Língua Portuguesa — CACD 2014

CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 56 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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1 — Este livro não é meu! Meu Deus, o que fizeram domeu livro? A exclamação, patética, vinha da famosa jornalista4internacional Oriana Fallaci (no caso, como escritora), aoperceber que a tradução brasileira de seu livro Um homem(1981) não era fiel à estrutura paragráfica do original,7construída em forma de monólogo compacto. O que a escritoraconcebera como blocos de longo discurso interior foitransformado, na tradução, em diálogos convencionais. Em10posterior entrevista, Fallaci definiu, como criadora, seu pontode vista: — Em Um homem, todos os diálogos são dados sem13parágrafo, e não só porque esse é notoriamente o meu modo deescrever, de obter o ritmo da página, a musicalidade da língua,mas porque isso corresponde a uma rigorosa necessidade de16estilo ditada pela substância do livro. Nele, o diálogo é umdiálogo recordado, um diálogo interior, e não um diálogo quedetermina um diálogo. É um livro em que a forma e a19substância, o estilo e o significado se integramindissoluvelmente. E trabalhei tanto para escrevê-lo! Trêslongos anos sem nunca deixar aquele quarto e aquela pequena22mesa, jamais uma interrupção, nada de férias, nada dedomingos, nada de natais e páscoas. Sempre trabalhando, demanhã à noite, refazendo, corrigindo, limando o estilo,25cuidando da ausência de parágrafos. Com seu protesto, Oriana Fallaci levantou, na época,um sério problema de editoração, aliás, um problema duplo: a28técnica literária do autor e — o mais importante para o editorde texto — o respeito em relação a essa técnica, que a autoradefiniu como estilo. Vejamos a questão por partes.31 No que concerne à técnica literária dos diálogos, atéo século XIX conheciam-se apenas o discurso direto e odiscurso narrativo ou indireto. A partir de meados desse século,34entretanto, surgiu o discurso aparente ou discurso indireto livre.De início, nesse caso, os autores usaram aspas para nãoconfundir o leitor, mas estas seriam logo abandonadas como37técnica narrativa. Quanto ao estilo, foi com a Revolução Industrial, valedizer, com o amadurecimento da sociedade capitalista, que os40escritores começaram a ter consciência não da forma em geral,mas da forma individual, da maneira particular de exposição decada autor como artista que produz obra única e consumada. A43revolução das técnicas e do mercado, traduzindo-se no binômiovelocidade-quantidade, suscitou a massificação do livro, contraa qual emergiu a figura do autor como artista, como criador por46excelência, como aquele que domina a gramática para ter odireito de fraturá-la. Roland Barthes (1971) observa que, assim, começa a elaborar-se uma imagética do escritor-artesão que se49 fecha num lugar lendário, como um operário na oficina, e desbasta, talha, pule e engasta sua forma, exatamente como um lapidário extrai a arte da matéria, passando, nesse trabalho, horas52 regulares de solidão e esforço. Esse valor-trabalho substitui, de certa maneira, o valor-gênio; há uma certa vaidade em dizer que se trabalha bastante e longamente a forma.55 Desde então, ao se trabalhar com obras em que oelemento primordial é a informação, existe a liberdade deredisposição dos originais em benefício da clareza, mas, com58produção literária, impõe-se absoluto privilégio autoral, que éum princípio socialmente reconhecido, com o qual o editor detexto sempre convive.

Emanuel Araújo. A construção do livro: princípios da técnica de editoração. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 2000, p. (com adaptações).

No que se refere aos sentidos do texto de E. Araújo, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 1.

    No sexto parágrafo (l.38-54), o autor remete à ideia de licença poética, que está associada, no texto, ao despertar da consciência dos escritores quanto à forma de suas obras.

  2. 2.

    Infere-se da argumentação de Oriana Fallaci que, para a escritora, “um diálogo que determina um diálogo” (l.17-18) corresponde à forma de se concentrar cada fala em um bloco paragráfico, iniciado por travessão.

  3. 3.

    Depreende-se do texto que a escritora Oriana Fallaci protestou contra a formatação de seu original traduzido porque almejava, com a obra Um homem, ficar conhecida por sua técnica inovadora na apresentação de diálogos, integrando estilo e forma.

  4. 4.

    Depreende-se das ideias desenvolvidas no trecho da citação de Roland Barthes que o sentido de “valor-gênio” (l.53) relaciona-se à obra cuja forma não exige muito trabalho e em cujo valor prevalece o talento do autor.

1 A crônica não é um “gênero maior”. Não se imaginauma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem obrilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e4poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a umcronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que acrônica é um gênero menor.7 “Graças a Deus”, seria o caso de dizer, porque, sendoassim, ela fica mais perto de nós. E para muitos pode servir decaminho não apenas para a vida, que ela serve de perto, mas10para a literatura. Por meio dos assuntos, da composição solta,do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela seajusta à sensibilidade de todo dia. Principalmente porque13elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de sermais natural. Na sua despretensão, humaniza; e estahumanização lhe permite, como compensação sorrateira,16recuperar com a outra mão certa profundidade de significadoe certo acabamento de forma, que de repente podem fazer delauma inesperada, embora discreta, candidata à perfeição.

