Língua Portuguesa — CACD 2009

CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 65 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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Textos 5 e 6

Texto 5

1 Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda emmeados da década de 1880, aludia-se ao fato de váriasassembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a4exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter,e também sobre a importação, o que era expressamentevedado pela Constituição. Sob pressão de associações7comerciais e dos delegados regionais da Fazenda,diversas assembleias foram forçadas a votar a supressãodesses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório10para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia eMaranhão ainda resistiam. A questão da repartição dosimpostos e das competências de cada ente federativo13parece, portanto, mais antiga que a própria República.

Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).

Texto 6

 Impostos inconstitucionais...1 Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostosinconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que,ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais4gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, voxclamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no últimopaquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir7com regularidade estas viagens à corte. — A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiuele, não há de morrer de aborrecimento na cela das10probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando,não faz mal a ninguém, exceto... — Exceto...?13 — Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentosíntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não hácoisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for.16Falei de um modo geral e abstrato. (...) — São todos inconstitucionais? — Todos.19 — Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionamfazer? — Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu22amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima quediz que a história não se repete? — Creio que sim.25 — Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador,ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, poroutro lado, como a história não se repete... Você, se fosse28imperador, que é que faria? — Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o31primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata,faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos. — Os adjetivos?34 — Vocês não calculam como os adjetivos corrompemtudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem agente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria.37Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo. — Mas que temos nós outros com isso? — Tudo; vocês como simples impostos são excelentes,40gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e fazdefinhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por umdecreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha43questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido dahistória e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os quegovernam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.

Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.

Acerca das ideias e dos sentidos do texto 6, assim como de suas estruturas linguísticas e organização textual, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 1.

    A frase “vox clamantis in deserto” (l.4-5) está em itálico, porque remete o interlocutor ao respectivo texto-fonte e faz parte da memória coletiva nacional.

  2. 2.

    O autor valeu-se do discurso indireto livre, que consiste em dar voz e atribuir características e sentimentos humanos a seres inanimados.

  3. 3.

    O narrador recorreu à função metalinguística da linguagem para formular, ao final da crônica, sua máxima, carregada de arbitrariedade.

  4. 4.

    O trecho “Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo.” (l.30-31) produz efeito humorístico, por sua incongruência interna e por desviar-se do “caso de que se trata” (l.31).

Texto 2

Canção do Ver (fragmento)

1Por viver muitos anosdentro do matoModa ave4O menino pegouum olhar de pássaro –Contraiu visão fontana.7Por forma que ele enxergavaas coisasPor igual10como os pássaros enxergam.As coisas todas inominadas.Água não era ainda a palavra água.13Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.As palavras eram livres de gramáticas ePodiam ficar em qualquer posição.16Por forma que o menino podia inaugurar.Podia dar às pedras costumes de flor.Podia dar ao canto formato de sol.19E, se quisesse caber em uma abelha, era só abrir a [palavra abelha e entrar dentro dela.Como se fosse infância da língua.

Manoel de Barros. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Com base no texto, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 5.

    As ideias expressas nos versos de 17 a 19 ilustram o sentido de “inaugurar” (v.16).

  2. 6.

    O verso final — “Como se fosse infância da língua” — equivale semanticamente a: Como se fosse reinvenção da língua.

  3. 7.

    Em “Por viver muitos anos/dentro do mato” (v.1-2) e “ele enxergava/as coisas/Por igual” (v.7-9), a preposição “Por”, nas duas ocorrências, introduz uma circunstância de modo nos períodos em que se insere.

  4. 8.

    No trecho “era só abrir a palavra abelha e entrar dentro dela” (v.19-20), verifica-se redundância de efeito estilístico.

Texto 1

O que é o que é?

1 Se recebo um presente dado com carinho por pessoade quem não gosto — como se chama o que sinto? Umapessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da4gente — como se chama essa mágoa e esse rancor? Estarocupado, e de repente parar por ter sido tomado por umadesocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota — como se7chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar:como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própriapergunta. Qual é o nome? e é este o nome.

Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 199.

Com relação a aspectos gramaticais do texto acima, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 9.

    Nos segmentos “— como se chama o que sinto?” (l.2) e “e que não gosta mais da gente” (l.3-4), os pronomes relativos exercem a mesma função sintática.

  2. 10.

    Em “Se recebo um presente” (l.1), a substituição do conectivo por Caso seria sintaticamente correta e dispensaria alterações formais.

  3. 11.

    Nos trechos “— como se chama o que sinto? ” (l.2) e “— como se chama essa mágoa e esse rancor?” (l.4), o emprego do travessão equivale gramaticalmente ao de vírgula.

  4. 12.

    O referente dos pronomes demonstrativos “essa” e “esse”, em “como se chama essa mágoa e esse rancor?” (l.4) é “Uma pessoa” (l.2-3).

Texto 3

A diferença na linguagem

1 “Para os gramáticos, a arte da palavra quase se esgota naarte da escrita, o que se vê ainda pelo uso que fazem dosacentos, muitos dos quais fazem alguma distinção ou evitam4algum equívoco para os olhos mas não para os ouvidos.”Neste texto Rousseau nos sugere que, para ler bem, é precisoprestar ouvidos à voz original, adivinhar as diferenças de7acento que a articulam e que se tornaram imperceptíveis noespaço homogêneo da escrita. Na leitura, o olho treinado doGramático ou do Lógico deve subordinar-se a um ouvido10atento à melodia que dá vida aos signos: estar surdo àmodulação da voz significa estar cego às modalidades dosentido. Na oposição que o texto faz entre a arte de falar e a13arte de escrever, podemos encontrar não apenas as razões dadesqualificação da concepção gramatical da linguagem, mastambém a indicação do estatuto que Rousseau confere à16linguagem. O que é importante notar aqui é que a oposiçãoentre falar e escrever não se funda mais na oposição entrepresença e ausência: não é a ausência do sujeito falante que19desqualifica a escrita, mas a atonia ou a homogeneidade dossignos visuais. Se a essência da linguagem escapa àGramática, é porque esta desdobra a linguagem num elemento22essencialmente homogêneo.

Bento Prado Jr. A retórica de Rousseau. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 129-130.

Com relação às ideias e aos aspectos gramaticais do texto, julgue o item a seguir.

  1. 13.

    Os operadores “não apenas” (l.13) e “mas também” (l.14- 15) possibilitam ao autor a apresentação de dois argumentos mutuamente excludentes.

  2. 14.

    Em suas duas ocorrências, a forma verbal “fazem” (l.2 e l.3) concorda com sujeitos distintos.

  3. 15.

    O uso recorrente de vocábulos pertencentes aos campos semânticos da visão e da audição prejudica a coerência e a coesão do texto.

  4. 16.

    Na linha 16, a expressão “é que” é expletiva.

  5. 17.

    É a mesma a justificativa para o uso de inicial maiúscula em “Gramático” (l.9) e em Gramática (l.21).

Texto 4

1 Em Emílio, Rousseau constrói a temporalidade da vidade Emílio como uma ficção, jamais se teria proposto a aplicá-la. O menino Emílio não existe, não existiu e não foi pensado4para existir. Trata-se de um artifício lógico-dedutivo parameditar sobre a educação e as orientações do ensino. Emílioé alegoria para reflexão sobre o ato de educar as crianças.7Emílio, que não é filho, tampouco é aluno... É um construtoteórico e um suporte operatório para a análise conceitual doato educativo.10 Se o discípulo não se separa do mestre desde onascimento até a maturidade, pode-se supor que o “criador”do Emílio tenha pretendido que o relato da trajetória de vida13do ser individual correspondesse a uma reconstituição dasetapas trilhadas pela espécie humana em direção à civilização.Emílio, ao nascer, é o homem do estado de natureza; o Emílio16bem educado — que, aos 25 anos, se despede de seu educador— é o homem civil, que vive em uma sociedade corrompida,mas que, a despeito disso, pode ser considerado apto para19fundar o legítimo contrato social. O traçado de educação deEmílio propõe-se ao educador como metáfora para reflexão,uma meditação sobre a arte de formar os homens. Com a22mesma estrutura hipotético-dedutiva que orientara seusescritos políticos, Rousseau constrói seu educando — umdiscípulo que não é e que não pretende ser empírico, mas que25tem sua própria temporalidade inscrita na narrativa dos seusprimeiros 25 anos de vida em educação.

