Língua Portuguesa — CACD 2016

CEBRASPE · CACD – 1ª fase (TPS) · 56 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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Texto II

1 O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,depois do Romantismo. Enquanto nas letrashispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo4século XX adentro, com tantos e tão importantes criadoresdedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil sepodem contar nos dedos das mãos os casos.7 Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento egrande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações10uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre osíndios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado emfilme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira13incursão do autor pelo épico, a menos que se considere ahistória de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero. O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso16de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, oqual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comunsao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,19epidemias, perseguições, perde também um dos filhos. A palavra tupi iñaron designa um estado de fúriasagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de22lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vezacometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem25narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa dodesmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.28E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera deAquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à31recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, nãofosse sua fúria, o poema não teria sido composto. Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo34selvagem no país, quando o acirramento da acumulação levamultinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais aapropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,37encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dosMairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas astribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua40cultura sobreviver, com crescente dificuldade. O romance inteiro soa como uma lamentação, umcarpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.43Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais umaespécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira dever o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e46tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitorseu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver. A produção e publicação de um romance como esse,49agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca emsua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve seruma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,52filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todoslutando em defesa de sua preservação para a História. Quando55há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva dacivilização ocidental e entre nós é tão escandaloso ocapitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.58Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, dequem está aprendendo a perceber que outras civilizaçõesencontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para61males que hoje parecem irremediáveis, como o problema dopoder, da proliferação e potenciação dos armamentos, dadestruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da64igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca mortaao parir mestiços mortos poderá significar também o caráterheteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a67importância da civilização indígena esteja, final epenosamente, penetrando na consciência do corpo socialbrasileiro.

Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto II, julgue (C ou E) os itens subsecutivos.

  1. 1.

    A autora considera que o romance Maíra é uma incursão do romancista e antropólogo Darcy Ribeiro pelo épico e opina que um “narrador coletivo índio” (l.44) é responsável pelos melhores trechos da mencionada obra literária.

  2. 2.

    Ao afirmar que o “índio não teve muita sorte na literatura brasileira” (l.1), a autora indica que a representação literária dos personagens indígenas em romances brasileiros foi marcada pela presença do iñaron, “estado de fúria sagrada, associado ao sofrimento excessivo” (l. 20 e 21).

  3. 3.

    Ao comparar a representação do índio na literatura brasileira com a do índio na literatura hispano-americana, a autora conclui que romances com percepção antropológica costumam ser mais raros e tendem a incursionar pelo épico.

  4. 4.

    Conforme o texto, iñaron é palavra tupi que não é apropriada para denotar o sofrimento de todas as tribos indígenas, mas poderia denotar os sentimentos de fúria de heróis gregos como Agave e Aquiles.

Texto II

1 O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,depois do Romantismo. Enquanto nas letrashispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo4século XX adentro, com tantos e tão importantes criadoresdedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil sepodem contar nos dedos das mãos os casos.7 Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento egrande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações10uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre osíndios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado emfilme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira13incursão do autor pelo épico, a menos que se considere ahistória de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero. O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso16de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, oqual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comunsao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,19epidemias, perseguições, perde também um dos filhos. A palavra tupi iñaron designa um estado de fúriasagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de22lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vezacometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem25narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa dodesmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.28E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera deAquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à31recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, nãofosse sua fúria, o poema não teria sido composto. Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo34selvagem no país, quando o acirramento da acumulação levamultinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais aapropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,37encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dosMairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas astribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua40cultura sobreviver, com crescente dificuldade. O romance inteiro soa como uma lamentação, umcarpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.43Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais umaespécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira dever o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e46tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitorseu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver. A produção e publicação de um romance como esse,49agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca emsua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve seruma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,52filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todoslutando em defesa de sua preservação para a História. Quando55há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva dacivilização ocidental e entre nós é tão escandaloso ocapitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.58Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, dequem está aprendendo a perceber que outras civilizaçõesencontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para61males que hoje parecem irremediáveis, como o problema dopoder, da proliferação e potenciação dos armamentos, dadestruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da64igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca mortaao parir mestiços mortos poderá significar também o caráterheteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a67importância da civilização indígena esteja, final epenosamente, penetrando na consciência do corpo socialbrasileiro.

Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).

Acerca das relações semântico-sintáticas e do vocabulário do texto II, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 5.

    Na oração que inicia o segundo parágrafo, o verbo concorda com o primeiro núcleo do sujeito posposto, concordância verbal abonada pela gramática normativa.

  2. 6.

    Os termos “trágico” (l.15), “de Uirá” (l.16) e “deste século” (l.16) exercem a mesma função sintática, na oração em que ocorrem.

  3. 7.

    Mantendo-se a correção gramatical do texto, o segmento “fora transformado em filme” (l. 11 e 12) poderia ser reescrito da seguinte forma: foi transposto para o cinema.

  4. 8.

    Sem prejuízo da correção gramatical e do sentido do texto, a expressão “contar nos dedos das mãos” (l.6) poderia ser substituída por contar pelos dedos.

