Língua Portuguesa — CACD 2007

CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 88 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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1 Há algo que une técnicos e humanistas. Ambos secrêem marcados por um fator distintivo, inerente a seuscérebros: o dom da inteligência, que os apartaria do4trabalhador manual ou mecânico. Gramsci percebe nessacrença um ranço ideológico da divisão do trabalho: “Em qualquer trabalho físico, até no mais mecânico e7degradado, existe um mínimo de qualificação técnica, ummínimo de atividade intelectual criadora. Todos os homens são intelectuais, pode-se dizer, mas10nem todos os homens têm na sociedade a função deintelectuais. Não se pode separar o Homo faber do Homosapiens.”13 O que distingue, portanto, a figura pública do homemda palavra é a rede peculiar de funções que os intelectuaiscostumam desempenhar no complexo das relações sociais.16 À medida que o técnico se quer cada vez mais técnico,restringindo-se a mero órgão do sistema, e à medida que ohumanista é deixado avulso do contexto, um e outro se irão19fechando em suas pseudototalidades. O seu conhecimentopolítico decairá. E o sistema, contentando-se com algunsprofissionais mais à mão, alijará dos centros de decisão a22maior parte dos intelectuais. Um Gramsci puramente historicista talvez não pudessedizer mais nada. Os fatos têm a sua razão, os intelectuais são25o que são, e ponto-final. Mas Gramsci foi um pensadorrevolucionário. Por isso, via uma possibilidade de projeto nointelectual moderno, que sucederia, nesse caso, o apóstolo e28o reformador de outrora.

Alfredo Bosi. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo: Ática, 1988, p. 242-3 (com adaptações).

Com base no texto acima, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 1.

    Segundo Gramsci, quanto mais complexa for a relação social, mais tênue será a distinção entre Homo faber e Homo sapiens.

  2. 2.

    De acordo com o Gramsci historicista, as funções desempenhadas pelos intelectuais na sociedade distinguem-nos dos trabalhadores manuais tanto quanto o dom da inteligência.

  3. 3.

    Na atividade intelectual, a competência política é mais relevante que a competência técnica do profissional.

  4. 4.

    A especialização pode comprometer a competência política tanto dos intelectuais quanto dos técnicos.

1 Há algo que une técnicos e humanistas. Ambos secrêem marcados por um fator distintivo, inerente a seuscérebros: o dom da inteligência, que os apartaria do4trabalhador manual ou mecânico. Gramsci percebe nessacrença um ranço ideológico da divisão do trabalho: “Em qualquer trabalho físico, até no mais mecânico e7degradado, existe um mínimo de qualificação técnica, ummínimo de atividade intelectual criadora. Todos os homens são intelectuais, pode-se dizer, mas10nem todos os homens têm na sociedade a função deintelectuais. Não se pode separar o Homo faber do Homosapiens.”13 O que distingue, portanto, a figura pública do homemda palavra é a rede peculiar de funções que os intelectuaiscostumam desempenhar no complexo das relações sociais.16 À medida que o técnico se quer cada vez mais técnico,restringindo-se a mero órgão do sistema, e à medida que ohumanista é deixado avulso do contexto, um e outro se irão19fechando em suas pseudototalidades. O seu conhecimentopolítico decairá. E o sistema, contentando-se com algunsprofissionais mais à mão, alijará dos centros de decisão a22maior parte dos intelectuais. Um Gramsci puramente historicista talvez não pudessedizer mais nada. Os fatos têm a sua razão, os intelectuais são25o que são, e ponto-final. Mas Gramsci foi um pensadorrevolucionário. Por isso, via uma possibilidade de projeto nointelectual moderno, que sucederia, nesse caso, o apóstolo e28o reformador de outrora.

Alfredo Bosi. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo: Ática, 1988, p. 242-3 (com adaptações).

Em cada um dos itens abaixo é apresentada, em relação a trechos do texto, uma alternativa de colocação pronominal. Com base na prescrição gramatical, julgue (C ou E) cada proposta apresentada.

  1. 5.

    “Ambos se crêem marcados” (l.1-2) / Ambos crêem-se marcados

  2. 6.

    ‘Não se pode separar’ (l.11) / Não pode-se separar

  3. 7.

    “um e outro se irão fechando” (l.18-19) / um e outro irão-se fechando

  4. 8.

    “que os apartaria” (l.3) / que apartá-los-ia

1 Há algo que une técnicos e humanistas. Ambos secrêem marcados por um fator distintivo, inerente a seuscérebros: o dom da inteligência, que os apartaria do4trabalhador manual ou mecânico. Gramsci percebe nessacrença um ranço ideológico da divisão do trabalho: “Em qualquer trabalho físico, até no mais mecânico e7degradado, existe um mínimo de qualificação técnica, ummínimo de atividade intelectual criadora. Todos os homens são intelectuais, pode-se dizer, mas10nem todos os homens têm na sociedade a função deintelectuais. Não se pode separar o Homo faber do Homosapiens.”13 O que distingue, portanto, a figura pública do homemda palavra é a rede peculiar de funções que os intelectuaiscostumam desempenhar no complexo das relações sociais.16 À medida que o técnico se quer cada vez mais técnico,restringindo-se a mero órgão do sistema, e à medida que ohumanista é deixado avulso do contexto, um e outro se irão19fechando em suas pseudototalidades. O seu conhecimentopolítico decairá. E o sistema, contentando-se com algunsprofissionais mais à mão, alijará dos centros de decisão a22maior parte dos intelectuais. Um Gramsci puramente historicista talvez não pudessedizer mais nada. Os fatos têm a sua razão, os intelectuais são25o que são, e ponto-final. Mas Gramsci foi um pensadorrevolucionário. Por isso, via uma possibilidade de projeto nointelectual moderno, que sucederia, nesse caso, o apóstolo e28o reformador de outrora.

Alfredo Bosi. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo: Ática, 1988, p. 242-3 (com adaptações).

Acerca de aspectos gramaticais e estilísticos do texto, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 9.

    A inserção do fragmento que é imediatamente antes da expressão “inerente a seus cérebros” (l.2-3), apesar de atender a preceito gramatical, não resultaria em estrutura mais adequada estilisticamente que a original, se considerado o contexto do período.

  2. 10.

    O período “Todos os (...) de intelectuais” (l.9-11) poderia, sem que se alterasse seu sentido original, ser corretamente reescrito da seguinte forma: Pode-se dizer que, apesar de não exercer sempre, na sociedade, a função de intelectual, todo o ser humano é intelectual.

  3. 11.

    O emprego de acento gráfico na forma verbal “crêem” (l.2) atende à mesma regra que determina a acentuação gráfica das seguintes formas verbais flexionadas no plural: têm, vêem, vêm e dêem.

  4. 12.

