) descreve, em linguagem conotativa, o pioneirismo de Mário de Andrade como modernista brasileiro e sua preferência por não se apresentar simplesmente como um artista regido pelos ideais futuristas de Marinetti, e sim por ideais libertários.

  2. 14.

    A expressão “‘um certame dessa natureza’” (linha 6) caracteriza a Semana de Arte Moderna como uma investida brasileira inovadora, na qual produtos de categorias artísticas diversas foram apresentados.

  3. 15.

    Os poetas modernistas consideravam as propostas futuristas como inovadoras, pois elas indicavam uma ruptura radical com o passado academicista da literatura do século 19.

  4. 16.

    Na linha 11, a contradição entre “futurismo” e “passadismo” define as propostas artísticas que se apresentavam no cenário artístico do início do século 20, o que representa realidades estéticas bem distintas e alheias uma à outra.

1Arbitrária fortuna! DesprezívelMais que essas almas vis, que a ti se humilham,Prosterne-se a teus pés o Brasil todo;4Eu, nem curvo o joelho. […]Não – reduzir-me a pó, roubar-me tudo,Porém nunca aviltar-me pode o fado;7Quem a morte não teme, nada temeEu nisto só confio. [...]Cingida a fronte de sangrentos loiros10Horror jamais inspirará meu nome;Nunca a viúva há de pedir-me o esposo,Nem seu pai a criança.13Nunca aspirei a flagelar humanos.Meu nome acabe, para sempre acabe,Se para libertar do eterno olvido16Forem precisos crimes. […]Exulta, velha Europa: o novo Império,Obra-prima do Céu! Por fado ímpio19Não será mais o teu rival ativoEm comércio e marinha.Aquele, que gigante inda no berço22Se mostrava às nações, no berço mesmoÉ já cadáver de cruéis harpias,24De malfazejas fúrias.

BONIFÁCIO, José. Poesias. Rio de Janeiro: Academia Brasileira, 1942 (coleção Afrânio Peixoto), p. 157-158, com adaptações.

Com relação aos aspectos linguísticos e estilísticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 17.

    Nas duas últimas estrofes, o autor expressa sua visão de que o Brasil poderia ter sido rival econômico do Velho Continente, mas se tornou presa de aves de rapina.

  2. 18.

    A primeira estrofe poderia ser redigida em prosa, mantendo-se o sentido original, da seguinte forma: Ainda que todo o Brasil se prosterne aos seus pés, eu não curvo o joelho à riqueza arbitrária, mais desprezível que as pessoas vis que se humilham diante dela.

  3. 19.

    A palavra “fado” (linha 6) é semanticamente próxima de “fortuna” (linha 1).

  4. 20.

    Ao repetir “meu nome” (linhas 10 e 14), José Bonifácio luta contra seu esquecimento por meio do apelo ao sacrifício pela Pátria.