Texto I

1 “Ah, o Brasil, que país!”, exclama uma personagemde La Vie Dangereuse. “Que país, esse Brasil!”, repetirão,com diferentes entonações, o melancólico capitão de longo4curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de umdiplomata reformado. Na verdade, as dimensões míticas dessesubcontinente verde, sobrecarregado de movimento e de vida,7só poderiam fascinar a imaginação de Blaise Cendrars.Viajante sem bagagem e sem descanso, o poeta doTransiberiano já se havia declarado irrevogavelmente contra10as descrições de paisagens. Penetrar as coisas, interpretá-las,descrever ao seu modo animais e homens era a missão doviajante algo entediado.13 A dança da paisagem... As sempre mesmas Europas...Diante delas: o Brasil, vaga expressão geográfica, país novo,quase um desconhecido de si mesmo, imenso laboratório de16culturas onde coexistiam as mais contraditórias experiências detempo social. A síntese psicológica e cultural, a paisagemhumana feita de contrastes tão variados do Brasil teriam de19exercer gradativamente sobre Cendrars atração irresistível. Mesmo antes da Grande Guerra — está-se farto desaber —, o jovem escritor suíço pretendia, com argumentos22mais ou menos míticos, haver conhecido os países decisivosdo mundo, da China aos Estados Unidos da América, daAlemanha ao Egito. O seu prestígio no mundo literário,25consolidado já a partir de 1912 — data da primeira edição deLes Pâques à New York —, crescera definitivamente, no anoseguinte, com a Prose du Transsibérien et de la Petite28Jehanne de France, para não falarmos de outros textos quepublica em revistas de vanguarda. É preciso não esquecertambém algumas plaquettes ilustradas pelos pintores cubistas31mais conhecidos, e que os colecionadores disputam.A Anthologie Nègre, de 1921, vem a ser um êxito de públicoe de crítica; consegue mesmo rejuvenescer um pouco ainda a34moda primitivista, já em desfavor nos meios mais à vanguarda. É depois da publicação da Anthologie que ocompositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final37da guerra, procura a colaboração do poeta para um balé detema negro que deseja compor. De 1917 a 1918, Milhaud foraadido à Legação francesa no Rio de Janeiro. Viera para essa40cidade a convite de Paul Claudel, então chefe da missãodiplomática do seu país junto ao governo brasileiro, e que nãodesejava interromper a colaboração intelectual que ambos43mantinham na Europa. Compositor e poeta continuarão atrabalhar juntos no Brasil, em busca de uma integraçãodramática entre música e teatro declamado. Para Darius46Milhaud, entretanto, que também escreve a música incidentalpara a farsa lírica O Urso e a Lua, do seu chefe, a descobertada música popular brasileira — o maxixe, o choro, o49tanguinho, o samba —, com os seus problemas específicos deritmo, foi muito estimulante. No Rio, ele conhecera o jovemVilla-Lobos — para quem Stravinski acabara de ser uma52revelação —, que começava a encarar a possibilidade deutilizar, de maneira orgânica, o vasto folclore nacional. Por suavez, Milhaud, introduzido no ambiente da música popular do55Rio, recolhe o material que utilizará em seguida no Boeuf surle Toît, chaplinesca “cinema-sinfonia sobre temassul-americanos”, cujo título e frenético dinamismo se inspiram,58entre outros motivos, no maxixe Boi no Telhado, de ZéBoiadêro. Darius Milhaud foi, sem dúvida, o primeiro61intelectual a despertar a curiosidade de Cendrars pelo Brasil.Conhecedor do singular temperamento do amigo novo, ocompositor percebeu o interesse que a experiência de um64mundo inteiramente inédito — dessa paisagem deverasanônima, conforme Gobineau a classificara com hepático mauhumor cinquenta anos antes — iria provocar no poeta do67Panama. Mesmo assim, é pouco provável que, nessa época,Cendrars alimentasse o mais vago propósito de partir para aAmérica do Sul, rumo ao país delirante e ingênuo dos bois70no telhado. Os acontecimentos, porém, se precipitam.La Création du Monde seria dançada pelos Ballets Suédois,de Rolf de Maré, em outubro de 1923, e, em janeiro do ano73seguinte, com o irônico desprendimento do turista ocasional,Cendrars estava zarpando para o Brasil a bordo do Formoso,vapor que batia bandeira francesa.

Alexandre Eulálio. A aventura brasileira de Blaise Cendrars. São Paulo: Quíron, 1978, p.14-6 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens a seguir, relativos às ideias desenvolvidas no texto I.

  1. 9.

    Ao fazer referência à “moda primitivista” (l.34), Alexandre Eulálio trata do Brasil, “país novo, quase um desconhecido de si mesmo” (l. 14 e 15), que fascinava a imaginação de Blaise Cendrars.

  2. 10.

    Os títulos de Blaise Cendrars citados no texto, tais como Les Pâques à New York, Prose du Transsibérien e Panama, salientam a tendência do poeta suíço para os comentários sobre viagens, em sua obra, e seu interesse em conhecer lugares.

  3. 11.

    Conforme o texto, Blaise Cendrars deixou-se influenciar pelos temas nativistas e pelo “vasto folclore nacional” (l.53) que encontrou ao chegar ao Brasil e manter contato com os compositores do país.

  4. 12.

    O autor do texto informa sobre a criativa parceria de Darius Milhaud, Paul Claudel e Blaise Cendrars, determinante para a composição de obras coletivas dos três artistas.

Texto I

1 “Ah, o Brasil, que país!”, exclama uma personagemde La Vie Dangereuse. “Que país, esse Brasil!”, repetirão,com diferentes entonações, o melancólico capitão de longo4curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de umdiplomata reformado. Na verdade, as dimensões míticas dessesubcontinente verde, sobrecarregado de movimento e de vida,7só poderiam fascinar a imaginação de Blaise Cendrars.Viajante sem bagagem e sem descanso, o poeta doTransiberiano já se havia declarado irrevogavelmente contra10as descrições de paisagens. Penetrar as coisas, interpretá-las,descrever ao seu modo animais e homens era a missão doviajante algo entediado.13 A dança da paisagem... As sempre mesmas Europas...Diante delas: o Brasil, vaga expressão geográfica, país novo,quase um desconhecido de si mesmo, imenso laboratório de16culturas onde coexistiam as mais contraditórias experiências detempo social. A síntese psicológica e cultural, a paisagemhumana feita de contrastes tão variados do Brasil teriam de19exercer gradativamente sobre Cendrars atração irresistível. Mesmo antes da Grande Guerra — está-se farto desaber —, o jovem escritor suíço pretendia, com argumentos22mais ou menos míticos, haver conhecido os países decisivosdo mundo, da China aos Estados Unidos da América, daAlemanha ao Egito. O seu prestígio no mundo literário,25consolidado já a partir de 1912 — data da primeira edição deLes Pâques à New York —, crescera definitivamente, no anoseguinte, com a Prose du Transsibérien et de la Petite28Jehanne de France, para não falarmos de outros textos quepublica em revistas de vanguarda. É preciso não esquecertambém algumas plaquettes ilustradas pelos pintores cubistas31mais conhecidos, e que os colecionadores disputam.A Anthologie Nègre, de 1921, vem a ser um êxito de públicoe de crítica; consegue mesmo rejuvenescer um pouco ainda a34moda primitivista, já em desfavor nos meios mais à vanguarda. É depois da publicação da Anthologie que ocompositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final37da guerra, procura a colaboração do poeta para um balé detema negro que deseja compor. De 1917 a 1918, Milhaud foraadido à Legação francesa no Rio de Janeiro. Viera para essa40cidade a convite de Paul Claudel, então chefe da missãodiplomática do seu país junto ao governo brasileiro, e que nãodesejava interromper a colaboração intelectual que ambos43mantinham na Europa. Compositor e poeta continuarão atrabalhar juntos no Brasil, em busca de uma integraçãodramática entre música e teatro declamado. Para Darius46Milhaud, entretanto, que também escreve a música incidentalpara a farsa lírica O Urso e a Lua, do seu chefe, a descobertada música popular brasileira — o maxixe, o choro, o49tanguinho, o samba —, com os seus problemas específicos deritmo, foi muito estimulante. No Rio, ele conhecera o jovemVilla-Lobos — para quem Stravinski acabara de ser uma52revelação —, que começava a encarar a possibilidade deutilizar, de maneira orgânica, o vasto folclore nacional. Por suavez, Milhaud, introduzido no ambiente da música popular do55Rio, recolhe o material que utilizará em seguida no Boeuf surle Toît, chaplinesca “cinema-sinfonia sobre temassul-americanos”, cujo título e frenético dinamismo se inspiram,58entre outros motivos, no maxixe Boi no Telhado, de ZéBoiadêro. Darius Milhaud foi, sem dúvida, o primeiro61intelectual a despertar a curiosidade de Cendrars pelo Brasil.Conhecedor do singular temperamento do amigo novo, ocompositor percebeu o interesse que a experiência de um64mundo inteiramente inédito — dessa paisagem deverasanônima, conforme Gobineau a classificara com hepático mauhumor cinquenta anos antes — iria provocar no poeta do67Panama. Mesmo assim, é pouco provável que, nessa época,Cendrars alimentasse o mais vago propósito de partir para aAmérica do Sul, rumo ao país delirante e ingênuo dos bois70no telhado. Os acontecimentos, porém, se precipitam.La Création du Monde seria dançada pelos Ballets Suédois,de Rolf de Maré, em outubro de 1923, e, em janeiro do ano73seguinte, com o irônico desprendimento do turista ocasional,Cendrars estava zarpando para o Brasil a bordo do Formoso,vapor que batia bandeira francesa.