    A forma verbal “apartaria” (l.3) está flexionada no futuro do pretérito porque denota uma ação que compõe uma hipótese, uma suposição.

As três almas do poeta

1 Ênio, poeta latino do século II a. C., falava trêslínguas: o grego, que ele tinha aprendido por ser, na época, alíngua de cultura dominante no sul da Itália; o latim, em que4escreveu suas obras; e o osco (uma língua aparentada com olatim), que era, com toda a probabilidade, sua língua nativa.O mais provável é que o latim fosse usado nas relações com7as autoridades romanas; o grego, nas grandes cidades; e oosco, nas regiões rurais. E Ênio, que sabia as três, costumavadizer que tinha “três almas”.10 É curioso observar que ele exprimiu com isso umacoisa muito importante relativa ao conhecimento de umalíngua: não se trata simplesmente de “uma outra maneira de13dizer as coisas” (table em vez de mesa, te quiero em vez deeu te amo), mas de outra maneira de entender, de conceber,talvez mesmo de sentir o mundo.16 A idéia de que a diferença entre as línguas se resumeem maneiras distintas de se referir aos objetos do mundonatural pode ser chamada a “teoria ingênua” da relação entre19a língua e a realidade. E, como a maior parte das teoriasingênuas, é, ao mesmo tempo, simples, evidente e incorreta(não é óbvio que o Sol nasce no leste? Mas não é o Sol que22nasce, é a terra que gira). Examinemos um exemplo, quanto ao significado daspalavras nas línguas. Temos, em português, a palavra dedo,25que nos parece muito concreta; diríamos que é simplesmenteo nome que damos, em nossa língua, a um objeto que nos édado pelo mundo real: um dedo é uma coisa, ou seja, uma28parte definida do corpo, e o que pode variar é a maneira dedesignar essa coisa. No entanto, em inglês há duas palavraspara “dedo”: finger e toe, que não são a mesma coisa. Um31finger é um dedo da mão, e um toe é um dedo do pé; para nóssão todos dedos, mas para um inglês são coisas diferentes.Esse é um pequeno exemplo de como duas línguas recortam34diferentemente a realidade. Agora podemos ver que a palavraportuguesa dedo não é simplesmente a designação de umacoisa — porque, antes de designar essa coisa, a nossa língua37a definiu de certa maneira. Tanto é assim que o inglês fez umadefinição diferente, e precisou de duas palavras. O exemplodas distintas maneiras que as línguas têm de designar as cores40também é bastante ilustrativo disso. Falar uma língua é, portanto, ver o mundo de certamaneira, e falar três línguas é, até certo ponto, ter a43capacidade de ver o mundo de três maneiras diferentes.Talvez fosse isso que o velho Ênio estivesse tentando dizer,quando afirmou que tinha três almas.

Mário A. Perini. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios. São Paulo: Parábola Editorial, 2004, p. 41-52 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os próximos itens com relação aos sentidos do texto.

  1. 13.

    Segundo o autor do texto, a definição das coisas precede a designação delas por meio de signos lingüísticos.

  2. 14.

    A “teoria ingênua” da relação entre a língua e a realidade pressupõe que as línguas recortem a realidade, ou seja, categorizem-na, da mesma maneira.

  3. 15.

    O autor do texto alude ao fato de o poeta latino afirmar que tinha três almas — por falar três línguas — para comprovar que o domínio de língua estrangeira compromete a autenticidade do indivíduo.

  4. 16.

    Depreende-se do texto que há dúvidas quanto aos lugares e às circunstâncias em que cada uma das três línguas mencionadas era usada por seus falantes.

1 Há algo que une técnicos e humanistas. Ambos secrêem marcados por um fator distintivo, inerente a seuscérebros: o dom da inteligência, que os apartaria do4trabalhador manual ou mecânico. Gramsci percebe nessacrença um ranço ideológico da divisão do trabalho: “Em qualquer trabalho físico, até no mais mecânico e7degradado, existe um mínimo de qualificação técnica, ummínimo de atividade intelectual criadora. Todos os homens são intelectuais, pode-se dizer, mas10nem todos os homens têm na sociedade a função deintelectuais. Não se pode separar o Homo faber do Homosapiens.”13 O que distingue, portanto, a figura pública do homemda palavra é a rede peculiar de funções que os intelectuaiscostumam desempenhar no complexo das relações sociais.16 À medida que o técnico se quer cada vez mais técnico,restringindo-se a mero órgão do sistema, e à medida que ohumanista é deixado avulso do contexto, um e outro se irão19fechando em suas pseudototalidades. O seu conhecimentopolítico decairá. E o sistema, contentando-se com algunsprofissionais mais à mão, alijará dos centros de decisão a22maior parte dos intelectuais. Um Gramsci puramente historicista talvez não pudessedizer mais nada. Os fatos têm a sua razão, os intelectuais são25o que são, e ponto-final. Mas Gramsci foi um pensadorrevolucionário. Por isso, via uma possibilidade de projeto nointelectual moderno, que sucederia, nesse caso, o apóstolo e28o reformador de outrora.

Alfredo Bosi. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo: Ática, 1988, p. 242-3 (com adaptações).

Julgue se, no período a seguir, a relação lógica estabelecida traduz, de forma coerente, idéia apresentada no texto.

  1. 17.

    O sistema estabelecido afasta de tal forma parte dos intelectuais da tomada de decisão, que se restringe a recrutar somente técnicos mais disponíveis.

  2. 18.

    Porquanto técnicos e intelectuais creiam serem marcados por um fator distintivo, há algo que os discrimina.

  3. 19.

    À proporção que o trabalho manual se torna menos mecânico, mais degradado ele se torna.

  4. 20.

    Quando técnicos e intelectuais se isolam, há comprometimento de seu conhecimento político.

  5. 21.

    Embora fosse um historicista, Gramsci admitiu a possibilidade de projeto no intelectual moderno, que superaria a prevalência do técnico na sociedade.

Trechos adaptados de Alfredo Bosi. Op. cit., p. 243-4.