1 Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposiçãoque gloriosamente inauguramos hoje é uma aglomeração de“horrores”. [...] Não está terminado o vosso espanto. Outros“horrores” vos esperam. [...] Nenhum preconceito é mais perturbador à concepçãoda arte que o da Beleza. [...] A arte é independente destepreconceito. [...] É a realização da nossa integração noCosmos pelas emoções derivadas dos nossos sentidos, vagose indefiníveis sentimentos que nos vêm das formas, dossons, das cores, dos tatos, dos sabores e nos levam à unidadesuprema com o Todo Universal. Por ela sentimos oUniverso, que a ciência decompõe e nos faz somenteconhecer pelos seus fenômenos. [...] Este supremo movimento artístico se caracteriza pelomais livre e fecundo subjetivismo. É uma resultante doextremado individualismo que vem vindo na vaga do tempohá quase dois séculos até se espraiar em nossa época, de queé feição avassaladora. [...] Cada um se julga livre de revelar a natureza segundoo próprio sentimento libertado. Cada um é livre de criar emanifestar o seu sonho, a sua fantasia íntima desencadeadade toda a regra, de toda a sanção. O cânon e a lei sãosubstituídos pela liberdade absoluta que os revela, por entremil extravagâncias, maravilhas que só a liberdade sabegerar. [...] Este subjetivismo é tão livre que pela vontadeindependente do artista se torna no mais desinteressadoobjetivismo, em que desaparece a determinação psicológica.[...] No Brasil, no fundo de toda a poesia, mesmo liberta,jaz aquela porção de tristeza, aquela nostalgia irremediável,que é o substrato do nosso lirismo. É verdade que há umesforço de libertação dessa melancolia racial, e a poesia sedesforra na amargura do humorismo, que é uma expressãode desencantamento, um permanente sarcasmo contra o queé e não devia ser, quase uma arte de vencidos. [...]37 Que a arte [...] renuncie ao particular e faça cessar porinstantes a dolorosa tragédia do espírito humano desvairadodo grande exílio da separação do Todo, e nos transporte40pelos sentimentos vagos das formas, das cores, dos sons, dostatos e dos sabores à nossa gloriosa fusão no Universo.

ARANHA, Graça. A emoção estética na arte moderna (discurso de abertura da Semana de Arte Moderna). In: ANDRADE, Mário de. Mário de Andrade e a Semana de Arte Moderna. São Paulo: Faro Editorial, 2021, p. 15, com adaptações.

Com base nos aspectos linguísticos e estilísticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 21.

    Apesar de subjetivismo e objetivismo serem conceitos distintos e opostos, o autor opina que a liberdade permite a transformação do primeiro no segundo, de maneira que não pode ser prevista conforme normas científicas.

  2. 22.

    No excerto “No Brasil […] arte de vencidos” (linhas de 30 a 36), o autor ressalta a importância da alegria como método de superação da tristeza e da melancolia, substratos de nosso lirismo.

  3. 23.

    Na linha 21, a palavra “desencadeada” tem o sentido de reação em cadeia gerada pela “fantasia íntima”.

  4. 24.

    A ideia contida no último período do texto indica que a arte tem função metafórica, no sentido etimológico de transporte.

Texto 3 1  Seriam porventura dez horas da noite...  Desde muitos dias os jornais vinham polindo a curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de 4 festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande baile. Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os 7 restaurantes anunciavam orgíacos revelhões de Natal. Os grêmios carnavalescos agitavam-se.  Seriam porventura dez horas da noite quando esse 10 homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum 13 moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos 16 moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas. 19 Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro oscilante.  Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre 22 batido pela mesma negativa: — Que se há-de fazer! Não há mais quarto!  Alcançada a praça o judeu estacou. Pôs no chão a 25 maleta e recostado a um poste mirou o vaivém. O povo comprimia-se. Erravam maltrapilhos aos grupos conversando alto. Os burgueses passavam esmerados no 28 trajar. No ambiente iluminado dos automóveis esplendiam os peitilhos e as carnes desnudadas e aos cachos as mulheres-da-vida roçavam pela multidão, bamboleando-se, 31 olhos pintados, lábios incrustados de carmim. Boiando no espaço estrias de odores sensuais.  O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo. 34  Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a olhar. 37  — Vais ao baile do Clube?  — Não arranjei convite. Você vai?  — Onde irás hoje? 40  — Como não! Toda São Paulo estará lá.  — Ao réveillon do Hotel Sportsman.  — Vamos ao Trianon! 43  — Por que não vens comigo à casa dos Marques? Há lá um Souper-rose.  — Impossível. 46  — Por quê?  — Não Posso. Vou ter com a Amélia.  — Ah... 49  Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e perguntou-lhe com uma voz tão suave como os olhos — caíam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:  — O senhor vai sem dúvida para o seu lar...  Decerto um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu 55 de ombros. Descartou-se:  — Não.  — Mas... e o senhor poderia informar-me... não é 58 hoje noite de Natal?...  — Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.  — Mas... 61  O homem da Amélia tocara no chapéu e partira. Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta o judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento,  venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A 65  vista era maravilhosa.