Alexandre Eulálio. A aventura brasileira de Blaise Cendrars. São Paulo: Quíron, 1978, p.14-6 (com adaptações).

Cada um dos itens subsequentes apresenta um trecho do texto I, seguido de uma proposta de reescrita desse trecho. Julgue cada item como certo (C), se sua reescrita mantiver as informações originais do trecho, ou como errado (E), se essa reescrita acarretar prejuízo às informações originais.

  1. 13.

    “É depois da publicação da Anthologie que o compositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final da guerra, procura a colaboração do poeta para um balé de tema negro que deseja compor.” (l. 35 a 38) — O compositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final da guerra, busca, após a publicação da Anthologie, a cooperação do poeta, para um balé de tema negro que deseja compor.

  2. 14.

    “É preciso não esquecer também algumas plaquettes ilustradas pelos pintores cubistas mais conhecidos, e que os colecionadores disputam.” (l. 29 a 31) — É necessário não esquecer também que os colecionadores disputam algumas plaquettes, ilustradas pelos pintores cubistas mais conhecidos.

  3. 15.

    “A síntese psicológica e cultural, a paisagem humana feita de contrastes tão variados do Brasil teriam de exercer gradativamente sobre Cendrars atração irresistível.” (l. 17 a 19) — Teriam de exercer atração gradualmente irresistível sobre Cendrars a paisagem humana constituída de contrastes do Brasil tão variado, a síntese da psicologia e da cultura.

  4. 16.

    “‘Ah, o Brasil, que país!’, exclama uma personagem de La Vie Dangereuse. ‘Que país, esse Brasil!’, repetirão, com diferentes entonações, o melancólico capitão de longo curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de um diplomata reformado.” (l. 1 a 5) — Uma personagem de La Vie Dangereuse exclama: “Ah, o Brasil, que país!”. O taciturno capitão de longo curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de um diplomata reformado reiterarão em distintas entonações: “Que país, esse Brasil!”.

Texto II

1 O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,depois do Romantismo. Enquanto nas letrashispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo4século XX adentro, com tantos e tão importantes criadoresdedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil sepodem contar nos dedos das mãos os casos.7 Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento egrande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações10uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre osíndios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado emfilme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira13incursão do autor pelo épico, a menos que se considere ahistória de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero. O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso16de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, oqual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comunsao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,19epidemias, perseguições, perde também um dos filhos. A palavra tupi iñaron designa um estado de fúriasagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de22lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vezacometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem25narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa dodesmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.28E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera deAquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à31recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, nãofosse sua fúria, o poema não teria sido composto. Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo34selvagem no país, quando o acirramento da acumulação levamultinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais aapropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,37encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dosMairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas astribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua40cultura sobreviver, com crescente dificuldade. O romance inteiro soa como uma lamentação, umcarpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.43Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais umaespécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira dever o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e46tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitorseu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver. A produção e publicação de um romance como esse,49agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca emsua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve seruma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,52filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todoslutando em defesa de sua preservação para a História. Quando55há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva dacivilização ocidental e entre nós é tão escandaloso ocapitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.58Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, dequem está aprendendo a perceber que outras civilizaçõesencontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para61males que hoje parecem irremediáveis, como o problema dopoder, da proliferação e potenciação dos armamentos, dadestruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da64igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca mortaao parir mestiços mortos poderá significar também o caráterheteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a67importância da civilização indígena esteja, final epenosamente, penetrando na consciência do corpo socialbrasileiro.

Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).

Considerando as relações semântico-sintáticas estabelecidas no texto II, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 17.

    As relações semântico-sintáticas no período “Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa do desmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas” (l. 26 e 27) sustentam a inferência de que Agave tinha mais de um filho e apenas um deles era adulto.

  2. 18.

    Infere-se do texto que, na tribo Urubu-Kaapor, a fúria sagrada se manifesta sempre que um parente, em especial, um filho, morre, o que, por consequência, demonstra que os índios dessa tribo valorizam os laços familiares e não aceitam a impermanência da existência humana.

  3. 19.

    A oração reduzida iniciada pelo gerúndio “incluindo” (l.10) poderia ser corretamente substituída pela seguinte oração desenvolvida: no qual se inclui vários trabalhos sobre os índios.

  4. 20.

    O trecho “viceja um esplêndido indigenismo” (l.3) indica que, para a autora, prosperou na literatura hispano-americana, durante todo o século XX, a imagem do índio como herói, como bom selvagem, ou seja, como elemento diferenciador da identidade de nações sul-americanas.

Texto III

1 Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foidegolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cujaporta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que4os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi quesaíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foramesses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz7alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejospor um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandezapara todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está10o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela advertetodos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem13sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nossopara, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”: Fatal destino o dos brasílios Mestres!16 Fatal destino o dos brasílios Vates! Política nefanda, horrenda e negra, pestilento Bulcão abafa e mata19 quanto, aos olhos de irônico estrangeiro, podia honrar o pátrio pensamento! Ora, um dos argumentos que os “irônicos22estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime25e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adultodotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiroé capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por28um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, sãopouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentesao primeiro exame, facílimos de desenredar.31 Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um34“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particularnão é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,37terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja numvelho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebreassassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:40“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeçaacima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmanchama impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística43criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito maiscomum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto decavalos”.46 A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero eoutros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na49mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista daAmérica Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muitomaiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e52aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhorese belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,55O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fuichamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujossúditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de58cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes61que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minhahistória, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desapariçãoprofética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e64bandeira do Reino Sertanejo.

Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto III, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 21.

    O narrador classifica Tobias Barreto de “excelso Gênio brasileiro” (l.32) por este haver escrito um romance que não expressou a índole de um povo superficial, uma vez que a narrativa se revelou enigmática e sangrenta.

  2. 22.

    O narrador do texto apresenta um “insolúvel enredo de ‘romance de crime e sangue’” (l. 24 e 25), a partir de um episódio familiar, constituído pela degola do seu padrinho e pelo rapto de Sinésio.

  3. 23.

    Para o narrador, a formação territorial do Brasil foi um ato de bravura que poderia fazer os brasileiros ultrapassarem os feitos narrados por Homero.

  4. 24.

    Conforme o narrador, brasileiros como Nicolau Fagundes Varela e Tobias Barreto escreveram contra os brasileiros, incapazes, para ambos, de decifrar os enigmas do país e de fazer aparecer um romance de gênio.

Texto II

1 O índio não teve muita sorte na literatura brasileira,depois do Romantismo. Enquanto nas letrashispano-americanas viceja um esplêndido indigenismo pelo4século XX adentro, com tantos e tão importantes criadoresdedicando-se a transpor o índio para a ficção, no Brasil sepodem contar nos dedos das mãos os casos.7 Torna a trazer o assunto à baila o aparecimento egrande vendagem de Maíra, romance de Darcy Ribeiro.O renomado antropólogo já tinha em seu acervo de realizações10uma respeitável brasiliana, incluindo vários trabalhos sobre osíndios, um dos quais, a história de Uirá, fora transformado emfilme no início da década de 70. Maíra é, portanto, a primeira13incursão do autor pelo épico, a menos que se considere ahistória de Uirá como uma primeira aproximação ao gênero. O relato, como o filme, dá conta do trágico percurso16de Uirá, da tribo Urubu-Kaapor, no Maranhão deste século, oqual um dia fica iñaron quando, após muitas desgraças comunsao destino dos índios brasileiros, como fome, espoliação,19epidemias, perseguições, perde também um dos filhos. A palavra tupi iñaron designa um estado de fúriasagrada, associado ao sofrimento excessivo, não deixando de22lembrar as famosas fúrias dos heróis gregos: Hércules, uma vezacometido por um desses acessos, enviado pela vingativa Hera,matou, sem o saber, seus três filhos e esposa, tal como vem25narrado na tragédia Héracles Furioso, de Eurípedes.Nas Bacantes, do mesmo autor, Agave, fora de si, participa dodesmembramento de seu filho adulto, Penteu, rei de Tebas.28E talvez o mais formidável exemplo seja o da cólera deAquiles, que dá nascimento à inteira composição da Ilíada,desencadeada por sua recusa a continuar lutando. Devido à31recusa de Aquiles, quase foi perdida a guerra de Troia e, nãofosse sua fúria, o poema não teria sido composto. Em meio ao furacão histórico da fase do capitalismo34selvagem no país, quando o acirramento da acumulação levamultinacionais e suas cabeças-de-ponte nacionais aapropriar-se dos mais recônditos confins com vistas ao lucro,37encontram-se, estonteados, os índios. O único problema dosMairum — nome inventado, tribo arquetípica de todas astribos, povo de Maíra — é como sobreviver e como fazer sua40cultura sobreviver, com crescente dificuldade. O romance inteiro soa como uma lamentação, umcarpir sobre o fim de uma civilização das mais admiráveis.43Seus trechos mais bem realizados são aqueles nos quais umaespécie de narrador coletivo índio dá conta de sua maneira dever o mundo, de como compreende e interpreta seus hábitos e46tradições; e, o que é mais importante, franqueia para o leitorseu tremendo desejo de sobrevivência e alegria de viver. A produção e publicação de um romance como esse,49agora, mostra como o índio está mais vivo do que nunca emsua conexão com a literatura brasileira. Tampouco deve seruma coincidência que, neste exato momento, outras ficções,52filmes, romances, peças de teatro, novelas de televisão,canções, estejam sendo feitos, todos sobre os índios, todoslutando em defesa de sua preservação para a História. Quando55há tanta desconfiança em relação à pulsão destrutiva dacivilização ocidental e entre nós é tão escandaloso ocapitalismo selvagem, isso pode vir a significar alguma coisa.58Talvez uma postura mais cautelosa e menos arrogante, dequem está aprendendo a perceber que outras civilizaçõesencontraram saídas melhores e, sobretudo, não suicidas para61males que hoje parecem irremediáveis, como o problema dopoder, da proliferação e potenciação dos armamentos, dadestruição da natureza, do Estado e de seu aparelho, da64igualdade nunca encontrada. A alegoria da moça branca mortaao parir mestiços mortos poderá significar também o caráterheteroletal e autoletal da etnia branca? Pode ser que a67importância da civilização indígena esteja, final epenosamente, penetrando na consciência do corpo socialbrasileiro.

Walnice Nogueira Galvão. Indianismo revisitado. In: Esboço de figura – Homenagem a Antonio Candido. São Paulo: Duas Cidades, 1979, p. 379-89 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens seguintes, relacionados às ideias desenvolvidas no texto II.

  1. 25.

    Ao citar exemplos da literatura grega antiga, Walnice Nogueira Galvão indica que a organização tribal é capaz de gerar conflitos e tensões que transcendem o Brasil ou o espaço hispano-americano.

  2. 26.

    Tanto o romance Maíra quanto o relato de Uirá exibem enredos marcados pelas dificuldades enfrentadas por tribos indígenas, atingidas por flagelos trazidos pela civilização não indígena.

  3. 27.

    Com o trecho “encontram-se, estonteados, os índios” (l.37), a autora do texto evidencia o confronto entre o “capitalismo selvagem no país” (l. 33 e 34) e a cultura indígena.

  4. 28.

    Ao afirmar que “o índio está mais vivo do que nunca em sua conexão com a literatura” (l. 49 e 50), a autora defende que romances como Maíra têm o mérito de salvar tribos e civilizações indígenas das forças destrutivas que predominam nas sociedades.