Antonio Candido. A vida ao rés do chão. In: Recortes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. (com adaptações).

Ainda em relação ao texto, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 5.

    As formas verbais “imagina” (l.1), “atribuir” (l.4) e “servir” (l.8) foram utilizadas como verbos transitivos indiretos.

  2. 6.

    No trecho “Principalmente porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser mais natural” (l.12-14), o autor indica que a crônica e a linguagem falada é a que consegue a mais perfeita comunicação literária.

  3. 7.

    Há elementos no texto que permitem deduzir que, segundo o autor, a crônica será um gênero maior quando o Prêmio Nobel for concedido a um cronista.

  4. 8.

    No trecho “certa profundidade de significado e certo acabamento de forma” (l.16-17), o adjetivo “certo” e sua forma flexionada no feminino foram utilizados com o sentido exato, preciso, correto.

1 A correspondência de Mário de Andrade é uma dasfontes sobre os sentimentos que abateram a intelectualidadepaulista, sobretudo no trauma de 1932, quando São Paulo foi4invadido por tropas federais, que ocuparam a capital e sealastraram pelo interior (“Disputam esfomeadamente a presasublime, e desgraçadamente está certo, essa é a lei dos homens.7Dos homens selvagens.”, desabafa Mário em carta a PauloDuarte). As consequências dos expedientes da ditaduraabateram um estado cujos habitantes eram considerados por10Mário como “diferentes mesmo”. O que se fizesse naqueleestado, apostava, se irradiaria como política e como orientaçãopelo país, uma reedição, por via da cultura, do velho slogan:13“São Paulo, a locomotiva puxando os vagões”. “Minha pátria é São Paulo. E isso não me desagrada.”,confessa o poeta paulista a Drummond no calor de um conflito16que os encontrou em lados opostos. Drummond já estava nachefia de gabinete do secretário de Interior e Justiça de MinasGerais, aliado ao poder central naquele momento, e Mário era19partidário da causa da Revolução Constitucionalista de 1932.O paulista sabia que estava acometido de um estadoextraordinário de mobilização, frustração e abatimento, como22revela o seguinte trecho de carta a Drummond. “Você, Carlos, perdoe um ser descalibrado. Este é ocastigo de viver sempre apaixonadamente a toda hora e em25qualquer minuto, que é o sentido da minha vida. No momento,eu faria tudo, daria tudo pra São Paulo se separar do Brasil.Não meço consequências, não tenho doutrina, apenas continuo28entregue à unanimidade, apaixonadamente entregue...”

Helena Bomeny. Um poeta na política – Mário de Andrade, paixão e compromisso. 1.ª ed., Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012, p. 71-2 (com adaptações).

No que concerne a aspectos gramaticais do texto acima, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 9.

    No excerto entre parênteses (l.5-8), em que predomina a função poética da linguagem, é exemplo de construção sintática típica da linguagem coloquial: ‘e desgraçadamente está certo, essa é a lei dos homens.’

  2. 10.

    Depreende-se das ideias do texto que a criação do slogan “São Paulo, a locomotiva puxando os vagões” foi motivada pela atitude bairrista da intelectualidade paulista, como demonstra o predicativo ‘diferentes mesmo’ (l.10) atribuído aos paulistas, para ressaltar-lhes a superioridade em relação à população dos outros estados brasileiros.

  3. 11.

    Com base na prescrição gramatical, pode-se classificar a partícula “se”, no trecho “se irradiaria como política e como orientação pelo país” (l.11-12), tanto como apassivadora quanto como reflexiva; no entanto, ao se considerar a relação entre esse segmento e a expressão metafórica ‘a locomotiva puxando os vagões’ (l.13), a opção recai na classificação do verbo como pronominal.

  4. 12.

    Na linha 26, a forma preposicional contraída ‘pra’ introduz um dos complementos da forma verbal ‘daria’.

