Língua Portuguesa — CACD 2011

CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 57 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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1Através de grossas portas,sentem-se luzes acesas,— e há indagações minuciosas4dentro das casas fronteiras:olhos colados aos vidros,mulheres e homens à espreita,7caras disformes de insônia,vigiando as ações alheias.Pelas gretas das janelas,10pelas frestas das esteiras,agudas setas atirama inveja e a maledicência.13Palavras conjeturadasoscilam no ar de surpresa,como peludas aranhas16na gosma das teias densas,rápidas e envenenadas,engenhosas, sorrateiras.
19Atrás de portas fechadas,à luz de velas acesas,brilham fardas e casacas,22junto com batinas pretas.Uns são reinóis, uns, mazombos;e pensam de mil maneiras;25mas citam Vergílio e Horácio,e refletem, e argumentam,falam de minas e impostos,28de lavras e de fazendas,de ministros e rainhase das colônias inglesas.
31Atrás de portas fechadas,à luz de velas acesas,entre sigilo e espionagem,34acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:“Escreva-me aquela letra37do versinho de Vergílio...”E dá-lhe o papel e a pena.E diz o Poeta ao Vigário,40com dramática prudência:“Tenha meus dedos cortados,antes que tal verso escrevam...”43LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,ouve-se em redor da mesa.E a bandeira já está viva,46e sobe, na noite imensa.E os seus tristes inventoresjá são réus — pois se atreveram49a falar em Liberdade(que ninguém sabe o que seja).
E a vizinhança não dorme:52murmura, imagina, inventa.Não fica bandeira escrita,mas fica escrita a sentença.

Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977, p. 450-2 (com adaptações).

Com relação às ideias e às estruturas linguísticas do texto acima, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 1.

    No trecho “Uns são reinóis, uns, mazombos; / e pensam de mil maneiras; / mas citam Vergílio e Horácio, / e refletem, e argumentam,” (v.23-26), fica evidenciado que, independentemente da origem social, os inconfidentes compartilhavam o mesmo grau de erudição.

  2. 2.

    Da leitura da quarta estrofe (v.35-50) depreende-se que a palavra liberdade é o fulcro vital da bandeira dos inconfidentes e representa a finalidade do engajamento político daquele grupo.

  3. 3.

    Entende-se da leitura do poema que os inconfidentes foram sentenciados por atuarem contra os interesses da Coroa portuguesa, mas não por haverem registrado, na bandeira criada, o anseio por liberdade.

  4. 4.

    Nos dois primeiros versos, o eu lírico alude ao sigilo dos inconfidentes por meio de paradoxo e sinestesia.

1 Poucos depoimentos eu tenho lido mais emocionantesque o artigo-reportagem de Oscar Niemeyer sobre suaexperiência em Brasília. Para quem conhece apenas o arquiteto,4o artigo poderá passar por uma defesa em causa própria — orevide normal de um pai que sai de sua mansidão costumeirapara ir brigar por um filho em quem querem bater. Mas, para7quem conhece o homem, o artigo assume proporçõesdramáticas. Pois Oscar é não só o avesso do causídico, comoum dos seres mais antiautopromocionais que já conheci em10minha vida. Sua modéstia não é, como de comum, uma formainfame de vaidade. Ela não tem nada a ver com o conhecimento13realista — que Oscar tem — de seu valor profissional e de suaspossibilidades. É a modéstia dos criadores verdadeiramenteintegrados com a vida, dos que sabem que não há tempo a16perder, é preciso construir a beleza e a felicidade no mundo,por isso mesmo que, no indivíduo, é tudo tão frágil e precário. Oscar não acredita em Papai do Céu, nem que estará19um dia construindo brasílias angélicas nas verdes pastagens doParaíso. Põe ele, como um verdadeiro homem, a felicidade doseu semelhante no aproveitamento das pastagens verdes da22Terra; no exemplo do trabalho para o bem comum e na criaçãode condições urbanas e rurais, em estreita intercorrência, queestimulem e desenvolvam este nobre fim: fazer o homem feliz25dentro do curto prazo que lhe foi dado para viver. Eu acredito também nisso, e quando vejo aquilo emque creio refletido num depoimento como o de Oscar28Niemeyer, velho e querido amigo, como não me emocionar?

Vinicius de Moraes. Para viver um grande amor. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1982, p. 134-5 (com adaptações).

Acerca dos mecanismos de coesão empregados no texto, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 5.

    Na linha 3, o vocábulo “arquiteto” retoma por substituição o nome próprio “Oscar Niemeyer”, empregado na linha 2, mecanismo que corresponde a uma variedade de metonímia e por meio do qual se evita a repetição de vocábulo.

