Língua Portuguesa — CACD 2023

IADES · CACD – 1ª fase (TPS) · 44 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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Por uma reescrita da história literária brasileira 1  Não é possível falarmos acerca da elaboração de uma nova história da literatura brasileira e da inserção das escritoras mulheres nessa história sem antes entendermos 4 como se dá o processo de construção das histórias e do cânone literários. O historiador também tem o poder de legitimar o escritor e a literatura, pela inclusão e abertura 7 de espaço para análise e consideração de sua obra literária. O contrário também é possível, pois, ao excluir escritores, acaba silenciando uma produção que gradualmente vai 10 sendo esquecida, como foi o caso das escritoras oitocentistas.  De acordo com David Perkins, uma história da 13 literatura se constrói por meio de um enredo, que é o discurso feito a respeito de determinada produção. Assim, os historiadores da literatura podem condenar escritores e 16 obras, podem defender estilos não apreciados e podem, também, ser motivados por um conjunto de emoções diferentes: “qualquer que seja o enredo imposto aos 19 eventos, o simples fato de serem organizados em forma de narrativa pode, ele mesmo, preencher o desejo.” Tendo em vista a consciência do desejo que motiva e dá vida a uma 22 memória literária, a questão é: até que ponto a intenção organizadora subjacente ao processo de escrita de uma história da literatura justifica as suas omissões e ênfases? 25 Mais especificamente: no intercâmbio dialético entre luz e sombra, por que a literatura escrita por mulheres é sombra constante nesse tipo de discurso? 28  Ao tratar de histórias da literatura, devemos sempre considerar que elas não são totalidades permanentes, mas sim objetos dinâmicos, pois encontram-se sob o signo da 31 contingência, em constante processo de redefinição. Uma vez publicada a história da literatura, há possibilidades de novas fontes, novos documentos históricos; o historiador, 34 em contínuas pesquisa e busca, pode descobrir um documento inédito e, então, reformular sua hipótese. Essa perspectiva da mobilidade e do constante processo de 37 redefinição serve-nos de conforto, na medida em que torna possível e viável a iluminação sobre a literatura de autoria feminina até hoje obnubilada nos discursos sobre a 40 produção literária brasileira. Entretanto, se, ao atualizar a história da literatura, mantemos o padrão de silenciamento dos textos de autoria feminina, torna-se impossível 43 repensar o cânone literário. Observa-se que, ironicamente, algumas escritoras oitocentistas não foram excluídas em vida, mas o esquecimento foi implacável com a exaltação 46 outrora experimentada por elas.

FAEDRICH, Anna. Escritoras silenciadas: Narcisa Amália, Júlia Lopes de Almeida, Albertina Bertha e as adversidades da escrita literária de mulheres. Rio de Janeiro: Macabéa, 2022, págs. de 39 a 64, com adaptações.

Com base nas ideias apresentadas no texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 1.

    Por meio de linguagem denotativa, a autora trata do cânone literário utilizando-se de analogia entre as narrativas da história da literatura e as narrativas literárias, bem como da referência a diferentes períodos de produção de autoria feminina.

  2. 2.

    No segundo parágrafo, o “intercâmbio dialético entre luz e sombra” (linhas 25 e 26) refere-se a estilos literários em que a produção de escrita de autoria feminina foi relevante, como no século 19, e a estilos em que não há esse tipo de produção.

  3. 3.

    Para David Perkins, a literatura depende dos discursos construídos acerca de uma obra em determinado período histórico de uma cultura e, por isso, ao narrar, o historiador é influenciado por um conjunto de emoções diversas que justificam as próprias omissões e ênfases.

  4. 4.

    O texto critica a história da literatura brasileira que produz inverdades, uma vez que o ponto de vista dos historiadores é unificado e centralizador, além de decorrer de fontes restritas e documentos históricos, o que impossibilita uma escrita que atenda a visões múltiplas.