Improviso do mal da América

[...]1Me sinto branco, fatalizadamente um ser de mundos que nunca vi.Campeio na vida o jacumã que mude a direção destas igaras fatigadasE faça tudo ir indo de rodada mansamente4Ao mesmo rolar de rios das inspirações e das pesquisas...Não acho nada, quasi nada, e meus ouvidos vão escutar amorososOutras vozes de outras falas de outras raças, mais formação, mais forçura.7Me sinto branco na curiosidade imperiosa de ser.Lá fora o corpo de São Paulo escorre vida ao guampaço dos arranha-céus,E dança na ambição compacta de dilúvios de penetras.10Vão chegando italianos didáticos e nobres;Vai chegando a falação barbuda de UnamunoEmigrada pro quarto de hóspedes acolhedor da Sulamérica;13Bateladas de húngaros, búlgaros, russos se despejam na cidade...Trazem vodca no sapicuá de veludo,Detestam caninha, detestam mandioca e pimenta,16Não dançam maxixe, nem dançam catira, nem sabem amar suspirado.E de-noite monótonos reunidos na mansarda, bancando conspiração,As mulheres fumam feito chaminés sozinhas,19Os homens destilam vícios aldeões na catinga;E como sempre entre eles tem sempre um que manda sempre em todos,Tudo calou de supetão, e no ar amulegado da noite que sua...22– Coro? Onde se viu agora coro a quatro vozes, minha gente!São coros, coros ucranianos batidos ou místicos,Home... Sweet home... Que sejam felizes aqui![...]

Mário de Andrade. De pauliceia desvairada a café (Poesias Completas). São Paulo: Círculo do Livro S.A., p. 209-10.

Com base no excerto do poema Improviso do mal da América, de Mário de Andrade, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 13.

    No trecho “E como sempre entre eles tem sempre um que manda sempre em todos,/Tudo calou de supetão, e no ar amulegado da noite que sua...” (v.20 e v.21), o conector “como” introduz uma oração subordinada que expressa a causa de tudo se calar “de supetão”.

  2. 14.

    No verso “As mulheres fumam feito chaminés sozinhas” (v.18), a posição do adjetivo resulta em ambiguidade estrutural.

  3. 15.

    Os vocábulos “amorosos” (v.5) e “suspirado” (v.16) mantêm o mesmo tipo de relação sintática com os verbos que os precedem.

  4. 16.

    No verso “E faça tudo ir indo de rodada mansamente” (v.3), o poeta utilizou a redundância como recurso expressivo, como evidencia o caráter expletivo da forma de infinitivo “ir”.

1 José Lins do Rego, em ensaio admirável dedicado aFialho de Almeida, põe talvez exagerada ênfase na condição de“telúrico” de Fialho, como virtude acima de qualquer outra4num escritor. Tanto que nos dá a impressão de que, emliteratura, só os telúricos se salvam. O que me parecegeneralização muito próxima da verdade; mas não a verdade absoluta.7 Nem Eça nem Ramalho foram rigorosamente telúricose, entretanto, sua vitalidade nas letras portuguesas é das querepelem, meio século depois de mortos os dois grandes críticos,10qualquer unguento ou óleo de complacência com que hoje sepretenda adoçar a revisão do seu valor social, os dois tendoatuado como revolucionários ou, antes, renovadores não só das13convenções estéticas da língua e da literatura, como dasconvenções sociais do povo e da nação que criticaramduramente para, afinal, terminarem cheios de ternura patriótica16e até mística pela tradição portuguesa. Um, revoltado contra o“francesismo”, ou “cosmopolitismo”, que o afastara dosclássicos, da cozinha dos antigos, da vida e do ar das serras; o19outro, enjoado do “republicanismo”, que também o separara detantos valores básicos da vida portuguesa, fazendo-o exigir daMonarquia e da Igreja, em Portugal, atitudes violentamente22contrárias às condições de um povo apenas tocado pelaRevolução Industrial e pela civilização carbonífera do norte daEuropa.

Gilberto Freyre. Eça, Ramalho como renovadores da literatura em língua portuguesa. In: Alhos & Bugalhos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, p. (com adaptações).

Em relação ao texto acima, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 17.

    O autor do texto manifesta incondicional apoio à tese de José Lins do Rego sobre Fialho de Almeida, como evidencia a expressão “em ensaio admirável” (l.1).

  2. 18.

    Fialho de Almeida e Ramalho Ortigão são os “dois grandes críticos” (l.9) que não demonstraram nem complacência nem conservadorismo em relação à necessidade de recuperar aspectos da língua e da literatura de Portugal.

  3. 19.

    Depreende-se do texto que Eça de Queirós reagiu radicalmente contra o francesismo, Ramalho Ortigão estava farto do republicanismo (l.16-19) e nenhum dos dois, na opinião de Gilberto Freyre, demonstrou ser inflexivelmente telúrico.

  4. 20.

    Para o autor, Portugal não participara integralmente dos resultados trazidos pela Revolução Industrial e pela “civilização carbonífera” (l.23), ou seja, civilização fundamentada na violência das lutas operárias.