1 Frente à tradição hindu que há 2.500 anos divide asociedade indiana em mais de 2.000 castas, os 60 anos dosideais liberais de Gandhi e os 10 anos da legalização do4casamento entre castas revelam-se impotentes paratransformar a organização hierárquica da sociedade. Emconfronto direto com o costume milenar, o governo da Índia7oferece uma recompensa de R$ 2.400 para homens e mulheresde diferentes grupos sociais que formalizem sua união. O dinheiro equivale ao dobro da renda per capita10anual do país. O governo justifica que a medida é um passopara a reacomodação das desigualdades. Para grande parte dasociedade, é um passo no escuro.13 O governo — que já enfrenta protesto contra cotas emuniversidades — vê-se, agora, diante de um desafio maior.O esquema está sob ataque de todos os lados. Os16conservadores alegam que a medida é gatilho para o caossocial. Os liberais sustentam que poucos vão receber a ofertaporque o dinheiro vai desaparecer no bolso de autoridades19corruptas. Indianos de castas mais baixas dizem que rejeitariama recompensa, pois perderiam o acesso preferencial às22universidades, garantido pelas já controversas cotas. Hoje, ogoverno oferece 22,5% das vagas aos intocáveis, os últimosna hierarquia hindu, mas pretende aumentá-las para 50%.25 “Sei que esta não é a única maneira de pôr um fim àdiscriminação, mas é preciso começar de algum lugar”,defende a ministra da Justiça Social. Para a socióloga Radhika28Chopra, a oferta é uma forma de sinalizar que essescasamentos não devem ser condenados. “Com a medida, ogoverno apóia os indivíduos que transgrediram barreiras31sociais e mostra que podem funcionar como exemplos”,acrescenta a socióloga.

Jornal do Brasil, 17/12/2006 (com adaptações).

Julgue se a reescrita do segmento do texto proposta no item a seguir, em registro formal da linguagem e baseada exclusivamente nas informações apresentadas, imprimiria precisão ao texto original.

  1. 22.

    “Frente à tradição hindu que há 2.500 anos divide a sociedade indiana” (l.1-2) / Em face da tradição hindu, que dividiu há 2.500 anos atrás, a sociedade indiana.

  2. 23.

    “os últimos na hierarquia hindu” (l.23-24) / os pertencentes à mais baixa casta na hierarquia hindu.

  3. 24.

    “O esquema está sob ataque de todos os lados” (l.15) / A medida enfrenta opositores de todos os lados.

  4. 25.

    “oferece uma recompensa de R$ 2.400” (l.7) / assegura recompensa correspondente a 2.400 reais.

  5. 26.

    “para homens e mulheres de diferentes grupos sociais que formalizem sua união” (l.7-8) / a homens e mulheres que formalizem sua união com pessoa pertencente a casta distinta da sua.

1 A imaginação foi sempre o húmus do jardim de Clio.No caso da África, antes do século XVII, é particularmenteválido o definir-se a história como o adivinhar do passado.4Dele, abstraídas a Etiópia, a franja sudanesa infiltrada peloIslão e as cidades-estado do Índico, áreas que conheceram aescrita e nos deixaram alguns poucos documentos — poucos,7muitas vezes tardios e também contaminados por lendas —,sabemos apenas o que nos devolve uma arqueologia que malarranhou as imensas extensões africanas, o que anotaram, a10partir do século IX, viajantes e eruditos árabes e, mais tarde,os portugueses e outros europeus, bem como o que noschegou das tradições e das crônicas orais dos povos negros.13Se, nos textos em que se profetiza às avessas, ainda quefundados sobre o registro, o depoimento e a memória escrita,o rigor de quem os compõe não afasta de todo o mito e deixa16que ele freqüente a narrativa e nela se imiscua, é porque étambém importante contar, ao lado do que se julga terrealmente acontecido, as imaginações que se fizeram fatos e19os fatos que se vestiram de imaginário, porque seincorporaram ao que um povo tem por origem e rastro, e, porisso, o marcam, definem e distinguem. Oraniã, Xangô,22Tsoede, Cibinda Ilunga aparecem como personagens nestelivro de história porque pertencem iniludivelmente à realidadedos iorubas, dos nupês, e dos lundas e quiocos. Eles estão25aqui como Enéias e sua viagem de Tróia ao Lácio, e comoRéia Sílvia, a loba, Rômulo e Remo, nos compêndios sobreHistória romana, cujos autores os sabem mitos, mas não28ignoram que fecundaram um destino.

Alberto da Costa e Silva. A enxada e a lança: A África antes dos portugueses. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, p. 3-4.

Considerando os sentidos do texto acima, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 27.

    O vocábulo “abstraídas” (l.4) pode ser substituído por consideradas conjuntamente, sem que se altere o sentido do período.

  2. 28.

    Na linha 16, “se imiscua”, forma verbal no modo subjuntivo, tem o sentido de se intrometa.

  3. 29.

    A palavra “húmus” está empregada, na primeira oração do texto, com o sentido de praga. Do desdobramento dessa metáfora advém a idéia de que os documentos históricos africanos são “contaminados por lendas” (l.7).

  4. 30.

    A palavra “iniludivelmente” (l.23) significa, no texto, indubitavelmente.

1 A imaginação foi sempre o húmus do jardim de Clio.No caso da África, antes do século XVII, é particularmenteválido o definir-se a história como o adivinhar do passado.4Dele, abstraídas a Etiópia, a franja sudanesa infiltrada peloIslão e as cidades-estado do Índico, áreas que conheceram aescrita e nos deixaram alguns poucos documentos — poucos,7muitas vezes tardios e também contaminados por lendas —,sabemos apenas o que nos devolve uma arqueologia que malarranhou as imensas extensões africanas, o que anotaram, a10partir do século IX, viajantes e eruditos árabes e, mais tarde,os portugueses e outros europeus, bem como o que noschegou das tradições e das crônicas orais dos povos negros.13Se, nos textos em que se profetiza às avessas, ainda quefundados sobre o registro, o depoimento e a memória escrita,o rigor de quem os compõe não afasta de todo o mito e deixa16que ele freqüente a narrativa e nela se imiscua, é porque étambém importante contar, ao lado do que se julga terrealmente acontecido, as imaginações que se fizeram fatos e19os fatos que se vestiram de imaginário, porque seincorporaram ao que um povo tem por origem e rastro, e, porisso, o marcam, definem e distinguem. Oraniã, Xangô,22Tsoede, Cibinda Ilunga aparecem como personagens nestelivro de história porque pertencem iniludivelmente à realidadedos iorubas, dos nupês, e dos lundas e quiocos. Eles estão25aqui como Enéias e sua viagem de Tróia ao Lácio, e comoRéia Sílvia, a loba, Rômulo e Remo, nos compêndios sobreHistória romana, cujos autores os sabem mitos, mas não28ignoram que fecundaram um destino.

Alberto da Costa e Silva. A enxada e a lança: A África antes dos portugueses. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, p. 3-4.

Com base, exclusivamente, no texto, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 31.

    A historiografia referente à África de antes do século XVII vale-se de fontes como crônicas orais autóctones e relatos de viajantes provenientes de outros continentes.

  2. 32.

    O autor do texto procura transmitir a seguinte mensagem: o historiador deve ignorar as narrativas mitológicas em benefício da objetividade e da precisão de suas pesquisas.

  3. 33.

    Na alusão a “textos em que se profetiza às avessas” (l.13), o autor refere-se à transcrição de mitos transmitidos oralmente pelos povos negros.