  2. 6.

    O período que finaliza o primeiro parágrafo está na ordem inversa, como indica o emprego inicial da conjunção “Pois”, que introduz uma oração subordinada anteposta à oração principal.

  3. 7.

    A elipse em “nem que estará” (l.18) e o emprego do pronome anafórico “ele” (l.20) são mecanismos de coesão utilizados para referenciar o substantivo “Oscar” (l.18).

  4. 8.

    Dada a propriedade que assume o pronome “este” nos mecanismos coesivos empregados no trecho “que estimulem e desenvolvam este nobre fim” (l.23-24), não é facultada a seguinte reescrita: que estimulem este nobre fim e o desenvolvam.

1 Poucos depoimentos eu tenho lido mais emocionantesque o artigo-reportagem de Oscar Niemeyer sobre suaexperiência em Brasília. Para quem conhece apenas o arquiteto,4o artigo poderá passar por uma defesa em causa própria — orevide normal de um pai que sai de sua mansidão costumeirapara ir brigar por um filho em quem querem bater. Mas, para7quem conhece o homem, o artigo assume proporçõesdramáticas. Pois Oscar é não só o avesso do causídico, comoum dos seres mais antiautopromocionais que já conheci em10minha vida. Sua modéstia não é, como de comum, uma formainfame de vaidade. Ela não tem nada a ver com o conhecimento13realista — que Oscar tem — de seu valor profissional e de suaspossibilidades. É a modéstia dos criadores verdadeiramenteintegrados com a vida, dos que sabem que não há tempo a16perder, é preciso construir a beleza e a felicidade no mundo,por isso mesmo que, no indivíduo, é tudo tão frágil e precário. Oscar não acredita em Papai do Céu, nem que estará19um dia construindo brasílias angélicas nas verdes pastagens doParaíso. Põe ele, como um verdadeiro homem, a felicidade doseu semelhante no aproveitamento das pastagens verdes da22Terra; no exemplo do trabalho para o bem comum e na criaçãode condições urbanas e rurais, em estreita intercorrência, queestimulem e desenvolvam este nobre fim: fazer o homem feliz25dentro do curto prazo que lhe foi dado para viver. Eu acredito também nisso, e quando vejo aquilo emque creio refletido num depoimento como o de Oscar28Niemeyer, velho e querido amigo, como não me emocionar?

Vinicius de Moraes. Para viver um grande amor. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1982, p. 134-5 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto, julgue o item a seguir.

  1. 9.

    Por ser um indivíduo consciente de sua fragilidade e da precariedade de ser mortal, Oscar Niemeyer, segundo afirma Vinicius de Moraes, manifesta modéstia incomum, desprovida de hipocrisia.

  2. 10.

    Vinicius de Moraes atribui a emoção nele despertada pela leitura do mencionado artigo-reportagem não só à forma dramática de relato dos fatos, mas, principalmente, à afinidade entre ele e Niemeyer no que concerne a crenças sobre a vida e a morte, parte delas referidas no depoimento do amigo Oscar.

  3. 11.

    Vinicius de Moraes ressalta a conduta de Niemeyer, que, fundamentada em concepção materialista e visão social de seu trabalho, está pautada na busca de condições sociais benéficas para os cidadãos.

  4. 12.

    Vinicius de Moraes, na condição de causídico de Oscar Niemeyer, alerta para a injusta ausência de reconhecimento da capacidade de luta do arquiteto para a implementação de projetos que visem ao bem comum, dos quais a construção de Brasília é exemplo.

  5. 13.

    Infere-se do texto que Oscar Niemeyer, em razão das severas críticas a seu trabalho arquitetônico realizado em Brasília, contrariou sua “mansidão costumeira” e escreveu um artigo em que faz a apologia da obra criada nessa cidade.