Improviso do mal da América

[...]1Me sinto branco, fatalizadamente um ser de mundos que nunca vi.Campeio na vida o jacumã que mude a direção destas igaras fatigadasE faça tudo ir indo de rodada mansamente4Ao mesmo rolar de rios das inspirações e das pesquisas...Não acho nada, quasi nada, e meus ouvidos vão escutar amorososOutras vozes de outras falas de outras raças, mais formação, mais forçura.7Me sinto branco na curiosidade imperiosa de ser.Lá fora o corpo de São Paulo escorre vida ao guampaço dos arranha-céus,E dança na ambição compacta de dilúvios de penetras.10Vão chegando italianos didáticos e nobres;Vai chegando a falação barbuda de UnamunoEmigrada pro quarto de hóspedes acolhedor da Sulamérica;13Bateladas de húngaros, búlgaros, russos se despejam na cidade...Trazem vodca no sapicuá de veludo,Detestam caninha, detestam mandioca e pimenta,16Não dançam maxixe, nem dançam catira, nem sabem amar suspirado.E de-noite monótonos reunidos na mansarda, bancando conspiração,As mulheres fumam feito chaminés sozinhas,19Os homens destilam vícios aldeões na catinga;E como sempre entre eles tem sempre um que manda sempre em todos,Tudo calou de supetão, e no ar amulegado da noite que sua...22– Coro? Onde se viu agora coro a quatro vozes, minha gente!São coros, coros ucranianos batidos ou místicos,Home... Sweet home... Que sejam felizes aqui![...]

Mário de Andrade. De pauliceia desvairada a café (Poesias Completas). São Paulo: Círculo do Livro S.A., p. 209-10.

A respeito do excerto acima, extraído do poema Improviso do mal da América, de Mário de Andrade, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 21.

    A hostilidade do eu lírico com os inúmeros migrantes que chegam a São Paulo tem como contraponto a acolhida a todos eles no “quarto de hóspedes acolhedor da Sulamérica” (v.12).

  2. 22.

    Os versos de 1 a 9 expressam a inanição do eu lírico resultante do desejo de “tudo ir indo de rodada mansamente” (v.3).

  3. 23.

    Na descrição de alguns hábitos dos estrangeiros que chegam a São Paulo, predomina a perspectiva da cultura brasileira, como se verifica principalmente nos versos “Detestam caninha, detestam mandioca e pimenta,/Não dançam maxixe, nem dançam catira, nem sabem amar suspirado” (v.15 e v.16).

  4. 24.

    No primeiro verso do excerto, o eu lírico associa a percepção de se sentir branco ao pertencimento de realidades desconhecidas.

Texto II 1 Por mais que se escoem coisas para a lata do lixo, clipes, cãibras, suores, 4 restos do dia prolixo, por mais que a mesa imponha o frio irrevogável do aço, 7 combatendo o que em mim contenha a linha flexível de um abraço, sei que um murmúrio clandestino 10 circula entre o rio de meus ossos: janelas para um mar-abrigo de marasmos e destroços. 13 Na linha anônima do verso aposto no oposto de meu sim, apago o nome e a memória 16 num Antônio antônimo de mim.

Antonio Carlos Secchin. Autoria. In: Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 61-2.

Em relação ao poema acima, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 25.

    Em “aposto no oposto de meu sim” (v.14), a função da palavra “aposto”, tal como se lê no verso, é especificar ou explicar um elemento do texto.

  2. 26.

    O autor estabelece uma oposição entre “linha flexível” (v.8) e “linha anônima” (v.13) para demonstrar que a autoria do poema é indeterminada ou questionável.

  3. 27.

    No verso “num Antônio antônimo de mim” (v.16), o poeta explora o fato de que tanto “Antônio” quanto “antônimo” compartilham a mesma raiz etimológica, que indica oposição, como em antissemita e antialérgico.

  4. 28.

    Para reforçar as noções do combate contra si mesmo e da consciência de “um murmúrio clandestino” (v.9), o autor evita a utilização de rimas.

Texto I 1  Quanto a mim mesma, sem mentir nem ser verdadeira — como naquele momento em que ontem de manhã estava sentada à mesa do café — quanto a mim mesma, sempre 4 conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim. De algum modo “como se não fosse eu” era mais amplo do que se fosse — uma vida inexistente me possuía toda e me ocupava 7 como uma invenção. (...)  Enquanto eu mesma era, mais do que limpa e correta, era uma réplica bonita. Pois tudo isso é o que provavelmente 10 me torna generosa e bonita. Basta o olhar de um homem experimentado para que ele avalie que eis uma mulher de generosidade e graça, e que não dá trabalho, e que não rói um 13 homem: mulher que sorri e ri.  Essa imagem de mim entre aspas me satisfazia, e não apenas superficialmente. Eu era a imagem do que não era, e 16 essa imagem do não ser me cumulava toda: um dos modos mais fortes é ser negativamente. Como eu não sabia o que era, então “não ser” era a minha maior aproximação da verdade: pelo 19 menos eu tinha o lado avesso: eu pelo menos tinha o “não”, tinha o meu oposto. O meu bem eu não sabia qual era, então vivia com algum pré-fervor, o que era o meu “mal”.

Clarice Lispector. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964, p. 30-1 (com adaptações).