Texto III

1 Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foidegolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cujaporta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que4os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi quesaíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foramesses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz7alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejospor um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandezapara todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está10o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela advertetodos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem13sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nossopara, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”: Fatal destino o dos brasílios Mestres!16 Fatal destino o dos brasílios Vates! Política nefanda, horrenda e negra, pestilento Bulcão abafa e mata19 quanto, aos olhos de irônico estrangeiro, podia honrar o pátrio pensamento! Ora, um dos argumentos que os “irônicos22estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime25e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adultodotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiroé capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por28um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, sãopouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentesao primeiro exame, facílimos de desenredar.31 Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um34“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particularnão é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,37terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja numvelho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebreassassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:40“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeçaacima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmanchama impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística43criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito maiscomum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto decavalos”.46 A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero eoutros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na49mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista daAmérica Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muitomaiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e52aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhorese belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,55O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fuichamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujossúditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de58cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes61que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minhahistória, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desapariçãoprofética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e64bandeira do Reino Sertanejo.

Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens subsequentes, relativos às ideias desenvolvidas no texto III.

  1. 29.

    Em “somos incapazes de forjar uma verdadeira trança, uma intrincada teia” (l. 23 e 24), a palavra “trança” foi empregada no sentido de trama.

  2. 30.

    Em “E comenta, ácido” (l.39), a palavra “ácido” foi empregada, com ironia, para ridicularizar o Desembargador Pontes Visgueiro, criminoso de Alagoas.

  3. 31.

    O trecho “Até na estatística criminal o nosso país revela-se mesquinho” (l. 42 e 43), atribuído pelo narrador a Tobias Barreto, indica que os ‘irônicos estrangeiros’ ridicularizam a pouca capacidade dos brasileiros de conhecerem a realidade em que vivem.

  4. 32.

    Além de revelar sua identidade e algumas de suas alcunhas, o narrador do texto declara-se apto a, com sua história, superar os irônicos, sejam eles estrangeiros ou não.

Texto I

1 “Ah, o Brasil, que país!”, exclama uma personagemde La Vie Dangereuse. “Que país, esse Brasil!”, repetirão,com diferentes entonações, o melancólico capitão de longo4curso, um agente da Terceira Internacional, a mulher de umdiplomata reformado. Na verdade, as dimensões míticas dessesubcontinente verde, sobrecarregado de movimento e de vida,7só poderiam fascinar a imaginação de Blaise Cendrars.Viajante sem bagagem e sem descanso, o poeta doTransiberiano já se havia declarado irrevogavelmente contra10as descrições de paisagens. Penetrar as coisas, interpretá-las,descrever ao seu modo animais e homens era a missão doviajante algo entediado.13 A dança da paisagem... As sempre mesmas Europas...Diante delas: o Brasil, vaga expressão geográfica, país novo,quase um desconhecido de si mesmo, imenso laboratório de16culturas onde coexistiam as mais contraditórias experiências detempo social. A síntese psicológica e cultural, a paisagemhumana feita de contrastes tão variados do Brasil teriam de19exercer gradativamente sobre Cendrars atração irresistível. Mesmo antes da Grande Guerra — está-se farto desaber —, o jovem escritor suíço pretendia, com argumentos22mais ou menos míticos, haver conhecido os países decisivosdo mundo, da China aos Estados Unidos da América, daAlemanha ao Egito. O seu prestígio no mundo literário,25consolidado já a partir de 1912 — data da primeira edição deLes Pâques à New York —, crescera definitivamente, no anoseguinte, com a Prose du Transsibérien et de la Petite28Jehanne de France, para não falarmos de outros textos quepublica em revistas de vanguarda. É preciso não esquecertambém algumas plaquettes ilustradas pelos pintores cubistas31mais conhecidos, e que os colecionadores disputam.A Anthologie Nègre, de 1921, vem a ser um êxito de públicoe de crítica; consegue mesmo rejuvenescer um pouco ainda a34moda primitivista, já em desfavor nos meios mais à vanguarda. É depois da publicação da Anthologie que ocompositor Darius Milhaud, interessado pelo jazz desde o final37da guerra, procura a colaboração do poeta para um balé detema negro que deseja compor. De 1917 a 1918, Milhaud foraadido à Legação francesa no Rio de Janeiro. Viera para essa40cidade a convite de Paul Claudel, então chefe da missãodiplomática do seu país junto ao governo brasileiro, e que nãodesejava interromper a colaboração intelectual que ambos43mantinham na Europa. Compositor e poeta continuarão atrabalhar juntos no Brasil, em busca de uma integraçãodramática entre música e teatro declamado. Para Darius46Milhaud, entretanto, que também escreve a música incidentalpara a farsa lírica O Urso e a Lua, do seu chefe, a descobertada música popular brasileira — o maxixe, o choro, o49tanguinho, o samba —, com os seus problemas específicos deritmo, foi muito estimulante. No Rio, ele conhecera o jovemVilla-Lobos — para quem Stravinski acabara de ser uma52revelação —, que começava a encarar a possibilidade deutilizar, de maneira orgânica, o vasto folclore nacional. Por suavez, Milhaud, introduzido no ambiente da música popular do55Rio, recolhe o material que utilizará em seguida no Boeuf surle Toît, chaplinesca “cinema-sinfonia sobre temassul-americanos”, cujo título e frenético dinamismo se inspiram,58entre outros motivos, no maxixe Boi no Telhado, de ZéBoiadêro. Darius Milhaud foi, sem dúvida, o primeiro61intelectual a despertar a curiosidade de Cendrars pelo Brasil.Conhecedor do singular temperamento do amigo novo, ocompositor percebeu o interesse que a experiência de um64mundo inteiramente inédito — dessa paisagem deverasanônima, conforme Gobineau a classificara com hepático mauhumor cinquenta anos antes — iria provocar no poeta do67Panama. Mesmo assim, é pouco provável que, nessa época,Cendrars alimentasse o mais vago propósito de partir para aAmérica do Sul, rumo ao país delirante e ingênuo dos bois70no telhado. Os acontecimentos, porém, se precipitam.La Création du Monde seria dançada pelos Ballets Suédois,de Rolf de Maré, em outubro de 1923, e, em janeiro do ano73seguinte, com o irônico desprendimento do turista ocasional,Cendrars estava zarpando para o Brasil a bordo do Formoso,vapor que batia bandeira francesa.

Alexandre Eulálio. A aventura brasileira de Blaise Cendrars. São Paulo: Quíron, 1978, p.14-6 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto I, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 33.

    Darius Milhaud, compositor que exerceu funções diplomáticas no Rio de Janeiro, inspirou-se na música popular carioca para compor o Boeuf sur le Toît.