1 Ainda que se soubessem todas as palavras de cadafigura da Inconfidência, nem assim se poderia fazer com oseu simples registro uma composição da arte. A obra de arte4não é feita de tudo — mas apenas de algumas coisasessenciais. A busca desse essencial expressivo é que constituio trabalho do artista. Ele poderá dizer a mesma verdade do7historiador, porém de outra maneira. Seus caminhos sãooutros, para atingir a comunicação. Há um problema depalavras. Um problema de ritmos. Um problema de10composição. Grande parte de tudo isso se realiza, decerto,sem inteira consciência do artista. É a decorrência natural dasua constituição, da sua personalidade — por isso, tão difícil13se torna quase sempre a um criador explicar a própriacriação. No caso, porém, de um poema de mais objetividade,como o Romanceiro, muitas coisas podem ser explicadas,16porque foram aprendidas, à proporção que ele se foicompondo. Digo “que ele se foi compondo” e não “que foi19sendo composto”, pois, na verdade, uma das coisas que pudeobservar melhor que nunca, ao realizá-lo, foi a maneira porque um tema encontra sozinho ou sozinho impõe seu ritmo,22sua sonoridade, seu desenvolvimento, sua medida. O Romanceiro foi construído tão sem normaspreestabelecidas, tão à mercê de sua expressão natural que25cada poema procurou a forma condizente com suamensagem. A voz irreprimível dos fantasmas, que todos osartistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e28submete-se à aprovação do poeta, como se realmente, a cadainstante, lhe pedisse para ajustar seu timbre à audição dopúblico. Porque há obras que existem apenas para o artista,31desinteressadas de transmissão; outras que exigem essatransmissão e esperam que o artista se ponha a seu serviço,para alcançá-la. O Romanceiro é desta segunda espécie.34 Quatro anos de quase completa solidão — numarenúncia total às mais sedutoras solicitações, entre livros detoda espécie relativos ao especializadamente século 18 —37ainda pareceram curtos demais para uma obra que sedesejava o menos imperfeita possível, porque se impunha,acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, que se40confessavam, que exigiam, quase, o registro da sua história. E era uma história feita de coisas eternas eirredutíveis: de ouro, amor, liberdade, traições...43 Mas porque esses grandiosos acontecimentos jávinham preparados de tempos mais antigos e foram odesfecho de um passado minuciosamente construído — era46preciso iluminar esses caminhos anteriores, seguir o rastro doouro que vai, a princípio como o fio de um colar, ligandocenas e personagens, até transformar-se em pesada cadeia que49prende e imobiliza num destino doloroso.

Cecília Meireles. Como escrevi o Romanceiro da Inconfidência. In: Romanceiro da Inconfidência. 3.ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, p. XVI-XVII (com adaptações).

Com relação ao texto, julgue o item a seguir.

  1. 14.

    Os trechos “porque se impunha, acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, que se confessavam, que exigiam, quase, o registro da sua história” (l.38-40) / “É a decorrência natural da sua constituição, da sua personalidade — por isso, tão difícil se torna quase sempre a um criador explicar a própria criação” (l.11-14) apresentam, respectivamente, linguagem predominantemente denotativa e linguagem predominantemente conotativa.

  2. 15.

    Os trechos “No caso, porém, de um poema de mais objetividade, como o Romanceiro, muitas coisas podem ser explicadas” (l.14-15) / “era preciso iluminar esses caminhos anteriores, seguir o rastro do ouro que vai, a princípio como o fio de um colar, ligando cenas e personagens, até transformar-se em pesada cadeia que prende e imobiliza num destino doloroso” (l.45-49) apresentam, respectivamente, linguagem predominantemente denotativa e linguagem predominantemente conotativa.

  3. 16.

    Os trechos “Quatro anos de quase completa solidão — numa renúncia total às mais sedutoras solicitações, entre livros de toda espécie relativos ao especializadamente século 18 — ainda pareceram curtos demais para uma obra que se desejava o menos imperfeita possível” (l.34-38) / “Mas porque esses grandiosos acontecimentos já vinham preparados de tempos mais antigos e foram o desfecho de um passado minuciosamente construído” (l.43-45) apresentam, respectivamente, linguagem predominantemente denotativa e linguagem predominantemente conotativa.

  4. 17.

    Os trechos “A obra de arte não é feita de tudo — mas apenas de algumas coisas essenciais” (l.3-5) / “Grande parte de tudo isso se realiza, decerto, sem inteira consciência do artista” (l.10-11) apresentam, respectivamente, linguagem predominantemente denotativa e linguagem predominantemente conotativa.

  5. 18.

    Os trechos “A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta, como se realmente, a cada instante, lhe pedisse para ajustar seu timbre à audição do público” (l.26-30) / “E era uma história feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro, amor, liberdade, traições” (l.41-42) apresentam, respectivamente, linguagem predominantemente denotativa e linguagem predominantemente conotativa.

Texto I

1 Não é o ângulo reto que me atrai nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem.4 O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios,7 nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo10 o universo curvo de Einstein.

Oscar Niemeyer. Minha arquitetura – 1937-2005. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2005, p. 339.

Texto II

Autodefinição

1 Na folha branca do papel faço o meu risco. Retas e curvas entrelaçadas, E prossigo atento e tudo arrisco4 Na procura das formas desejadas. São templos e palácios soltos pelo ar. Pássaros alados, o que você quiser.7 Mas se os olhar um pouco devagar, Encontrará, em todos, os encantos da mulher. Deixo de lado o sonho que sonhava.10 A miséria do mundo me revolta. Quero pouco, muito pouco, quase nada. A arquitetura que faço não importa.13 O que eu quero é a pobreza superada, A vida feliz, a pátria mais amada.