Texto II 1 Por mais que se escoem coisas para a lata do lixo, clipes, cãibras, suores, 4 restos do dia prolixo, por mais que a mesa imponha o frio irrevogável do aço, 7 combatendo o que em mim contenha a linha flexível de um abraço, sei que um murmúrio clandestino 10 circula entre o rio de meus ossos: janelas para um mar-abrigo de marasmos e destroços. 13 Na linha anônima do verso aposto no oposto de meu sim, apago o nome e a memória 16 num Antônio antônimo de mim.

Antonio Carlos Secchin. Autoria. In: Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 61-2.

Em relação aos textos I e II, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 29.

    Tal como o eu lírico do poema (texto II), a narradora do texto I está envolvida com a autoria do texto literário, como evidencia o trecho “‘não ser’ era a minha maior aproximação da verdade” (l.18).

  2. 30.

    Na comparação entre os textos I e II, percebe-se que o poeta descarta “clipes, cãibras, suores, / restos do dia prolixo” (v.3 e v.4), ao passo que a ficcionista conserva “uma aspa à esquerda e outra à direita” (l.4), o que demonstra que, com relação a bens materiais, os dois autores expressam atitudes diferentes.

  3. 31.

    Há comparação entre o trecho “eu pelo menos tinha o ‘não’, tinha o meu oposto”, nas linhas 19 e 20 do texto I, e o verso 14 do texto II: “aposto no oposto de meu sim”; verifica-se que ambos os autores exploram aspectos e contingências de uma dimensão contrária ao ser ou a ele contraditória.

  4. 32.

    Existe semelhança temática entre o que afirma Clarice Lispector em “pelo menos eu tinha o lado avesso” (texto I/R.18- 19) e Antonio Carlos Secchin no verso “num Antônio antônimo de mim” (texto II/v.16): ambas as citações tratam da oposição ao eu.

1 A crônica não é um “gênero maior”. Não se imaginauma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem obrilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e4poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a umcronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que acrônica é um gênero menor.7 “Graças a Deus”, seria o caso de dizer, porque, sendoassim, ela fica mais perto de nós. E para muitos pode servir decaminho não apenas para a vida, que ela serve de perto, mas10para a literatura. Por meio dos assuntos, da composição solta,do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela seajusta à sensibilidade de todo dia. Principalmente porque13elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de sermais natural. Na sua despretensão, humaniza; e estahumanização lhe permite, como compensação sorrateira,16recuperar com a outra mão certa profundidade de significadoe certo acabamento de forma, que de repente podem fazer delauma inesperada, embora discreta, candidata à perfeição.

Antonio Candido. A vida ao rés do chão. In: Recortes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. (com adaptações).

Em relação ao texto acima, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 33.

    Ao afirmar que a crônica “fala de perto ao nosso modo de ser mais natural” (l.13-14), o autor indica que as obras de romancistas, dramaturgos e poetas demonstram maior “profundidade de significado” (l.16) e “acabamento de forma” (l.17).

  2. 34.

    De acordo com os sentidos produzidos no texto, a expressão “compensação sorrateira” (l.15) deve ser interpretada como compensação desonesta, compensação viciada ou compensação desigual.

  3. 35.

    Ao afirmar que a crônica “humaniza” (l.14) e é “uma inesperada, embora discreta, candidata à perfeição” (l.18), o autor demonstra que, de fato, o Prêmio Nobel não poderia ser atribuído a um cronista na categoria de gênero maior, mas, sim, em outra categoria.

  4. 36.

    No texto, o autor indica que a crônica, apesar de ser um gênero menor, pode proporcionar acesso à literatura considerada de gênero maior, como a representada por romances, peças teatrais e poemas.

1 Entre os anos 70 e começos da década seguinte,vigorou o que se chamava amável e ironicamente a poesia dodesbunde. Dela pode-se dizer que reaclimatou, em tom menor,4o ideário modernista. Então revalorizados, o coloquial e opoema-piada deixavam de simplesmente se opor à linguagemempertigada contra a qual os modernistas haviam lutado.7Punham-se agora a serviço da territorialidade privada.Enquanto, no primeiro modernismo, aqueles eram meios paraa redescoberta procurada do país, agora se tornavam10instrumentos domésticos. O país estava ocupado. O regimemilitar, em seu apogeu, assegurava o milagre das bolsas e osigilo das torturas. Tratava-se para os jovens literati de salvar13a casa; se não toda, o quarto de fundos. Claro que nãopensavam assim. Quando faziam declarações, apresentavamcomo seus inimigos os poetas experimentais e a poesia de João16Cabral. Os concretos e Cabral seriam, para eles, os homólogoscontemporâneos de Coelho Neto e Olavo Bilac. Tendo por centro a experiência privada, a poesia do19desbunde mantinha a glorificação do eu: estimava-o comojovem e o estimulava a assim se manter. Regra básica: alertarcontra todos os modos de engajamento na seriedade. O22trabalho, doença da sociedade burguesa, era um infame criadorde corpos flácidos e mentes amorfas.

Luiz Costa Lima. Abstração e visualidade. In: Intervenções. São Paulo: EDUSP, 2002, p. (com adaptações).