Carlota Boto. O Emílio como categoria operatória do pensamento rousseauniano. In: José Oscar de Almeida Marques (Org.). Verdades e mentiras. 30 ensaios em torno de Jean-Jacques Rousseau. Ijuí–RS: Unijuí, 2005, p. 379-84 (com adaptações).

Com relação às ideias do texto e aos seus aspectos textuais, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 18.

    A diversidade de temas no trecho “Trata-se ... ato educativo.” (l.4-9) compromete a coerência do texto.

  2. 19.

    Ao analisar a narrativa de Rousseau, a autora emprega, reiteradas vezes, o presente histórico — em vez dos tempos verbais pretéritos —, para imprimir assertividade à sua argumentação.

  3. 20.

    Existe consenso a respeito da ideia de que o “menino Emílio” (l.3) foi construído pelo filósofo francês, na obra Emílio, com propósito de orientação psicológica.

  4. 21.

    A repetição de palavras e o uso de paráfrases contribuem para estabelecer a coesão do texto.

Texto 4

1 Em Emílio, Rousseau constrói a temporalidade da vidade Emílio como uma ficção, jamais se teria proposto a aplicá-la. O menino Emílio não existe, não existiu e não foi pensado4para existir. Trata-se de um artifício lógico-dedutivo parameditar sobre a educação e as orientações do ensino. Emílioé alegoria para reflexão sobre o ato de educar as crianças.7Emílio, que não é filho, tampouco é aluno... É um construtoteórico e um suporte operatório para a análise conceitual doato educativo.10 Se o discípulo não se separa do mestre desde onascimento até a maturidade, pode-se supor que o “criador”do Emílio tenha pretendido que o relato da trajetória de vida13do ser individual correspondesse a uma reconstituição dasetapas trilhadas pela espécie humana em direção à civilização.Emílio, ao nascer, é o homem do estado de natureza; o Emílio16bem educado — que, aos 25 anos, se despede de seu educador— é o homem civil, que vive em uma sociedade corrompida,mas que, a despeito disso, pode ser considerado apto para19fundar o legítimo contrato social. O traçado de educação deEmílio propõe-se ao educador como metáfora para reflexão,uma meditação sobre a arte de formar os homens. Com a22mesma estrutura hipotético-dedutiva que orientara seusescritos políticos, Rousseau constrói seu educando — umdiscípulo que não é e que não pretende ser empírico, mas que25tem sua própria temporalidade inscrita na narrativa dos seusprimeiros 25 anos de vida em educação.

Carlota Boto. O Emílio como categoria operatória do pensamento rousseauniano. In: José Oscar de Almeida Marques (Org.). Verdades e mentiras. 30 ensaios em torno de Jean-Jacques Rousseau. Ijuí–RS: Unijuí, 2005, p. 379-84 (com adaptações).

Com relação aos aspectos morfossintáticos e semânticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 22.

    Haveria prejuízo para o sentido original do texto se, no trecho “O menino Emílio não existe, não existiu e não foi pensado para existir” (l.3-4), os termos grifados (“e não”, antes de “foi pensado”) fossem substituídos pela conjunção coordenativa nem.

  2. 23.

    Caso o trecho “Emílio, que não é filho, tampouco é aluno...” (l.7) fosse alterado para: Emílio não é filho nem aluno, o período ganharia em concisão, estaria coerente com a informação original do texto, mas teria diminuído seu efeito retórico.

  3. 24.

    O enunciado “que vive em uma sociedade corrompida” (l.17) tem, no período em que se insere, sentido explicativo.

  4. 25.