  4. 34.

    Conclui-se do texto que “Tsoede” e “Cibinda Ilunga”, citados na linha 22, são importantes figuras históricas pertencentes, respectivamente, aos povos lunda e quioco.

As três almas do poeta

1 Ênio, poeta latino do século II a. C., falava trêslínguas: o grego, que ele tinha aprendido por ser, na época, alíngua de cultura dominante no sul da Itália; o latim, em que4escreveu suas obras; e o osco (uma língua aparentada com olatim), que era, com toda a probabilidade, sua língua nativa.O mais provável é que o latim fosse usado nas relações com7as autoridades romanas; o grego, nas grandes cidades; e oosco, nas regiões rurais. E Ênio, que sabia as três, costumavadizer que tinha “três almas”.10 É curioso observar que ele exprimiu com isso umacoisa muito importante relativa ao conhecimento de umalíngua: não se trata simplesmente de “uma outra maneira de13dizer as coisas” (table em vez de mesa, te quiero em vez deeu te amo), mas de outra maneira de entender, de conceber,talvez mesmo de sentir o mundo.16 A idéia de que a diferença entre as línguas se resumeem maneiras distintas de se referir aos objetos do mundonatural pode ser chamada a “teoria ingênua” da relação entre19a língua e a realidade. E, como a maior parte das teoriasingênuas, é, ao mesmo tempo, simples, evidente e incorreta(não é óbvio que o Sol nasce no leste? Mas não é o Sol que22nasce, é a terra que gira). Examinemos um exemplo, quanto ao significado daspalavras nas línguas. Temos, em português, a palavra dedo,25que nos parece muito concreta; diríamos que é simplesmenteo nome que damos, em nossa língua, a um objeto que nos édado pelo mundo real: um dedo é uma coisa, ou seja, uma28parte definida do corpo, e o que pode variar é a maneira dedesignar essa coisa. No entanto, em inglês há duas palavraspara “dedo”: finger e toe, que não são a mesma coisa. Um31finger é um dedo da mão, e um toe é um dedo do pé; para nóssão todos dedos, mas para um inglês são coisas diferentes.Esse é um pequeno exemplo de como duas línguas recortam34diferentemente a realidade. Agora podemos ver que a palavraportuguesa dedo não é simplesmente a designação de umacoisa — porque, antes de designar essa coisa, a nossa língua37a definiu de certa maneira. Tanto é assim que o inglês fez umadefinição diferente, e precisou de duas palavras. O exemplodas distintas maneiras que as línguas têm de designar as cores40também é bastante ilustrativo disso. Falar uma língua é, portanto, ver o mundo de certamaneira, e falar três línguas é, até certo ponto, ter a43capacidade de ver o mundo de três maneiras diferentes.Talvez fosse isso que o velho Ênio estivesse tentando dizer,quando afirmou que tinha três almas.

Mário A. Perini. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios. São Paulo: Parábola Editorial, 2004, p. 41-52 (com adaptações).

Acerca de fatos lingüísticos do primeiro parágrafo do texto, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 35.

    No trecho “O mais provável é que o latim fosse usado nas relações com as autoridades romanas; o grego, nas grandes cidades; e o osco, nas regiões rurais” (l.6-8), utiliza-se uma forma de elipse, por meio da qual se evitam repetições.

  2. 36.

    Na oração “por ser, na época, a língua de cultura dominante no sul da Itália” (l.2-3), pode-se substituir “de” por da sem prejuízo para o sentido original do texto.

  3. 37.

    Há, no primeiro parágrafo, quatro orações subordinadas de natureza explicativa.

  4. 38.

    No primeiro parágrafo, há mais de um aposto.

Trechos adaptados de Alfredo Bosi. Op. cit., p. 243-4.

1 Frente à tradição hindu que há 2.500 anos divide asociedade indiana em mais de 2.000 castas, os 60 anos dosideais liberais de Gandhi e os 10 anos da legalização do4casamento entre castas revelam-se impotentes paratransformar a organização hierárquica da sociedade. Emconfronto direto com o costume milenar, o governo da Índia7oferece uma recompensa de R$ 2.400 para homens e mulheresde diferentes grupos sociais que formalizem sua união. O dinheiro equivale ao dobro da renda per capita10anual do país. O governo justifica que a medida é um passopara a reacomodação das desigualdades. Para grande parte dasociedade, é um passo no escuro.13 O governo — que já enfrenta protesto contra cotas emuniversidades — vê-se, agora, diante de um desafio maior.O esquema está sob ataque de todos os lados. Os16conservadores alegam que a medida é gatilho para o caossocial. Os liberais sustentam que poucos vão receber a ofertaporque o dinheiro vai desaparecer no bolso de autoridades19corruptas. Indianos de castas mais baixas dizem que rejeitariama recompensa, pois perderiam o acesso preferencial às22universidades, garantido pelas já controversas cotas. Hoje, ogoverno oferece 22,5% das vagas aos intocáveis, os últimosna hierarquia hindu, mas pretende aumentá-las para 50%.25 “Sei que esta não é a única maneira de pôr um fim àdiscriminação, mas é preciso começar de algum lugar”,defende a ministra da Justiça Social. Para a socióloga Radhika28Chopra, a oferta é uma forma de sinalizar que essescasamentos não devem ser condenados. “Com a medida, ogoverno apóia os indivíduos que transgrediram barreiras31sociais e mostra que podem funcionar como exemplos”,acrescenta a socióloga.

Jornal do Brasil, 17/12/2006 (com adaptações).

No que se refere a funções da linguagem, julgue o item a seguir, relativo ao texto.

  1. 39.

    No texto, predomina a função conativa, visto que as opiniões expressas estão devidamente referenciadas, não havendo, portanto, perda de objetividade na transmissão das informações.

  2. 40.

    No texto, predomina a função referencial, dado que a ênfase recai nas informações a respeito de determinado assunto.

  3. 41.

    No texto, predomina a função metalingüística, haja vista o foco em aspectos intertextuais, como demonstram as diversas vozes que acompanham a informação divulgada.

  4. 42.

    No texto, predomina a função fática, visto que o autor do texto busca, de forma sutil, convencer os leitores dos benefícios do projeto que visa incentivar o casamento entre pessoas pertencentes a castas diferentes.

  5. 43.

    No texto, predomina a função emotiva, dado que são as falas das autoridades entrevistadas que direcionam a forma como as informações são apresentadas.