ANDRADE, Mário de. Conto de Natal. O Melhor de Mário de Andrade: contos e crônicas (Coleção O melhor de). Nova Fronteira. Edição do Kindle, com adaptações.

No que tange às ideias, à forma e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 25.

    Observa-se, na descrição feita entre as linhas 28 e 32, uma crítica à aparência das mulheres presentes na praça, o que fica explícito no emprego do diminutivo no vocábulo “peitilhos” (linha 29).

  2. 26.

    É plausível supor que o diálogo que ocorre no texto se dá entre um judeu recém-chegado a São Paulo e um oriental supostamente embriagado.

  3. 27.

    A forma verbal “Erravam” (linha 26) foi empregada no texto com o sentido de vaguear.

  4. 28.

    A linguagem observada no texto é típica de textos literários.

Texto 3 1  Seriam porventura dez horas da noite...  Desde muitos dias os jornais vinham polindo a curiosidade pública, estufados de notícias e reclamos de 4 festa. O Clube Automobilístico dava o seu primeiro grande baile. Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor. Os 7 restaurantes anunciavam orgíacos revelhões de Natal. Os grêmios carnavalescos agitavam-se.  Seriam porventura dez horas da noite quando esse 10 homem entrou na praça Antônio Prado. Trazia uma pequena mala de viagem. Chegara sem dúvida de longe e denunciava cansaço e tédio. Sírio ou judeu? Magro, meão na altura, dum 13 moreno doentio abria admirativamente os olhos molhados de tristeza e calmos como um bálsamo. Barba dura sem trato. Os lábios emoldurados no crespo dos cabelos 16 moviam-se como se rezassem. O ombro direito mais baixo que o outro parecia suportar forte peso e quem lhe visse as costas das mãos notara duas cicatrizes como feitas por balas. 19 Fraque escuro, bastante velho. Chapéu gasto dum negro oscilante.  Desanimava. Já se retirara de muitos hotéis sempre 22 batido pela mesma negativa: — Que se há-de fazer! Não há mais quarto!  Alcançada a praça o judeu estacou. Pôs no chão a 25 maleta e recostado a um poste mirou o vaivém. O povo comprimia-se. Erravam maltrapilhos aos grupos conversando alto. Os burgueses passavam esmerados no 28 trajar. No ambiente iluminado dos automóveis esplendiam os peitilhos e as carnes desnudadas e aos cachos as mulheres-da-vida roçavam pela multidão, bamboleando-se, 31 olhos pintados, lábios incrustados de carmim. Boiando no espaço estrias de odores sensuais.  O homem olhava e olhava. Parecia admiradíssimo. 34  Por várias vezes fez o gesto de tirar o chapéu mas a timidez dolorosa gelava-lhe o movimento. Continuava a olhar. 37  — Vais ao baile do Clube?  — Não arranjei convite. Você vai?  — Onde irás hoje? 40  — Como não! Toda São Paulo estará lá.  — Ao réveillon do Hotel Sportsman.  — Vamos ao Trianon! 43  — Por que não vens comigo à casa dos Marques? Há lá um Souper-rose.  — Impossível. 46  — Por quê?  — Não Posso. Vou ter com a Amélia.  — Ah... 49  Tirando respeitoso o chapéu, o oriental dirigiu-se por fim ao homem que dissera “ir ter com a Amélia” e perguntou-lhe com uma voz tão suave como os olhos — caíam-lhe os cabelos pelas orelhas, pelo colarinho:  — O senhor vai sem dúvida para o seu lar...  Decerto um louco. Não, bêbedo apenas. O outro deu 55 de ombros. Descartou-se:  — Não.  — Mas... e o senhor poderia informar-me... não é 58 hoje noite de Natal?...  — Parece. (E sorria.) Estamos a 24 de dezembro.  — Mas... 61  O homem da Amélia tocara no chapéu e partira. Desolação, no sacudir lento da cabeça. Agarrando a maleta o judeu recomeçou a andar. Tomou pela rua de São Bento,  venceu o último gomo da rua Direita, atingiu o Viaduto. A 65  vista era maravilhosa.