    Se fossem retirados os travessões do trecho “o Emílio bem educado — que, aos 25 anos, se despede de seu educador — é o homem civil” (l.15-17), deveria ser empregada uma vírgula antes do pronome “que” e outra após “educador”, para que o sentido original do texto não fosse prejudicado.

Texto 3

A diferença na linguagem

1 “Para os gramáticos, a arte da palavra quase se esgota naarte da escrita, o que se vê ainda pelo uso que fazem dosacentos, muitos dos quais fazem alguma distinção ou evitam4algum equívoco para os olhos mas não para os ouvidos.”Neste texto Rousseau nos sugere que, para ler bem, é precisoprestar ouvidos à voz original, adivinhar as diferenças de7acento que a articulam e que se tornaram imperceptíveis noespaço homogêneo da escrita. Na leitura, o olho treinado doGramático ou do Lógico deve subordinar-se a um ouvido10atento à melodia que dá vida aos signos: estar surdo àmodulação da voz significa estar cego às modalidades dosentido. Na oposição que o texto faz entre a arte de falar e a13arte de escrever, podemos encontrar não apenas as razões dadesqualificação da concepção gramatical da linguagem, mastambém a indicação do estatuto que Rousseau confere à16linguagem. O que é importante notar aqui é que a oposiçãoentre falar e escrever não se funda mais na oposição entrepresença e ausência: não é a ausência do sujeito falante que19desqualifica a escrita, mas a atonia ou a homogeneidade dossignos visuais. Se a essência da linguagem escapa àGramática, é porque esta desdobra a linguagem num elemento22essencialmente homogêneo.

Bento Prado Jr. A retórica de Rousseau. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 129-130.

Com relação às ideias e aos aspectos gramaticais do texto, extraído da obra A retórica de Rousseau, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 26.

    No período inicial do texto, há três orações subordinadas adjetivas com sentido restritivo.

  2. 27.

    O emprego das aspas, no trecho inicial do texto, indica a voz do autor de A retórica de Rousseau.

  3. 28.

    Seria correto empregar, no texto, vírgula antes da conjunção “mas” (l.4) e depois da locução adverbial “Neste texto” (l.5).

  4. 29.

    No trecho “e que se tornaram imperceptíveis no espaço homogêneo da escrita” (l.7-8), seria admissível, de acordo com o padrão escrito da língua portuguesa, a colocação do pronome “se” após a forma verbal “tornaram”.

Texto 2

Canção do Ver (fragmento)

1Por viver muitos anosdentro do matoModa ave4O menino pegouum olhar de pássaro –Contraiu visão fontana.7Por forma que ele enxergavaas coisasPor igual10como os pássaros enxergam.As coisas todas inominadas.Água não era ainda a palavra água.13Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.As palavras eram livres de gramáticas ePodiam ficar em qualquer posição.16Por forma que o menino podia inaugurar.Podia dar às pedras costumes de flor.Podia dar ao canto formato de sol.19E, se quisesse caber em uma abelha, era só abrir a [palavra abelha e entrar dentro dela.Como se fosse infância da língua.

Manoel de Barros. Poemas rupestres. Rio de Janeiro: Record, 2004.

A respeito do vocabulário do texto acima, julgue o item a seguir.

  1. 30.

    O sentido do vocábulo “Contraiu” (v.6) restringe as possibilidades semânticas de “pegou” (v.4).

  2. 31.

    Na expressão “visão fontana” (v.6), o vocábulo sublinhado (“fontana”), adjetivo derivado de fonte, foi metaforicamente empregado com sentido de originário, gerador, causal, seminal.

  3. 32.

    Em “As palavras eram livres de gramáticas” (v.14), o vocábulo sublinhado (“gramáticas”) alude a regras gramaticais.

  4. 33.

    “Moda” (v.3) significa conjunto de opiniões, gostos e apreciações críticas, assim como modos de agir, viver e sentir coletivos, aceitos por determinado grupo humano em um dado momento histórico.

  5. 34.

    O vocábulo “posição” (v.15) refere-se à sintaxe, entendida como disposição harmoniosa de partes ou elementos da frase.