As três almas do poeta

1 Ênio, poeta latino do século II a. C., falava trêslínguas: o grego, que ele tinha aprendido por ser, na época, alíngua de cultura dominante no sul da Itália; o latim, em que4escreveu suas obras; e o osco (uma língua aparentada com olatim), que era, com toda a probabilidade, sua língua nativa.O mais provável é que o latim fosse usado nas relações com7as autoridades romanas; o grego, nas grandes cidades; e oosco, nas regiões rurais. E Ênio, que sabia as três, costumavadizer que tinha “três almas”.10 É curioso observar que ele exprimiu com isso umacoisa muito importante relativa ao conhecimento de umalíngua: não se trata simplesmente de “uma outra maneira de13dizer as coisas” (table em vez de mesa, te quiero em vez deeu te amo), mas de outra maneira de entender, de conceber,talvez mesmo de sentir o mundo.16 A idéia de que a diferença entre as línguas se resumeem maneiras distintas de se referir aos objetos do mundonatural pode ser chamada a “teoria ingênua” da relação entre19a língua e a realidade. E, como a maior parte das teoriasingênuas, é, ao mesmo tempo, simples, evidente e incorreta(não é óbvio que o Sol nasce no leste? Mas não é o Sol que22nasce, é a terra que gira). Examinemos um exemplo, quanto ao significado daspalavras nas línguas. Temos, em português, a palavra dedo,25que nos parece muito concreta; diríamos que é simplesmenteo nome que damos, em nossa língua, a um objeto que nos édado pelo mundo real: um dedo é uma coisa, ou seja, uma28parte definida do corpo, e o que pode variar é a maneira dedesignar essa coisa. No entanto, em inglês há duas palavraspara “dedo”: finger e toe, que não são a mesma coisa. Um31finger é um dedo da mão, e um toe é um dedo do pé; para nóssão todos dedos, mas para um inglês são coisas diferentes.Esse é um pequeno exemplo de como duas línguas recortam34diferentemente a realidade. Agora podemos ver que a palavraportuguesa dedo não é simplesmente a designação de umacoisa — porque, antes de designar essa coisa, a nossa língua37a definiu de certa maneira. Tanto é assim que o inglês fez umadefinição diferente, e precisou de duas palavras. O exemplodas distintas maneiras que as línguas têm de designar as cores40também é bastante ilustrativo disso. Falar uma língua é, portanto, ver o mundo de certamaneira, e falar três línguas é, até certo ponto, ter a43capacidade de ver o mundo de três maneiras diferentes.Talvez fosse isso que o velho Ênio estivesse tentando dizer,quando afirmou que tinha três almas.

Mário A. Perini. A língua do Brasil amanhã e outros mistérios. São Paulo: Parábola Editorial, 2004, p. 41-52 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens subseqüentes, considerando a articulação de elementos textuais, bem como aspectos semânticos e morfossintáticos do texto.

  1. 44.

    No trecho “mas de outra maneira de entender, de conceber, talvez mesmo de sentir o mundo” (l.14-15), observa-se a ocorrência de um único termo como complemento de três verbos.

  2. 45.

    A substituição de “Tanto é assim que” (l.37) por Tanto que prejudicaria o sentido do período em que tal expressão se insere.

  3. 46.

    O vocábulo “simplesmente” é empregado com o mesmo sentido nas linhas 12, 25 e 35 do texto.

  4. 47.

    A posposição de “certa” na expressão “certa maneira” (l.37) prejudicaria a coerência do texto.

Os itens desta questão formam, em seu conjunto, um texto. Julgue se o trecho a seguir está corretamente pontuado.

  1. 48.

    Ora, tanto os técnicos, quanto os humanistas postam-se aquém dessa relação, pois, é nos pólos isolados da estrutura ou do sujeito, que recai a ênfase da sua vida mental. Mas, como é possível propor a relação vontade-estrutura? Gramsci antecipa a tendência atual de acentuar o caráter, próprio da política em face da economia.

  2. 49.

    Para Gramsci, a vontade é, não só a condição de existência da política mas, um movimento para edificar o homem livre, não se forma sem a consciência das necessidades materiais do homem oprimido. Essa consciência das necessidades é o aguilhão que faz o militante comunista, Antonio Gramsci, opor-se ao pensador liberal, Benedetto Croce.

  3. 50.

    Segundo Gramsci, as várias ciências “humanas” fundadas no século XIX, como a sociologia e a psicologia seriam filosofia de não-filósofos, misturas de observação empírica e racionalizações burguesas; logo, ideologia fatalista com ares de neutralidade. O intelectual que as professa não teria via de regra, condições mentais para viver o nexo entre vontade e estrutura.

  4. 51.

    Paradoxalmente, esse modo de pensar Gramsci o recebeu do seu maior adversário, Benedetto Croce que sustentou a distinção da esfera ético-prática, dando-lhe, como princípio formal a vontade. Para Croce, a vontade seria um grau consciente do nível econômico.

  5. 52.

    O intelectual que ignora o tecido de vínculo e violência com que se amarram as classes sociais não poderá atingir o limiar da “consciência da necessidade”, que é, por sua vez, condição para que se produza uma vontade de agir sobre as estruturas. É preciso que ele se encaminhe para uma teoria rigorosa, sem a qual os seus ímpetos de demolir estruturas poderão ser truncados pela tecnologia míope ou diluídos pelo humanismo retórico.

1 A imaginação foi sempre o húmus do jardim de Clio.No caso da África, antes do século XVII, é particularmenteválido o definir-se a história como o adivinhar do passado.4Dele, abstraídas a Etiópia, a franja sudanesa infiltrada peloIslão e as cidades-estado do Índico, áreas que conheceram aescrita e nos deixaram alguns poucos documentos — poucos,7muitas vezes tardios e também contaminados por lendas —,sabemos apenas o que nos devolve uma arqueologia que malarranhou as imensas extensões africanas, o que anotaram, a10partir do século IX, viajantes e eruditos árabes e, mais tarde,os portugueses e outros europeus, bem como o que noschegou das tradições e das crônicas orais dos povos negros.13Se, nos textos em que se profetiza às avessas, ainda quefundados sobre o registro, o depoimento e a memória escrita,o rigor de quem os compõe não afasta de todo o mito e deixa16que ele freqüente a narrativa e nela se imiscua, é porque étambém importante contar, ao lado do que se julga terrealmente acontecido, as imaginações que se fizeram fatos e19os fatos que se vestiram de imaginário, porque seincorporaram ao que um povo tem por origem e rastro, e, porisso, o marcam, definem e distinguem. Oraniã, Xangô,22Tsoede, Cibinda Ilunga aparecem como personagens nestelivro de história porque pertencem iniludivelmente à realidadedos iorubas, dos nupês, e dos lundas e quiocos. Eles estão25aqui como Enéias e sua viagem de Tróia ao Lácio, e comoRéia Sílvia, a loba, Rômulo e Remo, nos compêndios sobreHistória romana, cujos autores os sabem mitos, mas não28ignoram que fecundaram um destino.