ANDRADE, Mário de. Conto de Natal. O Melhor de Mário de Andrade: contos e crônicas (Coleção O melhor de). Nova Fronteira. Edição do Kindle, com adaptações.

Em relação aos aspectos linguísticos e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 29.

    O pronome “lhe” (linha 17) foi empregado no texto com valor possessivo.

  2. 30.

    A substituição do vocábulo “Onde” (linha 39) por Aonde, diferentemente do que se observa no texto, estaria de acordo com as normas de regência verbal.

  3. 31.

    Os vocábulos “porventura” (linhas 1 e 9) e “Decerto” (linha 54) são sinônimos e intercambiáveis no texto.

  4. 32.

    No período “Tinham vindo de Londres as marcas do cotilhão e corria que as prendas seriam de sublimado gosto e valor” (linhas 5 e 6), as formas verbais “Tinham vindo” e “corria” têm sujeito posposto.

Texto 1  Discurso sobre a história da literatura do Brasil 1  Através das espessas trevas em que se achavam envolvidos os homens neste continente americano, viram-se alguns espíritos superiores brilhar de passagem, bem 4 semelhantes a essas luzes errantes que o peregrino admira em solitária noite nos desertos do Brasil; sim, eles eram como pirilampos que, no meio das trevas, fosfoream. E 7 poder-se-á, com razão, acusar o Brasil de não ter produzido inteligências de mais subido quilate? Mas que povo escravizado pôde cantar com harmonia, quando o retinido 10 das cadeias e o ardor das feridas sua existência torturaram? Que colono tão feliz, ainda com o peso sobre os ombros e, curvado sobre a terra, a voz ergueu no meio do universo e 13 gravou seu nome nas páginas da memória? Quem, não tendo a consciência da sua livre existência, só rodeado de cenas de miséria, pôde soltar um riso de alegria e exalar o 16 pensamento de sua individualidade? Não, as ciências, a poesia e as belas-artes, filhas da liberdade, não são partilhas do escravo, irmãs da glória, fogem do país amaldiçoado, 19 onde a escravidão rasteja e só com a liberdade habitar podem.  Se refletirmos, veremos que não são poucos os 22 escritores, para um país que era colônia portuguesa, para um país onde, ainda hoje, o trabalho do literato, longe de assegurar-lhe com a glória uma independência individual, e 25 um título de mais reconhecimento público, parece, ao contrário, desmerecê-lo e desviá-lo da liga dos homens positivos que, desdenhosos, dizem: é um poeta! Sem 28 distinguir se apenas é um trovista ou um homem de gênio, como se dissessem: eis aí um ocioso, um parasita, que não 30 pertence a este mundo. Deixai-o com a sua mania.

MAGALHÃES, Domingos José Gonçalves. Discurso sobre a história da literatura do Brasil (manifesto publicado na revista Nictheroy em 1836). Disponível em: <http://acervo.bndigital.bn.br>. Acesso em: 3 mar. 2022 (fragmento).

Com relação aos aspectos linguísticos e ao sentido do texto apresentado, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 33.

    A última frase do texto é uma ironia que exprime a crítica do autor ao desprezo dirigido aos literatos no Brasil.

  2. 34.

    O texto defende a concepção de que há autores demais no País, o que dificulta distinguir entre os que versejam por diletantismo e os que têm verdadeiro talento.

  3. 35.

    As vírgulas que separam as expressões “com razão” (linha 7) e “as ciências” (linha 16) justificam-se pela mesma explicação sintática.

  4. 36.