Texto 3

A diferença na linguagem

1 “Para os gramáticos, a arte da palavra quase se esgota naarte da escrita, o que se vê ainda pelo uso que fazem dosacentos, muitos dos quais fazem alguma distinção ou evitam4algum equívoco para os olhos mas não para os ouvidos.”Neste texto Rousseau nos sugere que, para ler bem, é precisoprestar ouvidos à voz original, adivinhar as diferenças de7acento que a articulam e que se tornaram imperceptíveis noespaço homogêneo da escrita. Na leitura, o olho treinado doGramático ou do Lógico deve subordinar-se a um ouvido10atento à melodia que dá vida aos signos: estar surdo àmodulação da voz significa estar cego às modalidades dosentido. Na oposição que o texto faz entre a arte de falar e a13arte de escrever, podemos encontrar não apenas as razões dadesqualificação da concepção gramatical da linguagem, mastambém a indicação do estatuto que Rousseau confere à16linguagem. O que é importante notar aqui é que a oposiçãoentre falar e escrever não se funda mais na oposição entrepresença e ausência: não é a ausência do sujeito falante que19desqualifica a escrita, mas a atonia ou a homogeneidade dossignos visuais. Se a essência da linguagem escapa àGramática, é porque esta desdobra a linguagem num elemento22essencialmente homogêneo.

Bento Prado Jr. A retórica de Rousseau. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p. 129-130.

Com relação às ideias do texto 3, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 35.

    O autor do texto afirma que Rousseau valoriza o caráter melódico da palavra falada, mas considera que a palavra escrita é mais apta a desvendar as sutilezas do sentido.

  2. 36.

    A palavra “acentos” (l.3) refere-se a sinais gráficos, ao passo que “acento” (l.7) designa qualidades como inflexão ou modulação.

  3. 37.

    Ao caracterizar como “treinado” (l.8) o olho do “Gramático” ou do “Lógico”, o autor dá a entender que estes consideram a leitura como decodificação mecânica.

  4. 38.

    Segundo o texto, na fala, a altura e a intensidade da voz contribuem, no entender de Rousseau, para as possibilidades de sentido.

Texto 1

O que é o que é?

1 Se recebo um presente dado com carinho por pessoade quem não gosto — como se chama o que sinto? Umapessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da4gente — como se chama essa mágoa e esse rancor? Estarocupado, e de repente parar por ter sido tomado por umadesocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota — como se7chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar:como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própriapergunta. Qual é o nome? e é este o nome.

Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 199.

Com relação a aspectos gramaticais e aos sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 39.

    Em “de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação” (l.5-6), a preposição “por” introduz termo com valor causal, na primeira ocorrência, e o agente da passiva, na segunda.

  2. 40.

    O trecho final — “Qual é o nome? e é este o nome.” (l.9) — resume a tese de que a propriedade da linguagem de denominar é limitada.

  3. 41.

    No título do texto, as duas ocorrências da forma verbal “é” são sintaticamente equivalentes.

  4. 42.

    É gramaticalmente correto flexionar no plural a forma verbal em “como se chama essa mágoa e esse rancor?” (l.4), tendo como resultado como se chamam (...).

Textos 5 e 6

Texto 5

1 Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda emmeados da década de 1880, aludia-se ao fato de váriasassembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a4exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter,e também sobre a importação, o que era expressamentevedado pela Constituição. Sob pressão de associações7comerciais e dos delegados regionais da Fazenda,diversas assembleias foram forçadas a votar a supressãodesses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório10para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia eMaranhão ainda resistiam. A questão da repartição dosimpostos e das competências de cada ente federativo13parece, portanto, mais antiga que a própria República.

Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).