Idem, p. 347.

Com referência às estruturas linguísticas e aos sentidos dos textos I e II, julgue o item a seguir.

  1. 19.

    No texto I, o arquiteto esclarece que as curvas estão presentes em qualquer universo, inclusive no universo abstrato da ciência, conforme formulação de Einstein.

  2. 20.

    No primeiro verso do texto I, o pronome “que” retoma a expressão “o ângulo reto” e introduz oração adjetiva que restringe o sentido dessa expressão.

  3. 21.

    Com base no emprego dos sinais de pontuação no texto I, depreende-se que, para o autor do poema, toda linha reta criada pelo homem é dura e inflexível, e nem toda curva é livre e sensual.

  4. 22.

    No poema Autodefinição, o arquiteto expressa sua recusa em detalhar elementos relevantes para a interpretação de sua obra, como evidencia o trecho “o que você quiser” (v.6), e confidencia que a revolta diante da miséria fez que ele abandonasse o devaneio, a utopia.

  5. 23.

    No texto II, os adjetivos “branca” (v.1) e “atento” (v.3) exercem a mesma função sintática que os adjetivos “superada”, “feliz” e “amada”, empregados na última estrofe.

CARTA PARA ANTONIO CARLOS JOBIM Porto do Havre [França], 7 de setembro de 1964

 Tomzinho querido,1 Estou aqui num quarto de hotel que dá para umapraça que dá para toda a solidão do mundo. São dez horas danoite e não se vê viv’alma. Meu navio só sai amanhã à tarde,4e é impossível alguém estar mais triste do que eu. E, comosempre nestas horas, escrevo para você cartas que nuncamando.7 Deixei Paris para trás com a saudade de um ano deamor, e pela frente tenho o Brasil, que é uma paixãopermanente em minha vida de constante exilado. A coisa ruim10é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que emnossa embaixada há uma festa que me cairia muito bem, como Baden Powell mandando brasa no violão. Há pouco13telefonei para lá, para cumprimentar o embaixador, e veiotodo mundo ao telefone. Você já passou um 7 de setembro, Tomzinho,16sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem qualquerperspectiva? É fogo, maestro!

Vinicius de Moraes. Querido poeta. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, organização de Ruy Castro, p. 303-4 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens seguintes, relativos às ideias do texto acima.

  1. 24.

    Na carta a Antonio Carlos Jobim, a menção a correspondências que nunca eram enviadas sugere que havia temas confidenciais que só poderiam ser tratados pelo remetente e pelo destinatário da carta de 7 de setembro de 1964 em encontro pessoal.

  2. 25.

    Infere-se da carta de Vinicius de Moraes a Antonio Carlos Jobim que o poeta brasileiro, também diplomata, estava em missão profissional na cidade do Havre por ocasião de uma data nacional brasileira, embora manifestasse preferência por estar em outro lugar.

  3. 26.

    O emprego, no texto, das expressões coloquiais “cairia muito bem” (l.11) e “mandando brasa” (l.12) indica a informalidade com que Vinicius de Moraes escreve a seu destinatário.

  4. 27.

    Pelo emprego da expressão “todo mundo” (l.14), pressupõe-se que, além do embaixador, outros amigos e colegas de trabalho de Vinicius de Moraes, sem que se possa saber quantos, telefonaram-lhe do Brasil.

1 Deixei os braços pousarem na madeira inchada eúmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar achuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá embaixo,4na varanda, os passos da avó Agnette, que se ia sentar nacadeira da varanda a apanhar ar fresco, senti que despedir-meda minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas7irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minharua, senti que rua não era um conjunto de casas mas umamultidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou10Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa sópalavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavrasde dizer: infância.13 A chuva parou. O mais difícil era saber parar aslágrimas. O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de16chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto dedespedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que setransformam em recordações molhadas com bué de lágrimas.19Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mimcomo se fossem fantasmas mujimbeiros* que dizem segredosdo futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu22ouvido de criança. Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette. Ficamos a olhar o verde do jardim, as gotas a25evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novascaminhadas. O recomeçar das coisas. — Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.28 — Vão pra casa, filho. — Tantas vezes de um lado para o outro? — Uma casa está em muitos lugares — ela respirou31devagar, me abraçou. — É uma coisa que se encontra.

*Mujimbeiro: fofoqueiro.

Ondjaki. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007, p. 145-6 (com adaptações).

Com relação ao estado de espírito do narrador do texto, julgue o item a seguir.

  1. 28.