    De acordo com o texto, as artes literárias encontram terreno fértil em uma terra onde haja liberdade.

Texto 4 1  Estava alegre nesse dia, bonita também. Um pouco de febre também. Por que esse romantismo: um pouco de febre? Mas a verdade é que tenho mesmo: olhos brilhantes, 4 essa força e essa fraqueza, batidas desordenadas do coração. Quando a brisa leve, a brisa de verão, batia no seu corpo todo ele estremecia de frio e calor. E então ela pensava 7 muito rapidamente, sem poder parar de inventar. Sempre a mesma queda: nem o mal nem a imaginação. No primeiro, no centro final, a sensação simples e sem adjetivos, tão cega 10 quanto uma pedra rolando. Na imaginação, que só ela tem a força do mal, apenas a visão engrandecida e transformada: sob ela a verdade impassível. Mente-se e cai-se na verdade. 13 Mesmo na liberdade, quando escolhia alegre novas veredas, reconhecia-as depois. Ser livre era seguir-se afinal, e eis de novo o caminho traçado. Ela só veria o que já possuía dentro 16 de si. Perdido pois o gosto de imaginar. E o dia em que chorei? – havia certo desejo de mentir também – estudava matemática e subitamente senti a impossibilidade tremenda 19 e fria do milagre. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais. Lembro-me de um estudo cromático de Bach e perco a inteligência. Ele é frio e puro como gelo, no 22 entanto pode-se dormir sobre ele. Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, 25 mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no 28 que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que eu sinto mas o que eu digo. Sinto quem sou e a impressão está alojada na parte alta do cérebro, nos lábios – na língua 31 principalmente –, na superfície dos braços e também correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu não sei dizer. Mas sobretudo donde vem essa 34 certeza de estar vivendo? Não, não passo bem. Pois ninguém se faz essas perguntas e eu... Mas é que basta silenciar para só enxergar, abaixo de todas as realidades, a 37 única irredutível, a da existência. E abaixo de todas as dúvidas – o estudo cromático – sei que tudo é perfeito, porque seguiu de escala a escala o caminho fatal em relação 40 a si mesmo. Nada escapa à perfeição das coisas, é essa a história de tudo. Mas isso não explica por que eu me emociono quando Otávio tosse e põe a mão no peito, assim. 43 Ou senão quando fuma, e a cinza cai no seu bigode, sem que ele note. Ah, piedade é o que sinto então. Piedade é a minha forma de amor. De ódio e de comunicação. É o que me 46 sustenta contra o mundo, assim como alguém vive pelo desejo, outro pelo medo. Piedade das coisas que acontecem sem que eu saiba. Mas estou cansada, apesar de minha 49 alegria de hoje, alegria que não se sabe de onde vem, como a da manhãzinha de verão. Estou cansada, agora agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre 54 o mar, eis o sono.

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem (recurso eletrônico). Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2019.

Com base nos aspectos linguísticos e nos sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 37.

    A substituição da expressão “por que” (linha 41) por porque prejudicaria a correção textual, visto que inexiste relação de causalidade entre o trecho que a expressão inicia e o que a antecede.

  2. 38.

    Segundo a narradora, escolher “novas veredas” (linha 13) representa o sentido máximo da liberdade.

  3. 39.

    A frase “No primeiro, no centro final, a sensação simples e sem adjetivos, tão cega quanto uma pedra rolando.” (linhas de 8 a 10) poderia ser reescrita, com manutenção das ideias originais e da correção gramatical do texto, da seguinte forma: Em um primeiro momento, no centro final, há uma sensação simples, sem adjetivos, tão cega quanto uma pedra que rola.

  4. 40.

    Em ambos os trechos “Perdido pois o gosto de imaginar.” (linha 16) e “Pois ninguém se faz essas perguntas e eu...” (linhas 34 e 35), a conjunção “pois” está empregada com o mesmo sentido de porquanto.

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