Texto 6

 Impostos inconstitucionais...1 Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostosinconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que,ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais4gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, voxclamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no últimopaquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir7com regularidade estas viagens à corte. — A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiuele, não há de morrer de aborrecimento na cela das10probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando,não faz mal a ninguém, exceto... — Exceto...?13 — Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentosíntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não hácoisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for.16Falei de um modo geral e abstrato. (...) — São todos inconstitucionais? — Todos.19 — Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionamfazer? — Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu22amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima quediz que a história não se repete? — Creio que sim.25 — Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador,ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, poroutro lado, como a história não se repete... Você, se fosse28imperador, que é que faria? — Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o31primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata,faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos. — Os adjetivos?34 — Vocês não calculam como os adjetivos corrompemtudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem agente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria.37Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo. — Mas que temos nós outros com isso? — Tudo; vocês como simples impostos são excelentes,40gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e fazdefinhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por umdecreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha43questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido dahistória e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os quegovernam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.

Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.

Com relação ao texto 5 e ao texto 6, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 43.

    O emprego de “portanto”, na linha 13 do texto 5, permite que se afirme que os fatos narrados acerca dos impostos fundamentam a conclusão do autor de que os problemas relativos a esse assunto precederam o regime republicano.

  2. 44.

    Caso, no texto 5, o pronome “própria” (l.13) fosse substituído por mesma, seria mantido o sentido da frase, embora se prejudicasse a ênfase dada, no texto, ao termo “República” (l.13).

  3. 45.

    No texto 5, narrativa de cunho histórico acerca de tema da economia brasileira, o autor emprega predominantemente linguagem referencial e objetiva.

  4. 46.

    Embora pertençam a diferentes gêneros e adotem registros distintos, os textos 5 e 6 versam sobre temática comum.

Textos 5 e 6

Texto 5

1 Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda emmeados da década de 1880, aludia-se ao fato de váriasassembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a4exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter,e também sobre a importação, o que era expressamentevedado pela Constituição. Sob pressão de associações7comerciais e dos delegados regionais da Fazenda,diversas assembleias foram forçadas a votar a supressãodesses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório10para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia eMaranhão ainda resistiam. A questão da repartição dosimpostos e das competências de cada ente federativo13parece, portanto, mais antiga que a própria República.

Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).

Texto 6

 Impostos inconstitucionais...1 Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostosinconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que,ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais4gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, voxclamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no últimopaquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir7com regularidade estas viagens à corte. — A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiuele, não há de morrer de aborrecimento na cela das10probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando,não faz mal a ninguém, exceto... — Exceto...?13 — Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentosíntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não hácoisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for.16Falei de um modo geral e abstrato. (...) — São todos inconstitucionais? — Todos.19 — Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionamfazer? — Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu22amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima quediz que a história não se repete? — Creio que sim.25 — Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador,ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, poroutro lado, como a história não se repete... Você, se fosse28imperador, que é que faria? — Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o31primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata,faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos. — Os adjetivos?34 — Vocês não calculam como os adjetivos corrompemtudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem agente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria.37Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo. — Mas que temos nós outros com isso? — Tudo; vocês como simples impostos são excelentes,40gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e fazdefinhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por umdecreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha43questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido dahistória e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os quegovernam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.

Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.

Com base no texto 6, julgue o item a seguir.

  1. 47.

    No texto 6, a supressão da expressão “de que” no trecho “Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular” (l.31-32) provoca erro gramatical.

  2. 48.

    No texto 6, a supressão da expressão “que é que” no trecho “Você, se fosse imperador, que é que faria?” (l.27-28) provoca erro gramatical.

  3. 49.

    No texto 6, a supressão da expressão “nós outros” no trecho “Mas que temos nós outros com isso?” (l.38) provoca erro gramatical.

  4. 50.

    No texto 6, a supressão da palavra “nenhuma” no trecho “Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for.” (l.14-15) provoca erro gramatical.

  5. 51.

    No texto 6, a supressão da expressão “é que” no trecho “eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci” (l.2-4) provoca erro gramatical.

Textos 5 e 6

Texto 5

1 Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda emmeados da década de 1880, aludia-se ao fato de váriasassembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a4exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter,e também sobre a importação, o que era expressamentevedado pela Constituição. Sob pressão de associações7comerciais e dos delegados regionais da Fazenda,diversas assembleias foram forçadas a votar a supressãodesses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório10para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia eMaranhão ainda resistiam. A questão da repartição dosimpostos e das competências de cada ente federativo13parece, portanto, mais antiga que a própria República.

Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).

Texto 6

 Impostos inconstitucionais...1 Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostosinconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que,ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais4gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, voxclamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no últimopaquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir7com regularidade estas viagens à corte. — A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiuele, não há de morrer de aborrecimento na cela das10probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando,não faz mal a ninguém, exceto... — Exceto...?13 — Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentosíntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não hácoisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for.16Falei de um modo geral e abstrato. (...) — São todos inconstitucionais? — Todos.19 — Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionamfazer? — Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu22amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima quediz que a história não se repete? — Creio que sim.25 — Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador,ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, poroutro lado, como a história não se repete... Você, se fosse28imperador, que é que faria? — Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o31primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata,faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos. — Os adjetivos?34 — Vocês não calculam como os adjetivos corrompemtudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem agente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria.37Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo. — Mas que temos nós outros com isso? — Tudo; vocês como simples impostos são excelentes,40gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e fazdefinhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por umdecreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha43questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido dahistória e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os quegovernam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.

Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.

Julgue o item a seguir, relativo a mudanças na colocação de palavras em trechos dos textos 5 e 6.

  1. 52.

    A reescrita a seguir de trecho do texto 6 (l.44-45), com mudança na colocação da palavra “aí”, mantém o sentido do trecho original: (...) que dou por dois vinténs a todos os que aí governam o mundo.

  2. 53.

    A reescrita a seguir de trecho do texto 5 (l.11-13), com mudança na colocação da palavra “portanto”, mantém o sentido do trecho original: A questão da repartição dos impostos e das competências de cada ente federativo, portanto, parece mais antiga que a própria República.

  3. 54.

    A reescrita a seguir de trecho do texto 5 (l.9-11), com mudança na colocação da palavra “apenas”, mantém o sentido do trecho original: O Visconde Paranaguá, em seu relatório para 1883, informava que Pernambuco, Bahia e Maranhão apenas ainda resistiam.

  4. 55.

    A reescrita a seguir de trecho do texto 6 (l.6-7), com mudança na colocação da palavra “até”, mantém o sentido do trecho original: Até o mais velho acrescentou que agora hão de repetir com regularidade estas viagens à corte.

  5. 56.

    A reescrita a seguir de trecho do texto 6 (l.21-22), com mudança na colocação da palavra “agora”, mantém o sentido do trecho original: Temos de ir ao imperador, mas confesso agora, meu amigo, receamos perder tempo.

Textos 5 e 6

Texto 5

1 Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda emmeados da década de 1880, aludia-se ao fato de váriasassembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a4exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter,e também sobre a importação, o que era expressamentevedado pela Constituição. Sob pressão de associações7comerciais e dos delegados regionais da Fazenda,diversas assembleias foram forçadas a votar a supressãodesses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório10para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia eMaranhão ainda resistiam. A questão da repartição dosimpostos e das competências de cada ente federativo13parece, portanto, mais antiga que a própria República.

Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).

Texto 6

 Impostos inconstitucionais...1 Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostosinconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que,ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais4gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, voxclamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no últimopaquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir7com regularidade estas viagens à corte. — A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiuele, não há de morrer de aborrecimento na cela das10probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando,não faz mal a ninguém, exceto... — Exceto...?13 — Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentosíntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não hácoisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for.16Falei de um modo geral e abstrato. (...) — São todos inconstitucionais? — Todos.19 — Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionamfazer? — Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu22amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima quediz que a história não se repete? — Creio que sim.25 — Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador,ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, poroutro lado, como a história não se repete... Você, se fosse28imperador, que é que faria? — Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o31primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata,faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos. — Os adjetivos?34 — Vocês não calculam como os adjetivos corrompemtudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem agente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria.37Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo. — Mas que temos nós outros com isso? — Tudo; vocês como simples impostos são excelentes,40gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e fazdefinhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por umdecreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha43questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido dahistória e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os quegovernam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.

Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.

Acerca das ideias dos textos 1, 2, 3, 4, 5 e 6, julgue (C ou E ) os itens seguintes.

  1. 57.

    Nos textos 1, 2 e 6, evidencia-se, de formas diferentes, a plena capacidade da linguagem de refletir a realidade, por meio da denominação.

  2. 58.

    O texto 5 ensejou a elaboração do texto 6.

  3. 59.

    O tema dos textos 2 e 4 é o mesmo: a linguagem infantil.

  4. 60.

    Os textos 2 e 3 apresentam pontos de vista coincidentes com relação à gramática da língua.

Textos 5 e 6

Texto 5

1 Em sucessivos relatórios do ministro da Fazenda emmeados da década de 1880, aludia-se ao fato de váriasassembleias provinciais estabelecerem impostos sobre a4exportação, uma parte da receita dos quais podiam reter,e também sobre a importação, o que era expressamentevedado pela Constituição. Sob pressão de associações7comerciais e dos delegados regionais da Fazenda,diversas assembleias foram forçadas a votar a supressãodesses impostos. O Visconde Paranaguá, em seu relatório10para 1883, informava que apenas Pernambuco, Bahia eMaranhão ainda resistiam. A questão da repartição dosimpostos e das competências de cada ente federativo13parece, portanto, mais antiga que a própria República.

Gustavo H. B. Franco (organização, introdução e comentários). A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 59 (com adaptações).

Texto 6

 Impostos inconstitucionais...1 Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostosinconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo, eu é que,ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais4gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, voxclamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no últimopaquete. O mais velho acrescentou até que agora hão de repetir7com regularidade estas viagens à corte. — A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiuele, não há de morrer de aborrecimento na cela das10probabilidades. Uma chegadinha à corte, de quando em quando,não faz mal a ninguém, exceto... — Exceto...?13 — Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentosíntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não hácoisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for.16Falei de um modo geral e abstrato. (...) — São todos inconstitucionais? — Todos.19 — Vamos aqui para calçada. E agora, que tencionamfazer? — Agora temos de ir ao imperador, mas confesso, meu22amigo, receamos perder tempo. Você conhece a velha máxima quediz que a história não se repete? — Creio que sim.25 — Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador,ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras e, poroutro lado, como a história não se repete... Você, se fosse28imperador, que é que faria? — Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado.Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o31primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata,faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos. — Os adjetivos?34 — Vocês não calculam como os adjetivos corrompemtudo, ou quase tudo; e, quando não corrompem, aborrecem agente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria.37Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo. — Mas que temos nós outros com isso? — Tudo; vocês como simples impostos são excelentes,40gorduchos e corados, cheios de vida. O que os corrompe e fazdefinhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por umdecreto todos os adjetivos de Estado, resolvia de golpe esta velha43questão, e cumpria esta máxima que é tudo o que tenho colhido dahistória e da política, que aí dou por dois vinténs a todos os quegovernam o mundo: os adjetivos passam, e os substantivos ficam.

Machado de Assis. In: Gazeta de notícias (1881–1900). Balas de Estalo. Rio de Janeiro, 16/5/1885.

Julgue o item a seguir, relativo ao sentido de vocábulos e segmentos empregados no texto 6.

  1. 61.

    No texto 6, em “ao voltar uma esquina” (l.1), a forma verbal “voltar” tem o sentido de prosseguir por um novo rumo ou direção.

  2. 62.

    No texto 6, em “no último paquete” (l.5-6), o vocábulo “paquete” tem o sentido de conjunto de medidas relacionadas a um tema.

  3. 63.

    No texto 6, em “é querer perscrutar” (l.13), a forma verbal “perscrutar” tem o sentido de dar atenção a.

  4. 64.

    No texto 6, em “ao dar conosco” (l.26), o segmento “dar conosco” tem o sentido de presentear-nos.

  5. 65.

    No texto 6, em “resolvia de golpe” (l.42), a expressão “de golpe” tem o sentido de violentamente.

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