    Depreende-se do quarto parágrafo do texto o seguinte estado de espírito do narrador: insegurança por ser obrigado a se afastar da família.

  2. 29.

    Depreende-se do terceiro parágrafo do texto o seguinte estado de espírito do narrador: desconforto ao ter de lidar com um momento de ruptura.

  3. 30.

    Depreende-se do segundo parágrafo do texto o seguinte estado de espírito do narrador: tristeza por não conseguir conter o choro.

  4. 31.

    Depreende-se do primeiro parágrafo do texto o seguinte estado de espírito do narrador: regozijo diante do início de uma nova fase da vida.

  5. 32.

    Depreende-se do quinto parágrafo do texto o seguinte estado de espírito do narrador: entusiasmo na contemplação gratuita da natureza.

1 Poucos depoimentos eu tenho lido mais emocionantesque o artigo-reportagem de Oscar Niemeyer sobre suaexperiência em Brasília. Para quem conhece apenas o arquiteto,4o artigo poderá passar por uma defesa em causa própria — orevide normal de um pai que sai de sua mansidão costumeirapara ir brigar por um filho em quem querem bater. Mas, para7quem conhece o homem, o artigo assume proporçõesdramáticas. Pois Oscar é não só o avesso do causídico, comoum dos seres mais antiautopromocionais que já conheci em10minha vida. Sua modéstia não é, como de comum, uma formainfame de vaidade. Ela não tem nada a ver com o conhecimento13realista — que Oscar tem — de seu valor profissional e de suaspossibilidades. É a modéstia dos criadores verdadeiramenteintegrados com a vida, dos que sabem que não há tempo a16perder, é preciso construir a beleza e a felicidade no mundo,por isso mesmo que, no indivíduo, é tudo tão frágil e precário. Oscar não acredita em Papai do Céu, nem que estará19um dia construindo brasílias angélicas nas verdes pastagens doParaíso. Põe ele, como um verdadeiro homem, a felicidade doseu semelhante no aproveitamento das pastagens verdes da22Terra; no exemplo do trabalho para o bem comum e na criaçãode condições urbanas e rurais, em estreita intercorrência, queestimulem e desenvolvam este nobre fim: fazer o homem feliz25dentro do curto prazo que lhe foi dado para viver. Eu acredito também nisso, e quando vejo aquilo emque creio refletido num depoimento como o de Oscar28Niemeyer, velho e querido amigo, como não me emocionar?

Vinicius de Moraes. Para viver um grande amor. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1982, p. 134-5 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens a seguir, relativos às estruturas linguísticas do texto.

  1. 33.

    Ao empregar as expressões “Papai do Céu” (l.18) e “verdes pastagens do Paraíso” (l.19-20), o autor do texto demonstra neutralidade em relação ao universo de crenças que elas representam.

  2. 34.

    O emprego de adjetivos no grau superlativo absoluto, como “mais emocionantes” (l.1), “mais antiautopromocionais” (l.9), “tão frágil e precário” (l.17), produz o efeito de exaltação da superioridade dos atributos técnico e criativo de Oscar Niemeyer em relação a outros brasileiros notáveis.

  3. 35.

    No texto, a linguagem foi empregada predominantemente em suas funções emotiva e poética.

  4. 36.

    O uso da expressão “mais antiautopromocionais” (l.9) indica a opção do autor do texto por forma prolixa, dada a presença de dois prefixos no vocábulo adjetivo, em detrimento da concisão que seria proporcionada pela escolha da forma equivalente menos autopromocional, a qual manteria o efeito retórico desejado.