Em relação ao texto acima, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 37.

    A poesia do desbunde, valendo-se de “instrumentos domésticos” (l.10), inspirou-se em retórica antimilitarista e de crítica ao regime político que marcou o ideário modernista.

  2. 38.

    De acordo com o autor, os poetas do desbunde consideravam que os poetas experimentais e João Cabral de Melo Neto compunham uma nova vertente de reação ao Modernismo, liderada por escritores como Coelho Neto e Olavo Bilac.

  3. 39.

    Conforme o texto, a poesia do desbunde caracterizou-se pela glorificação do ego, pelo culto à juventude e pela crítica ao valor do trabalho na sociedade.

  4. 40.

    Segundo o autor, a poesia do desbunde atualizou propostas do Modernismo, muito embora as obras não tivessem a mesma grandeza do movimento artístico dos anos 20.

1 Uma das razões por que Rosalina não o [JoséFeliciano] mandou embora foi exatamente o que disse JoséFeliciano: a gente carece de ouvir voz humana, pra sair das4sombras. Um homem não é só um lago de silêncio, necessita deouvir a música da fala humana. Se a gente não cuida muito doque dizem as palavras, se não cheira o seu sumo, ouve apenas,7a fala humana é rude e bárbara, cheia de ruídos estranhos, dealtos e baixos. Atente agora não só com os ouvidos bemabertos, ouça com o corpo, com a barriga se possível, com o10coração, e veja, ouça a doce modulação do canto. Só o canto,a música. Rosalina ouvia José Feliciano. A voz de José13Feliciano veio dar vida ao sobrado, encheu de música o oco docasarão, afugentou para longe as sombras pesadas em que ela,sem dar muita conta, vivia. Agora ela pensava: como foi16possível viver tanto tempo sem ouvir voz humana, só osgrunhidos, os gestos às vezes desesperados de Quiquinaquando ela não conseguia se fazer entender? Ouvindo a própria19voz. Mas a gente nunca pega no ar, com o ouvido, a própriavoz. É no corpo, no porão da alma que ela ressoa como umrumor de chão. Veja-se o disco, a fala do próprio gravada,22ninguém se reconhece. De repente, acordada pelo canto, viu a solidão que eraa sua vida. Como foi possível viver tanto tempo assim? Como,25meu Deus? Ela estava virando coisa, se enterrava no oco doescuro, ela e o mundo uma coisa só. E dentro dela rugia aseiva, a força que através de verdes fusos dá vida à flora e à28fauna, e torna o mundo esta coisa fechada, impenetrável aopuro espírito do homem. E a voz, que a princípio chegava a doer-lhe nos31ouvidos, alta demais, acordou-a para a claridade, para a luz dascoisas, para a vida.

Autran Dourado. Ópera dos mortos. Cap. 5. Os dentes da engrenagem. 9.ª ed., Rio de Janeiro: Record, 1985, p. 73-4.

Com referência a aspectos linguísticos do texto acima, julgue (C ou E) os itens subsecutivos.

  1. 41.

    Em “Como foi possível viver tanto tempo assim?” (l.24), o termo “assim”, empregado como recurso de ênfase, poderia ser retirado do trecho, sem prejuízo para o contexto.

  2. 42.

    No trecho “Se a gente não cuida (...) de altos e baixos” (l.5-8), o emprego de um ponto e vírgula após o vocábulo “apenas”, no lugar da vírgula, marcaria o final do primeiro período e o início da oração que se segue, mantendo-se a correção gramatical e favorecendo-se a compreensão do trecho.

  3. 43.

    No texto, o autor anuncia e justifica o encantamento da personagem Rosalina com José Feliciano, cuja voz, que soava estridente de início para ela, proporcionou-lhe uma nova percepção de sua vida.

  4. 44.

    Nos trechos “E dentro dela rugia a seiva, a força que através de verdes fusos dá vida à flora e à fauna” (l.26-28) e “E a voz, que a princípio chegava a doer-lhe nos ouvidos, alta demais” (l.30-31), os pronomes relativos “que” introduzem orações de naturezas diferentes, sendo a primeira de caráter restritivo, e a segunda, de caráter explicativo.

Texto I 1  Quanto a mim mesma, sem mentir nem ser verdadeira — como naquele momento em que ontem de manhã estava sentada à mesa do café — quanto a mim mesma, sempre 4 conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim. De algum modo “como se não fosse eu” era mais amplo do que se fosse — uma vida inexistente me possuía toda e me ocupava 7 como uma invenção. (...)  Enquanto eu mesma era, mais do que limpa e correta, era uma réplica bonita. Pois tudo isso é o que provavelmente 10 me torna generosa e bonita. Basta o olhar de um homem experimentado para que ele avalie que eis uma mulher de generosidade e graça, e que não dá trabalho, e que não rói um 13 homem: mulher que sorri e ri.  Essa imagem de mim entre aspas me satisfazia, e não apenas superficialmente. Eu era a imagem do que não era, e 16 essa imagem do não ser me cumulava toda: um dos modos mais fortes é ser negativamente. Como eu não sabia o que era, então “não ser” era a minha maior aproximação da verdade: pelo 19 menos eu tinha o lado avesso: eu pelo menos tinha o “não”, tinha o meu oposto. O meu bem eu não sabia qual era, então vivia com algum pré-fervor, o que era o meu “mal”.