  2. 34.

    Porquanto, conforme o texto, Blaise Cendrars era “Viajante sem bagagem e sem descanso” (l.8) e exibia “o irônico desprendimento do turista ocasional” (l.73), é correto concluir que o “poeta do Transiberiano” (l. 8 e 9) viajava ao acaso, sem que o motivasse maior curiosidade pelos lugares a que se dirigia.

  3. 35.

    O trecho “paisagem deveras anônima” (l. 64 e 65), que apresenta expressão atribuída a Gobineau, faz referência a um lugar novo e ainda desconhecido, tendo sentido similar ao do trecho “um mundo inteiramente inédito” (l. 63 e 64).

  4. 36.

    Segundo o autor do texto, Blaise Cendrars foi instigado a viajar ao Brasil devido à existência, no país, de ritmos musicais exóticos, entre os quais o maxixe.

Texto III

1 Pergunto: e agora? Como é que meu Padrinho foidegolado num quarto de pesadas paredes sem janelas, cujaporta fora trancada, por dentro, por ele mesmo? Como foi que4os assassinos ali penetraram, sem ter por onde? Como foi quesaíram, deixando o quarto trancado por dentro? Quem foramesses assassinos? Como foi que raptaram Sinésio, aquele rapaz7alumioso, que concentrava em si as esperanças dos Sertanejospor um Reino de glória, de justiça, de beleza e de grandezapara todos? Bem, não posso avançar nada, porque aí é que está10o nó! Este é o “centro de enigma e sangue” da minha história.Lembro que o genial poeta Nicolau Fagundes Varela advertetodos nós, Brasileiros, de que “os irônicos estrangeiros” vivem13sempre vigilantes, sempre à espreita do menor deslize nossopara, então, “ridicularizar o pátrio pensamento”: Fatal destino o dos brasílios Mestres!16 Fatal destino o dos brasílios Vates! Política nefanda, horrenda e negra, pestilento Bulcão abafa e mata19 quanto, aos olhos de irônico estrangeiro, podia honrar o pátrio pensamento! Ora, um dos argumentos que os “irônicos22estrangeiros” mais invocam para isso é dizer que nós,Brasileiros, somos incapazes de forjar uma verdadeira trança,uma intrincada teia, um insolúvel enredo de “romance de crime25e sangue”. Dizem eles que não é necessário nem um adultodotado de argúcia especial: qualquer adolescente estrangeiroé capaz de decifrar os enigmas brasileiros, os quais, tecidos por28um Povo superficial, à luz de um Sol por demais luminoso, sãopouco sombrios, pouco maldosos e subterrâneos, transparentesao primeiro exame, facílimos de desenredar.31 Ah, e se fossem somente os estrangeiros, ainda ia:mas até o excelso Gênio brasileiro Tobias Barreto, aí é demais!Diz Tobias Barreto que, no Brasil, é impossível aparecer um34“romance de gênio”, porque “a nossa vida pública e particularnão é bastante fértil de peripécias e lances romanescos”.Lamenta que seja raro, entre nós, “um amor sincero, delirante,37terrível e sanguinário”, ou que, quando apareça, seja numvelho como o Desembargador Pontes Visgueiro, o célebreassassino alagoano do Segundo Império. E comenta, ácido:40“Um ou outro crime, mesmo, que porventura erga a cabeçaacima do nível da vulgaridade, são coisas que não desmanchama impressão geral da monotonia contínua. Até na estatística43criminal o nosso país revela-se mesquinho. O delito maiscomum é justamente o mais frívolo e estúpido: o furto decavalos”.46 A gente lê uma coisa dessas e fica até desanimado,julgando ser impossível a um Brasileiro ultrapassar Homero eoutros conceituados gênios estrangeiros! A sorte é que, na49mesma hora, o Doutor Samuel nos lembra que a conquista daAmérica Latina “foi uma Epopeia”. Vemos que somos muitomaiores do que a Grécia — aquela porqueirinha de terra! — e52aí descansamos o pobre coração, amargurado pelas injustiças,mas também incendiado de esperanças! Sim, nobres Senhorese belas Damas: porque eu, Dom Pedro Quaderna (Quaderna,55O Astrólogo, Quaderna, O Decifrador, como tantas vezes fuichamado); eu, Poeta-guerreiro e soberano de um Reino cujossúditos são, quase todos, cavalarianos, trocadores e ladrões de58cavalo, desafio qualquer irônico, estrangeiro ou Brasileiro,primeiro a narrar uma história de amor mais sangrenta, terrível,cruel e delirante do que a minha; e, depois, a decifrar, antes61que eu o faça, o centro enigmático de crime e sangue da minhahistória, isto é, a degola do meu Padrinho e a “desapariçãoprofética” de seu filho Sinésio, O Alumioso, esperança e64bandeira do Reino Sertanejo.

Ariano Suassuna. A pedra do reino. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, 3.ª ed., p. 27-30 (com adaptações).

Com referência ao texto III, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 37.

    No trecho “porque eu, Dom Pedro Quaderna” (l.54), a conjunção “porque” é expressão de realce, empregada de modo expletivo, visto que não estabelece relação entre a oração que ela introduz e outra oração do período.

  2. 38.

    Sem prejuízo da informação veiculada no relato e da correção gramatical do texto, a vírgula empregada logo após “janelas” (l.2) poderia ser substituída pelo conector e.

  3. 39.

    No sintagma “os ‘irônicos estrangeiros’” (l. 21 e 22), o vocábulo ‘irônicos’ é o núcleo do sujeito, o que é confirmado pelo emprego de “irônico” em “desafio qualquer irônico” (l.58).

  4. 40.

    No excerto apresentado, são exemplos do uso da linguagem formal escrita: a construção com o pronome relativo “cujos” (l.56) e o emprego da forma verbal “faça” na oração “antes que eu o faça” (l. 60 e 61).