1 Ainda que se soubessem todas as palavras de cadafigura da Inconfidência, nem assim se poderia fazer com oseu simples registro uma composição da arte. A obra de arte4não é feita de tudo — mas apenas de algumas coisasessenciais. A busca desse essencial expressivo é que constituio trabalho do artista. Ele poderá dizer a mesma verdade do7historiador, porém de outra maneira. Seus caminhos sãooutros, para atingir a comunicação. Há um problema depalavras. Um problema de ritmos. Um problema de10composição. Grande parte de tudo isso se realiza, decerto,sem inteira consciência do artista. É a decorrência natural dasua constituição, da sua personalidade — por isso, tão difícil13se torna quase sempre a um criador explicar a própriacriação. No caso, porém, de um poema de mais objetividade,como o Romanceiro, muitas coisas podem ser explicadas,16porque foram aprendidas, à proporção que ele se foicompondo. Digo “que ele se foi compondo” e não “que foi19sendo composto”, pois, na verdade, uma das coisas que pudeobservar melhor que nunca, ao realizá-lo, foi a maneira porque um tema encontra sozinho ou sozinho impõe seu ritmo,22sua sonoridade, seu desenvolvimento, sua medida. O Romanceiro foi construído tão sem normaspreestabelecidas, tão à mercê de sua expressão natural que25cada poema procurou a forma condizente com suamensagem. A voz irreprimível dos fantasmas, que todos osartistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e28submete-se à aprovação do poeta, como se realmente, a cadainstante, lhe pedisse para ajustar seu timbre à audição dopúblico. Porque há obras que existem apenas para o artista,31desinteressadas de transmissão; outras que exigem essatransmissão e esperam que o artista se ponha a seu serviço,para alcançá-la. O Romanceiro é desta segunda espécie.34 Quatro anos de quase completa solidão — numarenúncia total às mais sedutoras solicitações, entre livros detoda espécie relativos ao especializadamente século 18 —37ainda pareceram curtos demais para uma obra que sedesejava o menos imperfeita possível, porque se impunha,acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, que se40confessavam, que exigiam, quase, o registro da sua história. E era uma história feita de coisas eternas eirredutíveis: de ouro, amor, liberdade, traições...43 Mas porque esses grandiosos acontecimentos jávinham preparados de tempos mais antigos e foram odesfecho de um passado minuciosamente construído — era46preciso iluminar esses caminhos anteriores, seguir o rastro doouro que vai, a princípio como o fio de um colar, ligandocenas e personagens, até transformar-se em pesada cadeia que49prende e imobiliza num destino doloroso.

Cecília Meireles. Como escrevi o Romanceiro da Inconfidência. In: Romanceiro da Inconfidência. 3.ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, p. XVI-XVII (com adaptações).

Acerca das ideias e das estruturas linguísticas do texto, extraído da obra de Cecília Meireles, na qual a autora explica a criação do Romanceiro da Inconfidência, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 37.

    Da leitura do primeiro parágrafo do texto depreende-se que, para a autora, não foi tão difícil explicar a criação do Romanceiro da Inconfidência quanto geralmente é difícil para os artistas explicar a criação de suas obras menos objetivas. Isso se explica porque o Romanceiro da Inconfidência, dado o tema, apresenta não só o “essencial expressivo”, mas também aspectos objetivos.

  2. 38.

    Depreende-se da leitura do texto que a autora colocou-se a serviço da obra, cabendo-lhe adequar a mensagem à forma, uma vez que o tema impunha seu próprio desenvolvimento.

  3. 39.

    São pertinentes as seguintes inferências a partir da pontuação e dos mecanismos de coesão empregados no período entre as linhas 26 e 30: entre todos os fantasmas, alguns são conhecidos por todos os artistas, e o poeta harmoniza, a todo momento, o timbre de sua voz à audiência.

  4. 40.

    No trecho “o rastro do ouro que vai, a princípio como o fio de um colar, ligando cenas e personagens, até transformar-se em pesada cadeia que prende e imobiliza num destino doloroso” (l.46-49), verifica-se gradativa intensificação das ações nele relatadas, expressa pelo emprego da locução com verbo no gerúndio e de preposição que denota limite, e, tal como ocorre no trecho “que falavam, que se confessavam, que exigiam, quase, o registro da sua história” (l.39-40), pela ordem em que se apresentam os núcleos verbais que constituem as orações adjetivas.

1 Ainda que se soubessem todas as palavras de cadafigura da Inconfidência, nem assim se poderia fazer com oseu simples registro uma composição da arte. A obra de arte4não é feita de tudo — mas apenas de algumas coisasessenciais. A busca desse essencial expressivo é que constituio trabalho do artista. Ele poderá dizer a mesma verdade do7historiador, porém de outra maneira. Seus caminhos sãooutros, para atingir a comunicação. Há um problema depalavras. Um problema de ritmos. Um problema de10composição. Grande parte de tudo isso se realiza, decerto,sem inteira consciência do artista. É a decorrência natural dasua constituição, da sua personalidade — por isso, tão difícil13se torna quase sempre a um criador explicar a própriacriação. No caso, porém, de um poema de mais objetividade,como o Romanceiro, muitas coisas podem ser explicadas,16porque foram aprendidas, à proporção que ele se foicompondo. Digo “que ele se foi compondo” e não “que foi19sendo composto”, pois, na verdade, uma das coisas que pudeobservar melhor que nunca, ao realizá-lo, foi a maneira porque um tema encontra sozinho ou sozinho impõe seu ritmo,22sua sonoridade, seu desenvolvimento, sua medida. O Romanceiro foi construído tão sem normaspreestabelecidas, tão à mercê de sua expressão natural que25cada poema procurou a forma condizente com suamensagem. A voz irreprimível dos fantasmas, que todos osartistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e28submete-se à aprovação do poeta, como se realmente, a cadainstante, lhe pedisse para ajustar seu timbre à audição dopúblico. Porque há obras que existem apenas para o artista,31desinteressadas de transmissão; outras que exigem essatransmissão e esperam que o artista se ponha a seu serviço,para alcançá-la. O Romanceiro é desta segunda espécie.34 Quatro anos de quase completa solidão — numarenúncia total às mais sedutoras solicitações, entre livros detoda espécie relativos ao especializadamente século 18 —37ainda pareceram curtos demais para uma obra que sedesejava o menos imperfeita possível, porque se impunha,acima de tudo, o respeito por essas vozes que falavam, que se40confessavam, que exigiam, quase, o registro da sua história. E era uma história feita de coisas eternas eirredutíveis: de ouro, amor, liberdade, traições...43 Mas porque esses grandiosos acontecimentos jávinham preparados de tempos mais antigos e foram odesfecho de um passado minuciosamente construído — era46preciso iluminar esses caminhos anteriores, seguir o rastro doouro que vai, a princípio como o fio de um colar, ligandocenas e personagens, até transformar-se em pesada cadeia que49prende e imobiliza num destino doloroso.