Alberto da Costa e Silva. A enxada e a lança: A África antes dos portugueses. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, p. 3-4.

Considerando os sentidos e os aspectos morfossintáticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 53.

    A expressão “neste livro de história” (l.22-23) designa o livro do qual se extraiu o texto.

  2. 54.

    O complemento da forma verbal “sabemos” (l.8) tem mais de um núcleo.

  3. 55.

    Na linha 3, a supressão simultânea dos artigos definidos que antecedem “definir-se” e “adivinhar” não prejudicaria a correção gramatical do período.

  4. 56.

    Nas linhas 27 e 28, as orações em que se inserem as formas verbais “ignoram” e “fecundaram” têm o mesmo sujeito.

Trechos adaptados de Alfredo Bosi. Op. cit., p. 243-4.

1 Frente à tradição hindu que há 2.500 anos divide asociedade indiana em mais de 2.000 castas, os 60 anos dosideais liberais de Gandhi e os 10 anos da legalização do4casamento entre castas revelam-se impotentes paratransformar a organização hierárquica da sociedade. Emconfronto direto com o costume milenar, o governo da Índia7oferece uma recompensa de R$ 2.400 para homens e mulheresde diferentes grupos sociais que formalizem sua união. O dinheiro equivale ao dobro da renda per capita10anual do país. O governo justifica que a medida é um passopara a reacomodação das desigualdades. Para grande parte dasociedade, é um passo no escuro.13 O governo — que já enfrenta protesto contra cotas emuniversidades — vê-se, agora, diante de um desafio maior.O esquema está sob ataque de todos os lados. Os16conservadores alegam que a medida é gatilho para o caossocial. Os liberais sustentam que poucos vão receber a ofertaporque o dinheiro vai desaparecer no bolso de autoridades19corruptas. Indianos de castas mais baixas dizem que rejeitariama recompensa, pois perderiam o acesso preferencial às22universidades, garantido pelas já controversas cotas. Hoje, ogoverno oferece 22,5% das vagas aos intocáveis, os últimosna hierarquia hindu, mas pretende aumentá-las para 50%.25 “Sei que esta não é a única maneira de pôr um fim àdiscriminação, mas é preciso começar de algum lugar”,defende a ministra da Justiça Social. Para a socióloga Radhika28Chopra, a oferta é uma forma de sinalizar que essescasamentos não devem ser condenados. “Com a medida, ogoverno apóia os indivíduos que transgrediram barreiras31sociais e mostra que podem funcionar como exemplos”,acrescenta a socióloga.

Jornal do Brasil, 17/12/2006 (com adaptações).

Com base no texto, julgue o item a seguir.

  1. 57.

    É correto concluir do texto que a recompensa estabelecida na Índia para casamentos entre indivíduos pertencentes a castas diferentes é um benefício que não contempla casamentos realizados anteriormente à vigência da lei.

  2. 58.

    Apesar de, na Índia, a organização social em castas ter ruído há mais de uma década, os comportamentos sociais pouco se alteraram.

  3. 59.

    Algumas pessoas indianas de castas mais baixas não se casam com as de castas mais altas para não perderem direito de acesso automático à universidade.

  4. 60.

    Na Índia, a recompensa estabelecida para casamentos entre pessoas pertencentes a castas diferentes é abonada pelos intelectuais hindus, especialmente pelos sociólogos.

  5. 61.

    O tema principal que se depreende da notícia veiculada é a dificuldade de superação de valores sociais em sociedade marcadamente tradicionalista e rigorosamente hierarquizada.

1 Desde o primeiro contato Jadon admitiu a precariedadedas suas relações com os companheiros de refeitório. E aatitude de permanente alheamento que assumiam na sua4presença, ele a recebeu como possível advertência à condutaque deveria manter no seio daquela comunidade. Semmanifestar irritação ante o isolamento a que o constrangiam,7conjecturava se eles não acabariam por se tornar maisexpansivos. Era-lhe penoso, entretanto, encontrá-los sempre na10mesma posição, a aparentar indiferença pela comida que lhesserviam e por tudo que se passava ao redor. Enquanto Jadonalmoçava, permaneciam quietos, os braços caídos, os olhos13baixos. Ao jantar, lá estavam nos mesmos lugares, diante dascompridas mesas espalhadas pelo salão. Assentavam-se emgrupos de vinte, deixando livres as cabeceiras. Menos uma,16justamente a da mesa central, onde ficava um velho alto epálido. Este, a exemplo dos demais, nada comia, mantendo-senuma postura de rígida abstração, como a exigir que19respeitassem o seu recolhimento. Malgrado a sua recusa em sealimentar, silenciosos criados substituíam continuamente ospratos ainda cheios.22 A princípio Jadon espreitava-os discretamente, naesperança de surpreendê-los trocando olhares ou segredos entresi. Logo verificou a inutilidade do seu propósito: jamais25desviavam os olhos da toalha e prosseguiam com os lábioscerrados. Experimentou o recurso de dirigir-se bruscamente aosvizinhos, e desapontou-se por não conseguir despertar-lhes a28atenção. Mantinham-se impassíveis, mesmo quando as fraseseram ásperas ou acompanhadas de gritos. Após essa experiência, seguiu-se um período em que31Jadon desistiu de penetrar na intimidade daqueles cavalheirostaciturnos que, apesar de manifestarem evidente desinteressepelos alimentos, apresentavam-se saudáveis e tranqüilos. Esta34observação seria o suficiente para convencê-lo de que oscomensais evitavam comer somente durante a sua permanênciano recinto. Por certo aguardavam sua saída para se atirarem37avidamente às especialidades da casa. Nesse momento talvez seestendessem em alegres diálogos, aos quais não faltariamdesprimorosas alusões à sua pessoa, cuja presença deveria ser40bastante desagradável para todos.

Murilo Rubião. O convidado: contos. São Paulo: Ática, 1988, p. 89-90 (com adaptações).

Julgue o item a seguir, relativo a sinônimos contextuais de termos do texto.

  1. 62.

    No texto, “constrangiam” (l.6) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por compeliam.

  2. 63.

    No texto, “desprimorosas” (l.39) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por indelicadas.

  3. 64.

    No texto, “taciturnos” (l.32) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por calados.

  4. 65.

    No texto, “Malgrado” (l.19) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por inconveniente.

  5. 66.

    No texto, “espreitava” (l.22) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por espiava.