Texto IV

1 Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimiro sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla4significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — emcertas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra7gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de umhomem não é somente o seu feitio moral, senão também aexpressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a10personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obrae o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti13del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples epessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bemconcebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos16simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas nosentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que oautor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor19caminho para atingir a esta. O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo daperfeição.22 O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôdenaturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar aexpressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se25despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraquezade técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quasenecessários em quem apenas se inicia.28 A essência do livro é excelente. Indica no autor uma personalidade inconfundível, queprocura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua31estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nemse perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridadede caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa34independência sem esforço, reside o da obra em suaoriginalidade natural; na conformidade com o meio, em umaperfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da37construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal ede outras produções secundárias, concorre para a40individualidade desse esplêndido ensaio. O caráter desse livro se conserva pela ressonância quetem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com43tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. Sãoversos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente namemória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e46no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se nãoé principalmente isso. E um dos mais seguros processos deintuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência49das sensações. Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam umafunda impressão de sua leitura: não pode haver melhor52demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não selimitar aos leitores e aos críticos, e se estender à próprialiteratura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo55que lhe auguro. Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma liçãoprofunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a58evidência da beleza não pode ser em arte um critérioaxiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia daemoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como61a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossareceptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuiçãoíntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.64 O poema do Sr. Menotti del Picchia tem asimplicidade e a frescura das criações espontâneas enecessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro67como deve. Para lhe realçar a beleza não se sente a críticacompelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias70arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível queleva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgirconsolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e73do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suaslinhas harmoniosas. A beleza maior do poema, que é também o seu76caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiuvoluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seulirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com79isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisessemarcar: a acústica de uma construção humana nunca chega àacuidade de um eco natural.82 Juca Mulato é a reconciliação do homem consigomesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seuisolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,85sempre necessária, raramente realizada. O consolo de JucaMulato é a indicação do caminho a seguir.

Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto IV, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 41.

    O autor do excerto valoriza a simplicidade do poema Juca Mulato, comparando-a à das sinfonias de Beethoven e à dos dramas musicais de Wagner, o que faria aumentar a receptividade dessas obras.

  2. 42.

    Embora afirme que os versos de Juca Mulato “Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes” (l.42), o autor do texto os considera marcantes.

  3. 43.

    Segundo Alceu Amoroso Lima, a “simplicidade radical” (l.76) de Juca Mulato, julgado comovente, não estimula a crítica a buscar nem “símbolos problemáticos” (l.69) nem “filosofias arbitrárias” (l. 69 e 70) na análise do poema.

  4. 44.

    A afirmação de que “O caráter desse livro se conserva pela ressonância que tem” (l. 41 e 42) indica que, para o crítico, os versos de Juca Mulato se perpetuam caso sejam lidos em voz alta ou declamados.

Texto IV

1 Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimiro sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla4significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — emcertas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra7gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de umhomem não é somente o seu feitio moral, senão também aexpressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a10personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obrae o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti13del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples epessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bemconcebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos16simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas nosentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que oautor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor19caminho para atingir a esta. O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo daperfeição.22 O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôdenaturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar aexpressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se25despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraquezade técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quasenecessários em quem apenas se inicia.28 A essência do livro é excelente. Indica no autor uma personalidade inconfundível, queprocura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua31estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nemse perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridadede caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa34independência sem esforço, reside o da obra em suaoriginalidade natural; na conformidade com o meio, em umaperfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da37construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal ede outras produções secundárias, concorre para a40individualidade desse esplêndido ensaio. O caráter desse livro se conserva pela ressonância quetem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com43tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. Sãoversos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente namemória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e46no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se nãoé principalmente isso. E um dos mais seguros processos deintuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência49das sensações. Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam umafunda impressão de sua leitura: não pode haver melhor52demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não selimitar aos leitores e aos críticos, e se estender à próprialiteratura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo55que lhe auguro. Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma liçãoprofunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a58evidência da beleza não pode ser em arte um critérioaxiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia daemoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como61a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossareceptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuiçãoíntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.64 O poema do Sr. Menotti del Picchia tem asimplicidade e a frescura das criações espontâneas enecessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro67como deve. Para lhe realçar a beleza não se sente a críticacompelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias70arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível queleva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgirconsolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e73do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suaslinhas harmoniosas. A beleza maior do poema, que é também o seu76caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiuvoluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seulirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com79isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisessemarcar: a acústica de uma construção humana nunca chega àacuidade de um eco natural.82 Juca Mulato é a reconciliação do homem consigomesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seuisolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,85sempre necessária, raramente realizada. O consolo de JucaMulato é a indicação do caminho a seguir.

Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens seguintes, relativos a acentuação de palavras e a aspectos gramaticais do texto IV.

  1. 45.

    Os pronomes demonstrativos “isso” (l.47) e “esse” (l.48) retomam, respectivamente, o sentido de julgar e decompor as obras e o de processo. POLÍTICA INTERNACIONAL

  2. 46.

    A forma “pôde” (l.22) poderia ser corretamente substituída por pode, visto que o seu tempo verbal é depreendido pelo contexto do parágrafo e que o acento nela empregado é opcional.

  3. 47.

    No texto, com a expressão “essa arte de titãs” (l.62), o autor faz referência à arte da música.

  4. 48.

    No trecho “É certo que a evidência da beleza não pode ser em arte um critério axiomático” (l. 57 a 59), tanto o termo “certo” quanto o termo “axiomático” caracterizam, respectivamente, referentes que constituem sujeitos oracionais.

Texto IV

1 Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimiro sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla4significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — emcertas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra7gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de umhomem não é somente o seu feitio moral, senão também aexpressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a10personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obrae o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti13del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples epessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bemconcebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos16simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas nosentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que oautor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor19caminho para atingir a esta. O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo daperfeição.22 O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôdenaturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar aexpressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se25despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraquezade técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quasenecessários em quem apenas se inicia.28 A essência do livro é excelente. Indica no autor uma personalidade inconfundível, queprocura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua31estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nemse perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridadede caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa34independência sem esforço, reside o da obra em suaoriginalidade natural; na conformidade com o meio, em umaperfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da37construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal ede outras produções secundárias, concorre para a40individualidade desse esplêndido ensaio. O caráter desse livro se conserva pela ressonância quetem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com43tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. Sãoversos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente namemória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e46no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se nãoé principalmente isso. E um dos mais seguros processos deintuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência49das sensações. Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam umafunda impressão de sua leitura: não pode haver melhor52demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não selimitar aos leitores e aos críticos, e se estender à próprialiteratura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo55que lhe auguro. Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma liçãoprofunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a58evidência da beleza não pode ser em arte um critérioaxiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia daemoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como61a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossareceptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuiçãoíntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.64 O poema do Sr. Menotti del Picchia tem asimplicidade e a frescura das criações espontâneas enecessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro67como deve. Para lhe realçar a beleza não se sente a críticacompelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias70arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível queleva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgirconsolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e73do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suaslinhas harmoniosas. A beleza maior do poema, que é também o seu76caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiuvoluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seulirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com79isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisessemarcar: a acústica de uma construção humana nunca chega àacuidade de um eco natural.82 Juca Mulato é a reconciliação do homem consigomesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seuisolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,85sempre necessária, raramente realizada. O consolo de JucaMulato é a indicação do caminho a seguir.

Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).

Com relação às ideias e às estruturas linguísticas do texto IV, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 49.

    No período “Ganhou com isso (...) um eco natural” (l. 78 a 81), o sinal de dois-pontos poderia ser substituído por um travessão, sem que o sentido do texto e sua correção gramatical fossem prejudicados.

  2. 50.

    Seriam mantidos o sentido original e a correção gramatical do trecho “se bem que a intuição íntima e a explicação individual sejam imprescindíveis” (l. 62 e 63), caso a expressão “se bem que” e a forma verbal “sejam” fossem substituídas, respectivamente, pelo termo porquanto e pela forma verbal são.

  3. 51.

    O trecho “se não corrente” (l.4) poderia ser corretamente substituído por se não for corrente, preservando-se o sentido original do texto.

  4. 52.

    A inserção de uma vírgula logo após “impossível”, em “um mal de amor impossível que leva a alma à desesperança” (l. 70 e 71), obrigaria à interpretação de que todo mal de amor impossível leva a alma a tal consequência.

Texto IV

1 Em suas remotas origens helênicas, o termo “caráter”significou gravar. Empregavam-no, então, tanto para exprimiro sinete como a marca deixada na cera dócil. Essa dupla4significação ainda hoje é vernácula — se não corrente — emcertas acepções. Na linguagem tipográfica, por exemplo,“caráter” tanto é o tipo da imprensa como o sinal ou a letra7gravada. Assim sendo, podemos dizer que o caráter de umhomem não é somente o seu feitio moral, senão também aexpressão e a impressão do indivíduo. Em arte, caráter será a10personalidade do autor, o aspecto aparente e profundo da obrae o efeito dela. Fixada assim a verdadeira acepção do termo,podemos afirmar que o mérito maior do poema do Sr. Menotti13del Picchia é “o caráter”. Poesia profundamente simples epessoal, de inspiração larga e sadia, tem a força das obras bemconcebidas e a beleza das coisas naturais. Poesia de corpos16simples, poderíamos dizer, pela sobriedade de linhas nosentimento, no pensamento e na expressão. Sente-se que oautor procurou a naturalidade e não a arte, que é o melhor19caminho para atingir a esta. O segredo da arte é a naturalidade sem prejuízo daperfeição.22 O Sr. Menotti del Picchia ainda não pôdenaturalmente desvendar o segredo da arte. Se no buscar aexpressão natural do seu lirismo alcançou a arte, não se25despojou ainda das incertezas dessa procura, de certa fraquezade técnica. Defeitos são todos estes transitórios, quasenecessários em quem apenas se inicia.28 A essência do livro é excelente. Indica no autor uma personalidade inconfundível, queprocura em si mesmo ou em torno de si os motivos de sua31estética. Nem se distingue pela obsessão do isolamento, nemse perde por modelos estranhos. Daí lhe vem a superioridadede caráter individual. Se o caráter do autor provém dessa34independência sem esforço, reside o da obra em suaoriginalidade natural; na conformidade com o meio, em umaperfeita radicação no solo pátrio, na simplicidade da37construção e nas perfeitas proporções do ímpeto poético.O próprio desconcerto, em pormenores do poema principal ede outras produções secundárias, concorre para a40individualidade desse esplêndido ensaio. O caráter desse livro se conserva pela ressonância quetem. Não são versos agradáveis, suaves ou elegantes, que com43tanto agrado se leem quanto facilmente se esquecem. Sãoversos que lidos — ficam; gravam-se invencivelmente namemória, ora destacados, ora em bloco. A crítica, no julgar e46no decompor as obras, não pode desprezar a intuição, se nãoé principalmente isso. E um dos mais seguros processos deintuição, no distinguir o valor das obras, é esse da permanência49das sensações. Os poemas do Sr. Menotti del Picchia deixam umafunda impressão de sua leitura: não pode haver melhor52demonstração do seu “caráter”. Quando essa impressão não selimitar aos leitores e aos críticos, e se estender à próprialiteratura nacional, terá a sua poesia atingido o grau supremo55que lhe auguro. Juca Mulato é um poema simples. Encerra uma liçãoprofunda na singeleza do motivo e da intenção. É certo que a58evidência da beleza não pode ser em arte um critérioaxiomático. Quantas vezes a paciência é o melhor guia daemoção estética? A exegese das sinfonias de Beethoven, como61a dos dramas musicais de Wagner, aumenta a nossareceptividade para essa arte de titãs, se bem que a intuiçãoíntima e a explicação individual sejam imprescindíveis.64 O poema do Sr. Menotti del Picchia tem asimplicidade e a frescura das criações espontâneas enecessárias, onde o esforço da composição permanece obscuro67como deve. Para lhe realçar a beleza não se sente a críticacompelida a buscar símbolos problemáticos ou filosofias70arbitrárias. Sendo o que é — um mal de amor impossível queleva a alma à desesperança, para se resignar depois e ressurgirconsolada pela visão da terra amada, da felicidade atingível e73do sonho necessário —, comove pelo simples aspecto de suaslinhas harmoniosas. A beleza maior do poema, que é também o seu76caráter, está na sua simplicidade radical. O poeta reprimiuvoluntariamente as possíveis exuberâncias ou ambições de seulirismo para ficar dentro do assunto que escolheu. Ganhou com79isso um grande poder virtual e marca mais do que se quisessemarcar: a acústica de uma construção humana nunca chega àacuidade de um eco natural.82 Juca Mulato é a reconciliação do homem consigomesmo, do brasileiro com sua terra, do bárbaro com seuisolamento. Reconciliação às vezes impossível, outras ilusória,85sempre necessária, raramente realizada. O consolo de JucaMulato é a indicação do caminho a seguir.

Alceu Amoroso Lima. Um poeta. In: Estudos literários. Rio de Janeiro: Aguilar, 1966, p.133-5 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto IV, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 53.

    Na percepção do autor do texto, a simplicidade do poema Juca Mulato resulta da combinação entre a “obsessão do isolamento” (l.31) e os “modelos estranhos” (l.32) à criação literária.

  2. 54.

    Alceu Amoroso Lima salienta a presença da tradição helênica no poema Juca Mulato, de Menotti del Picchia, marcante pela simplicidade, pela sobriedade e pelo caráter.

  3. 55.

    O autor do excerto afirma que a crítica precisa levar em conta a intuição no julgamento e na análise da obra de arte.

  4. 56.

    Ao afirmar que Menotti del Picchia “procurou a naturalidade e não a arte” (l.18), o autor do texto indica que Juca Mulato é um “poema simples” (l.56), destituído de qualquer valor artístico.

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