Cecília Meireles. Como escrevi o Romanceiro da Inconfidência. In: Romanceiro da Inconfidência. 3.ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005, p. XVI-XVII (com adaptações).

Considerando as relações morfossintáticas no texto bem como os recursos estilísticos nele empregados, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 41.

    No texto, as formas verbais “encontra” (l.21), “falavam” (l.39) e “prende” (l.49) são intransitivas.

  2. 42.

    Os vocábulos “decorrência” (l.11), “condizente” (l.25) e “irreprimível” (l.26) regem termos que lhes complementam, necessariamente, o sentido.

  3. 43.

    Os termos “uma composição da arte” (l.3) e “a mesma verdade do historiador” (l.6-7) exercem, na oração em que se inserem, função de complemento verbal.

  4. 44.

    O trecho “uma obra que se desejava o menos imperfeita possível” (l.37-38) poderia ser reescrito, sem prejuízo gramatical ou de sentido para o texto, da seguinte maneira: uma obra que era desejada a menos possível imperfeita.

1 Deixei os braços pousarem na madeira inchada eúmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar achuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá embaixo,4na varanda, os passos da avó Agnette, que se ia sentar nacadeira da varanda a apanhar ar fresco, senti que despedir-meda minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas7irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minharua, senti que rua não era um conjunto de casas mas umamultidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou10Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa sópalavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavrasde dizer: infância.13 A chuva parou. O mais difícil era saber parar aslágrimas. O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de16chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto dedespedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que setransformam em recordações molhadas com bué de lágrimas.19Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mimcomo se fossem fantasmas mujimbeiros* que dizem segredosdo futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu22ouvido de criança. Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette. Ficamos a olhar o verde do jardim, as gotas a25evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novascaminhadas. O recomeçar das coisas. — Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.28 — Vão pra casa, filho. — Tantas vezes de um lado para o outro? — Uma casa está em muitos lugares — ela respirou31devagar, me abraçou. — É uma coisa que se encontra.

*Mujimbeiro: fofoqueiro.

Ondjaki. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007, p. 145-6 (com adaptações).

A respeito do texto, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 45.

    Do trecho “a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância” (l.9-12) depreende-se que a rua em que o narrador morava passou a ter, para ele, sentido mais significativo.

  2. 46.

    No trecho “Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança” (l.19-22), o narrador apresenta, por meio de uma comparação, uma das razões de não gostar de despedidas, caracterizando, de forma restritiva, o elemento com que compara as despedidas.

  3. 47.

    Os sentidos e a correção gramatical do primeiro parágrafo do texto seriam mantidos e as relações sintáticas estariam bem identificadas caso o autor tivesse adotado, nesse trecho, a seguinte pontuação: Deixei os braços pousarem na madeira inchada e úmida; abri um pouco a janela, a pensar que isso de olhar a chuva de frente podia abrandar o ritmo dela; ouvi, lá embaixo, na varanda, os passos da avó Agnette, que se ia sentar na cadeira da varanda a apanhar ar fresco; senti que despedir-me da minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha rua; senti que rua não era um conjunto de casas, mas uma multidão de abraços; a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia, ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância.

  4. 48.

    O fato de o texto ter sido escrito na primeira pessoa do singular justifica o emprego da linguagem sinestésica em trechos como “O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas” (l.15-16), recurso inviável em textos escritos na terceira pessoa.