Clarice Lispector. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964, p. 30-1 (com adaptações).

Em relação ao texto I acima, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 45.

    A autora do texto estabelece forte oposição entre “ser” e “não-ser”, optando pelo último, uma vez que “ser” poderia aproximá-la de uma forma aparente e mentirosa para a qual não se encontra preparada.

  2. 46.

    Em língua portuguesa, as expressões “estar entre aspas” e “viver entre parênteses” equivalem-se, pois ambas significam um estado de suspensão ou de espera diante de acontecimentos.

  3. 47.

    A sentença “Eu era a imagem do que não era” (l.15) expressa um paradoxo ou oximoro.

  4. 48.

    Entre as funções das aspas, está a de salientar o sentido figurado de uma expressão, isolando na frase o termo desejado. Clarice Lispector se vale desse recurso ao explicar que sempre conservou “uma aspa à esquerda e outra à direita de mim” (l.4), além de se declarar satisfeita em projetar “Essa imagem de mim entre aspas” (l.14).

1 Que me perdoem os devotos machadianos, eu prefiroEuclides da Cunha e Lima Barreto, com todos os defeitos queambos possam ter, a Machado de Assis, com todas as suas4qualidades. E, até onde pude entender, Millôr Fernandes temopinião parecida com a minha. Tanto assim que, segundoafirmou, não incluiria qualquer dos livros de Machado de Assis7entre os dez maiores romances brasileiros. A meu ver, ao falar assim, Millôr Fernandes levou emconta apenas livros como Dom Casmurro, em que, na minha10opinião, Machado incorre naquela miopia contra a qual omúsico Jayme Ovalle reclamava. Mas esqueceu de QuincasBorba, que inclui Machado de Assis na linhagem cervantina da13literatura e em que a insânia de Rubião se aproxima da insâniado Cavaleiro da Triste Figura. Mas, talvez por causa da ironia sem compaixão de16Machado de Assis, a loucura de Rubião gira somente em tornode sua pessoa, jamais partindo ele para qualquer ação nosentido de corrigir “os desconcertos do mundo” — como19acontecia com o cavaleiro manchego. De modo que opersonagem mais generosamente quixotesco da literaturabrasileira não é Rubião, é Policarpo Quaresma. Lima Barreto22é nosso escritor mais puramente humorístico, tomada a palavraem seu verdadeiro sentido, que inclui, ao lado do riso, acompaixão, que a ironia de Machado de Assis ou impede ou mancha.25 Alguns escritores que desprezam o Brasil e seu povocostumam usar Policarpo Quaresma como pretexto paraescarnecer de ambos. Pensam, talvez, que Lima Barreto era um28deles. Esquecem que, em seu romance, o grande escritorcarioca ri, antes de tudo, de si mesmo. E, sobretudo, não veemtais escritores que, se a realidade brutal e mesquinha (inclusive31a da política) desmente e destrói, a cada instante, as açõesgenerosas de Policarpo Quaresma, a pureza de seu sonhopermanece intocada até a morte, o que o coloca muito acima34dos poderosos e “realistas” que o cercam.

Ariano Suassuna. In: Cadernos de literatura brasileira – Millôr Fernandes, n.o 15, Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2003, p. 18-9 (com adaptações).

Acerca das ideias desenvolvidas no texto acima, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 49.

    Com o emprego da expressão “na linhagem cervantina” (l.12), Ariano Suassuna explicita um parâmetro por ele adotado, para opinar sobre romances e escritores, e que é reiterado pelo emprego dos seguintes termos: “Cavaleiro da Triste Figura” (l.14), “cavaleiro manchego” (l.19), “quixotesco” (l.20).

  2. 50.

    O autor do texto postula que o humor, na acepção por ele indicada, é qualidade distintiva de uma narrativa literária e incompatível com a ironia e o sarcasmo, recursos de uso frequente na literatura brasileira, especialmente entre os escritores com visão antinacionalista, referidos no texto como “escritores que desprezam o Brasil e seu povo” (l.25).

  3. 51.

    Seria mantida a correção gramatical e aprimorada a precisão do texto, se o trecho em que o autor aponta seus escritores preferidos (l.1-4) estivesse escrito da seguinte forma: prefiro Euclides da Cunha e Lima Barreto, apesar dos defeitos de suas obras, do que Machado de Assis, cujas qualidades das suas obras são inúmeras.

  4. 52.