1 A maior contribuição da América Latina para a culturaocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidadee pureza*: esses dois conceitos perdem o contorno exato do seu4significado, perdem seu peso esmagador, seu sinal de superioridadecultural, à medida que o trabalho de contaminação doslatino-americanos se afirma, se mostra mais e mais eficaz.7A América Latina institui seu lugar no mapa da civilizaçãoocidental graças ao movimento de desvio da norma, ativo edestruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os10europeus exportavam para o Novo Mundo. Em virtude do fato deque a América Latina não pode mais fechar suas portas à invasãoestrangeira nem reencontrar sua condição de paraíso, de isolamento13e inocência, constata-se com cinismo que, sem essa contribuição,seu produto seria mera cópia — silêncio —, uma cópia muitasvezes fora de moda. Sua geografia deve ser uma geografia de16assimilação e de agressividade, de aprendizagem e de reação, defalsa obediência. A passividade reduziria seu papel efetivo aodesaparecimento por analogia. Guardando seu lugar na segunda19fila, é, no entanto, preciso que assinale sua diferença, marque suapresença, uma presença muitas vezes de vanguarda. O silêncio seriaa resposta desejada pelo imperialismo cultural, ou ainda o eco22sonoro que apenas serve para apertar mais os laços do poderconquistador.

* Em artigo de significativo título, Sol da Meia-Noite, Oswald de Andrade percebia,

por detrás da Alemanha nazista, os valores de unidade e pureza e, no seu estilo típico, comentava com rara felicidade: “A Alemanha racista, purista e recordista precisa ser educada pelo nosso mulato, pelo chinês, pelo índio mais atrasado do Peru ou do México, pelo africano do Sudão. E precisa ser misturada de uma vez para sempre. Precisa ser desfeita no melting-pot do futuro. Precisa mulatizar-se.” (Ponta de Lança, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972, p. 62.)

Silviano Santiago. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1978. p. 18-9 (com adaptações).

Considerando os sentidos e os aspectos morfossintáticos do texto acima, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 67.

    O emprego de itálico em “paraíso” (l.12) realça o sentido objetivo desse vocábulo.

  2. 68.

    A substituição da expressão “à medida que” (l.5) por na medida que não implicaria prejuízo para o conteúdo semântico ou a correção gramatical do texto.

  3. 69.

    Na linha 6, a partícula “se” que antecede a forma verbal “afirma” é índice de indeterminação do sujeito.

  4. 70.

    Nos termos “seu produto” (l.14) e “Sua geografia” (l.15), os pronomes possessivos remetem ao mesmo referente.

1 A maior contribuição da América Latina para a culturaocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidadee pureza*: esses dois conceitos perdem o contorno exato do seu4significado, perdem seu peso esmagador, seu sinal de superioridadecultural, à medida que o trabalho de contaminação doslatino-americanos se afirma, se mostra mais e mais eficaz.7A América Latina institui seu lugar no mapa da civilizaçãoocidental graças ao movimento de desvio da norma, ativo edestruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os10europeus exportavam para o Novo Mundo. Em virtude do fato deque a América Latina não pode mais fechar suas portas à invasãoestrangeira nem reencontrar sua condição de paraíso, de isolamento13e inocência, constata-se com cinismo que, sem essa contribuição,seu produto seria mera cópia — silêncio —, uma cópia muitasvezes fora de moda. Sua geografia deve ser uma geografia de16assimilação e de agressividade, de aprendizagem e de reação, defalsa obediência. A passividade reduziria seu papel efetivo aodesaparecimento por analogia. Guardando seu lugar na segunda19fila, é, no entanto, preciso que assinale sua diferença, marque suapresença, uma presença muitas vezes de vanguarda. O silêncio seriaa resposta desejada pelo imperialismo cultural, ou ainda o eco22sonoro que apenas serve para apertar mais os laços do poderconquistador.

* Em artigo de significativo título, Sol da Meia-Noite, Oswald de Andrade percebia,

por detrás da Alemanha nazista, os valores de unidade e pureza e, no seu estilo típico, comentava com rara felicidade: “A Alemanha racista, purista e recordista precisa ser educada pelo nosso mulato, pelo chinês, pelo índio mais atrasado do Peru ou do México, pelo africano do Sudão. E precisa ser misturada de uma vez para sempre. Precisa ser desfeita no melting-pot do futuro. Precisa mulatizar-se.” (Ponta de Lança, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972, p. 62.)

Silviano Santiago. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1978. p. 18-9 (com adaptações).

Julgue o item a seguir, quanto à interpretação do texto.

  1. 71.

    A verdadeira vocação da cultura latino-americana é a de reencontrar a inocência que prevalecia antes da invasão estrangeira.

  2. 72.

    Ao incorporar elementos da cultura européia, a América Latina os altera e os transfigura.

  3. 73.

    A produção cultural da América Latina, dado o seu alto nível, assemelha-se progressivamente à da Europa, tornando-se impossível a distinção entre uma e outra.

  4. 74.

    A cultura da América Latina deve ser impermeável aos valores da cultura dominante.

  5. 75.

    A assimilação dos elementos da cultura dominante deve implicar a reação contra a pureza indígena latino-americana.

1 Desde o primeiro contato Jadon admitiu a precariedadedas suas relações com os companheiros de refeitório. E aatitude de permanente alheamento que assumiam na sua4presença, ele a recebeu como possível advertência à condutaque deveria manter no seio daquela comunidade. Semmanifestar irritação ante o isolamento a que o constrangiam,7conjecturava se eles não acabariam por se tornar maisexpansivos. Era-lhe penoso, entretanto, encontrá-los sempre na10mesma posição, a aparentar indiferença pela comida que lhesserviam e por tudo que se passava ao redor. Enquanto Jadonalmoçava, permaneciam quietos, os braços caídos, os olhos13baixos. Ao jantar, lá estavam nos mesmos lugares, diante dascompridas mesas espalhadas pelo salão. Assentavam-se emgrupos de vinte, deixando livres as cabeceiras. Menos uma,16justamente a da mesa central, onde ficava um velho alto epálido. Este, a exemplo dos demais, nada comia, mantendo-senuma postura de rígida abstração, como a exigir que19respeitassem o seu recolhimento. Malgrado a sua recusa em sealimentar, silenciosos criados substituíam continuamente ospratos ainda cheios.22 A princípio Jadon espreitava-os discretamente, naesperança de surpreendê-los trocando olhares ou segredos entresi. Logo verificou a inutilidade do seu propósito: jamais25desviavam os olhos da toalha e prosseguiam com os lábioscerrados. Experimentou o recurso de dirigir-se bruscamente aosvizinhos, e desapontou-se por não conseguir despertar-lhes a28atenção. Mantinham-se impassíveis, mesmo quando as fraseseram ásperas ou acompanhadas de gritos. Após essa experiência, seguiu-se um período em que31Jadon desistiu de penetrar na intimidade daqueles cavalheirostaciturnos que, apesar de manifestarem evidente desinteressepelos alimentos, apresentavam-se saudáveis e tranqüilos. Esta34observação seria o suficiente para convencê-lo de que oscomensais evitavam comer somente durante a sua permanênciano recinto. Por certo aguardavam sua saída para se atirarem37avidamente às especialidades da casa. Nesse momento talvez seestendessem em alegres diálogos, aos quais não faltariamdesprimorosas alusões à sua pessoa, cuja presença deveria ser40bastante desagradável para todos.