1 Nos países novos, nas terras ainda sem tipo étnicoabsolutamente definido, onde o sentimento d’Arte é silvícola,local, banalizado, deve ser espantoso, estupendo o esforço, a4batalha formidável de um temperamento fatalizado pelo sanguee que traz consigo, além da condição inviável do meio, aqualidade fisiológica de pertencer, de proceder de uma raça que7a ditadora ciência d’hipóteses negou em absoluto para asfunções do Entendimento e, principalmente, do entendimentoartístico da palavra escrita.10 Deus meu! Por uma questão banal de químicabiológica do pigmento ficam alguns mais rebeldes e curiososfósseis preocupados, a ruminar primitivas erudições, perdidos13e atropelados pelas longas galerias submarinas de umasabedoria infinita, esmagadora, irrevogável! (...) Ah! Esta minúscula humanidade, torcida, enroscada,16assaltando as almas com a ferocidade de animais bravios, degarras aguçadas e dentes rijos de carnívoro, é que não podecompreender-me.19 Sim! Tu é que não podes entender-me, não podesirradiar, convulsionar-te nestes efeitos com os arcaísmos durosda tua compreensão, com a carcaça paleontológica do Bom22Senso.

Cruz e Sousa. Emparedado. In: Obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1961, p. 659-60 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto acima, julgue o item a seguir.

  1. 49.

    Na linha 19, o pronome pessoal “Tu” refere-se ao leitor, tratado de modo respeitoso pelo escritor com o objetivo de convencê-lo quanto à veracidade dos argumentos mencionados sobre a questão racial e aspectos do entendimento artístico.

  2. 50.

    Nesse texto, Cruz e Sousa questiona o rigor das explicações científicas e menciona uma “ciência d’hipóteses” (l.7) para mostrar o relativismo do conhecimento e as distorções a que muitos analistas podem chegar ao defenderem as suas teses.

  3. 51.

    Ao empregar a expressão “Esta minúscula humanidade” (l.15), o poeta faz referência a um grupo específico de pessoas que, como menciona no parágrafo anterior do texto, não pode ser confundido com o grupo constituído de “alguns mais rebeldes e curiosos fósseis preocupados” (l.11-12).

  4. 52.

    Ao mencionar “a carcaça paleontológica do Bom Senso” (l.21-22), Cruz e Sousa indica que o estudo dos fósseis poderia derrubar os mitos científicos sobre a raça que vigoravam na sua época.

  5. 53.

    Cruz e Sousa demonstra que a ciência ainda não se desenvolveu plenamente nos países novos, o que impede a explicação de alguns fatos que ocorrem somente ali.

1 Deixei os braços pousarem na madeira inchada eúmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar achuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá embaixo,4na varanda, os passos da avó Agnette, que se ia sentar nacadeira da varanda a apanhar ar fresco, senti que despedir-meda minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas7irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minharua, senti que rua não era um conjunto de casas mas umamultidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou10Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa sópalavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavrasde dizer: infância.13 A chuva parou. O mais difícil era saber parar aslágrimas. O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de16chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto dedespedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que setransformam em recordações molhadas com bué de lágrimas.19Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mimcomo se fossem fantasmas mujimbeiros* que dizem segredosdo futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu22ouvido de criança. Desci. Sentei-me perto, muito perto da avó Agnette. Ficamos a olhar o verde do jardim, as gotas a25evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novascaminhadas. O recomeçar das coisas. — Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.28 — Vão pra casa, filho. — Tantas vezes de um lado para o outro? — Uma casa está em muitos lugares — ela respirou31devagar, me abraçou. — É uma coisa que se encontra.

*Mujimbeiro: fofoqueiro.

Ondjaki. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007, p. 145-6 (com adaptações).

Acerca do vocabulário, das ideias e das estruturas linguísticas do texto, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 54.

    Da leitura do texto depreende-se que, para o narrador, o sentido de casa, no momento da despedida, incluía a sua infância, os pais, as irmãs e a avó.

  2. 55.

    Como a frase “O recomeçar das coisas” (l.26) resume o que o narrador depreendeu da situação relatada na frase anterior a ela, seriam preservados a correção gramatical e os sentidos do trecho se o ponto final após “caminhadas” fosse substituído por dois-pontos ou por travessão, com o devido ajuste na inicial maiúscula.

  3. 56.

    Seriam mantidos o sentido e a correção gramatical do texto se os infinitivos flexionados fossem substituídos pelas respectivas formas do infinitivo não flexionado no segmento “as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novas caminhadas” (l.24-26).

  4. 57.

    O vocábulo “bué” (l.18), formado a partir da reprodução aproximada do som natural do choro, evidencia uso de linguagem informal no texto.

    Item anulado pela banca

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