    No trecho que inicia o terceiro parágrafo, mesmo que presente o advérbio “talvez” (l.15), que exigiria o emprego do modo subjuntivo, o autor do texto optou pelo emprego da forma verbal no indicativo (“gira”), privilegiando, assim, a assertividade de seu discurso, conforme descrito na gramática normativa a respeito desse modo verbal.

1 — Este livro não é meu! Meu Deus, o que fizeram domeu livro? A exclamação, patética, vinha da famosa jornalista4internacional Oriana Fallaci (no caso, como escritora), aoperceber que a tradução brasileira de seu livro Um homem(1981) não era fiel à estrutura paragráfica do original,7construída em forma de monólogo compacto. O que a escritoraconcebera como blocos de longo discurso interior foitransformado, na tradução, em diálogos convencionais. Em10posterior entrevista, Fallaci definiu, como criadora, seu pontode vista: — Em Um homem, todos os diálogos são dados sem13parágrafo, e não só porque esse é notoriamente o meu modo deescrever, de obter o ritmo da página, a musicalidade da língua,mas porque isso corresponde a uma rigorosa necessidade de16estilo ditada pela substância do livro. Nele, o diálogo é umdiálogo recordado, um diálogo interior, e não um diálogo quedetermina um diálogo. É um livro em que a forma e a19substância, o estilo e o significado se integramindissoluvelmente. E trabalhei tanto para escrevê-lo! Trêslongos anos sem nunca deixar aquele quarto e aquela pequena22mesa, jamais uma interrupção, nada de férias, nada dedomingos, nada de natais e páscoas. Sempre trabalhando, demanhã à noite, refazendo, corrigindo, limando o estilo,25cuidando da ausência de parágrafos. Com seu protesto, Oriana Fallaci levantou, na época,um sério problema de editoração, aliás, um problema duplo: a28técnica literária do autor e — o mais importante para o editorde texto — o respeito em relação a essa técnica, que a autoradefiniu como estilo. Vejamos a questão por partes.31 No que concerne à técnica literária dos diálogos, atéo século XIX conheciam-se apenas o discurso direto e odiscurso narrativo ou indireto. A partir de meados desse século,34entretanto, surgiu o discurso aparente ou discurso indireto livre.De início, nesse caso, os autores usaram aspas para nãoconfundir o leitor, mas estas seriam logo abandonadas como37técnica narrativa. Quanto ao estilo, foi com a Revolução Industrial, valedizer, com o amadurecimento da sociedade capitalista, que os40escritores começaram a ter consciência não da forma em geral,mas da forma individual, da maneira particular de exposição decada autor como artista que produz obra única e consumada. A43revolução das técnicas e do mercado, traduzindo-se no binômiovelocidade-quantidade, suscitou a massificação do livro, contraa qual emergiu a figura do autor como artista, como criador por46excelência, como aquele que domina a gramática para ter odireito de fraturá-la. Roland Barthes (1971) observa que, assim, começa a elaborar-se uma imagética do escritor-artesão que se49 fecha num lugar lendário, como um operário na oficina, e desbasta, talha, pule e engasta sua forma, exatamente como um lapidário extrai a arte da matéria, passando, nesse trabalho, horas52 regulares de solidão e esforço. Esse valor-trabalho substitui, de certa maneira, o valor-gênio; há uma certa vaidade em dizer que se trabalha bastante e longamente a forma.55 Desde então, ao se trabalhar com obras em que oelemento primordial é a informação, existe a liberdade deredisposição dos originais em benefício da clareza, mas, com58produção literária, impõe-se absoluto privilégio autoral, que éum princípio socialmente reconhecido, com o qual o editor detexto sempre convive.

Emanuel Araújo. A construção do livro: princípios da técnica de editoração. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 2000, p. (com adaptações).

Com relação aos aspectos morfossintáticos do texto, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 53.

    Em “Meu Deus, o que fizeram do meu livro?” (l.1-2), a expressão “Meu Deus” tem função apelativa na estrutura oracional em que ocorre e, por estar subordinada a essa estrutura, não poderia ser seguida de ponto de exclamação em lugar da vírgula, ainda que se fizesse a alteração gráfica necessária no restante desse texto.

  2. 54.

    O emprego de “concebera” (l.8), no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, justifica-se, no texto, como traço estilístico da linguagem culta formal, visto que, em normas estritamente gramaticais, não há respaldo para esse uso.

  3. 55.

    O trecho “A exclamação, patética, vinha da famosa jornalista internacional Oriana Fallaci (no caso, como escritora),” (l.3-4), em que se verifica um aposto especificativo, pode ser assim reescrito em estrutura de aposto explicativo: A exclamação, patética, vinha de Oriana Fallaci, a famosa jornalista internacional (no caso, como escritora).

  4. 56.

    Na linha 3, as vírgulas que isolam o termo “patética” foram empregadas para enfatizar o atributo de “exclamação”, mas a supressão dessa pontuação manteria a correção gramatical do trecho.

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