Murilo Rubião. O convidado: contos. São Paulo: Ática, 1988, p. 89-90 (com adaptações).

Considerando os sentidos do texto, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 76.

    A relação entre Jadon e seus companheiros de refeitório era de mútua indiferença.

  2. 77.

    O silêncio no refeitório foi mantido durante o período a que corresponde o relato.

  3. 78.

    No trecho reproduzido, o narrador revela as conjecturas de Jadon, mas não as dos demais personagens.

  4. 79.

    Ao longo da narrativa, percebem-se mudanças na atitude de um dos personagens.

1 Desde o primeiro contato Jadon admitiu a precariedadedas suas relações com os companheiros de refeitório. E aatitude de permanente alheamento que assumiam na sua4presença, ele a recebeu como possível advertência à condutaque deveria manter no seio daquela comunidade. Semmanifestar irritação ante o isolamento a que o constrangiam,7conjecturava se eles não acabariam por se tornar maisexpansivos. Era-lhe penoso, entretanto, encontrá-los sempre na10mesma posição, a aparentar indiferença pela comida que lhesserviam e por tudo que se passava ao redor. Enquanto Jadonalmoçava, permaneciam quietos, os braços caídos, os olhos13baixos. Ao jantar, lá estavam nos mesmos lugares, diante dascompridas mesas espalhadas pelo salão. Assentavam-se emgrupos de vinte, deixando livres as cabeceiras. Menos uma,16justamente a da mesa central, onde ficava um velho alto epálido. Este, a exemplo dos demais, nada comia, mantendo-senuma postura de rígida abstração, como a exigir que19respeitassem o seu recolhimento. Malgrado a sua recusa em sealimentar, silenciosos criados substituíam continuamente ospratos ainda cheios.22 A princípio Jadon espreitava-os discretamente, naesperança de surpreendê-los trocando olhares ou segredos entresi. Logo verificou a inutilidade do seu propósito: jamais25desviavam os olhos da toalha e prosseguiam com os lábioscerrados. Experimentou o recurso de dirigir-se bruscamente aosvizinhos, e desapontou-se por não conseguir despertar-lhes a28atenção. Mantinham-se impassíveis, mesmo quando as fraseseram ásperas ou acompanhadas de gritos. Após essa experiência, seguiu-se um período em que31Jadon desistiu de penetrar na intimidade daqueles cavalheirostaciturnos que, apesar de manifestarem evidente desinteressepelos alimentos, apresentavam-se saudáveis e tranqüilos. Esta34observação seria o suficiente para convencê-lo de que oscomensais evitavam comer somente durante a sua permanênciano recinto. Por certo aguardavam sua saída para se atirarem37avidamente às especialidades da casa. Nesse momento talvez seestendessem em alegres diálogos, aos quais não faltariamdesprimorosas alusões à sua pessoa, cuja presença deveria ser40bastante desagradável para todos.

Murilo Rubião. O convidado: contos. São Paulo: Ática, 1988, p. 89-90 (com adaptações).

O item a seguir reproduz período do texto com a pontuação alterada. Julgue se o emprego da vírgula está de acordo com a norma gramatical.

  1. 80.

    Nesse momento, talvez se estendessem em alegres diálogos, aos quais não faltariam desprimorosas alusões à sua pessoa, cuja presença deveria ser bastante desagradável para todos.

  2. 81.

    Sem manifestar irritação ante o isolamento a que o constrangiam, conjecturava se eles não acabariam, por se tornar mais expansivos.

  3. 82.

    Por certo, aguardaram sua saída para se atirarem, avidamente, às especialidades da casa.

  4. 83.

    A princípio, Jadon espreitava-os discretamente, na esperança de surpreendê-los trocando olhares ou segredos entre si.

  5. 84.

    Desde o primeiro contato, Jadon admitiu a precariedade das suas relações com os companheiros de refeitório.

1 A maior contribuição da América Latina para a culturaocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidadee pureza*: esses dois conceitos perdem o contorno exato do seu4significado, perdem seu peso esmagador, seu sinal de superioridadecultural, à medida que o trabalho de contaminação doslatino-americanos se afirma, se mostra mais e mais eficaz.7A América Latina institui seu lugar no mapa da civilizaçãoocidental graças ao movimento de desvio da norma, ativo edestruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os10europeus exportavam para o Novo Mundo. Em virtude do fato deque a América Latina não pode mais fechar suas portas à invasãoestrangeira nem reencontrar sua condição de paraíso, de isolamento13e inocência, constata-se com cinismo que, sem essa contribuição,seu produto seria mera cópia — silêncio —, uma cópia muitasvezes fora de moda. Sua geografia deve ser uma geografia de16assimilação e de agressividade, de aprendizagem e de reação, defalsa obediência. A passividade reduziria seu papel efetivo aodesaparecimento por analogia. Guardando seu lugar na segunda19fila, é, no entanto, preciso que assinale sua diferença, marque suapresença, uma presença muitas vezes de vanguarda. O silêncio seriaa resposta desejada pelo imperialismo cultural, ou ainda o eco22sonoro que apenas serve para apertar mais os laços do poderconquistador.

* Em artigo de significativo título, Sol da Meia-Noite, Oswald de Andrade percebia,

por detrás da Alemanha nazista, os valores de unidade e pureza e, no seu estilo típico, comentava com rara felicidade: “A Alemanha racista, purista e recordista precisa ser educada pelo nosso mulato, pelo chinês, pelo índio mais atrasado do Peru ou do México, pelo africano do Sudão. E precisa ser misturada de uma vez para sempre. Precisa ser desfeita no melting-pot do futuro. Precisa mulatizar-se.” (Ponta de Lança, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972, p. 62.)

Silviano Santiago. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1978. p. 18-9 (com adaptações).

Com relação ao texto, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 85.

    No período “Sua geografia deve ser uma geografia de assimilação e de agressividade, de aprendizagem e de reação, de falsa obediência” (l.15-17), a palavra “geografia” deve ser entendida como estudo do espaço físico, pois se relaciona com a idéia de “lugar no mapa da civilização ocidental” (l.7-8).

  2. 86.

    O trecho citado na nota do texto revela que Oswald de Andrade considerava benéfica a miscigenação.

  3. 87.

    Depreende-se do texto que a tradição cultural do Ocidente valoriza positivamente os conceitos de “unidade” e “pureza”.

  4. 88.

    O termo “o eco sonoro” (l.21-22) retoma a idéia anteriormente expressa em “mera cópia” (l.14).

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