1 Mas não há casa-grande sem a senzala, e foi em tornodesse duo, que parece composto de opostos, porém naverdade abrange partes contíguas, que Gilberto Freyre4publicou, em 1933, seu clássico Casa-grande & senzala,evidenciando as contradições e relações que seestabeleciam entre senhores e escravos. O próprio “&” do7título original já revela como o antropólogo pernambucanoentendia a importância da correlação entre esses doisextremos. “Equilíbrio de antagonismos de economia e de10cultura” foi a expressão utilizada por ele para demonstrarcomo paternalismo e violência, mas também negociação departe a parte, coexistiam nesse cotidiano.13 “Senzala” é um termo do quimbundo que significa“residência de serviçais em propriedades agrícolas”, ou“morada separada da casa principal”. Nas senzalas da cana16residiam dezenas de escravos, que podiam chegar àscentenas, com frequência presos pelos pés e braços,deitados em chão de terra e em péssimas condições de19higiene ‒ como ter numerosos escravos era sinal deprosperidade e abastança, o senhor preferia quantidade aqualidade. As circunstâncias variavam: por vezes os22escravos eram alojados coletivamente; em outras situaçõesforam achados registros de barracões distintos para homense para mulheres, e em alguns casos até mesmo alojamentos25para casais com filhos. No Nordeste, o mais normal eraencontrar barracas contíguas, dispostas em filas e a certadistância da casa-grande. As senzalas eram trancadas à28noite por feitores, a fim de evitar fugas e de estabelecerdisciplina, pois dessa maneira se determinava o horário dese recolher e de despertar. [...]31 Por sinal, diversos elementos faziam parte daperformance de senhor “aristocrata”: as roupas, a mobília,os cavalos puros-sangues, a alfabetização numa terra deiletrados, a capacidade de mando. [...] Na medida em queeram considerados pagãos, tanto indígenas como africanos,apesar de batizados e transformados em vassalos,continuavam sem direitos. Dessa forma, as divisões entre“gentios” e “índios aldeados”, ou entre “africanos”,“boçais” (aqueles recém-chegados) e “ladinos”(aculturados), representavam gradações culturais quedemarcavam hierarquias internas, as quais, no limite,implicavam maior ou menor exclusão social. Os mais dedentro e os mais de fora. [...] Essas populações podiam ser denominadassimplesmente mestiças (provenientes de uniões entre46escravos e seus senhores); cabras (termo que quase semprese referia à mistura do índio com o negro); morenas(palavra que vem de “mouro” mas guarda antes o49significado “de cor escura”), ou pardas: a cor parda aindahoje consta no censo brasileiro, e mais parece um“nenhuma das anteriores”, um grande et cetera ou um52coringa da classificação.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, com adaptações.

Considerando os aspectos linguísticos e o sentido do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 5.

    No primeiro parágrafo, “antropólogo pernambucano” (linha 7) e “ele” (linha 10) estabelecem referenciação anafórica com “Gilberto Freyre” (linha 3).

  2. 6.

    A palavra “até” (linha 24) estabelece um sentido de limite em relação aos alojamentos constituídos dentro das senzalas.

  3. 7.

    A inserção de vírgula após a palavra “cana” (linha 15) manteria a correção gramatical e os sentidos construídos no período.

  4. 8.

    Na forma verbal “se determinava” (linha 29), o emprego da partícula “se” marca a indeterminação do sujeito da oração.

1 Ao partir para estudar em Coimbra, em 1783, JoséBonifácio tinha 20 anos; voltava com 56. A simplescolônia que deixara subira à categoria de reino e era a sede4da monarquia, com ares de metrópole, em uma como queinversão de papéis. As consequências daí advindas feriam oolhar do observador menos atento. Bem diverso se7apresentava, por exemplo, o Rio de Janeiro. A despeito donegativismo da fidalguia parasitária que acompanhara afamília real na transladação para o Brasil, muita coisa10melhorara na fisionomia urbana, e novos bairros, maispitorescos, como o Catete e Botafogo, foram surgindo. Tornara-se mais ativa toda a vida da cidade; a13existência da Corte e de um corpo diplomático dava-lheensejo a um esboço de mundanismo. Mais importantes doque isso eram as iniciativas de ordem administrativa,16econômica e cultural. Nem sempre as medidas tomadasseriam adequadas, e havia muito do mau espírito deimprovisação, de ensaios e tentativas a que faltavam base19segura. Sobretudo não se ia ao fundo das coisas. Cuidava-sede pôr em funcionamento um aparelho administrativocompleto; criavam-se repartições públicas, tribunais,22estabelecimentos de ensino e tipografias; editavam-se obrasvárias (até de Voltaire); fundavam-se os primeiros jornaisbrasileiros; tratava-se de agricultura, de minas, de fundição25de ferro; buscava-se desenvolver os meios de comunicaçãoe de transporte. Mas não se tocava no essencial – o regimede propriedade e de trabalho.28 Aparências de civilização e de progresso JoséBonifácio vinha encontrar, e isto lhe dava, à primeira vista,satisfação. À sua visão de cientista e de pensador,31entretanto, não escapavam os aspectos mais profundos dosproblemas brasileiros. E fixou-os logo, na sua nudez, talcomo os exporia pouco depois em documentos públicos.34Ele que, em fórmula perfeita, achava que “a sociedade civiltem por base primeira a justiça, e por fim principal afelicidade dos homens”, não compreendia como poderia37haver verdadeira liberdade em um país onde o trabalhadorera quase exclusivamente o escravo negro e em que aeconomia se organizara em benefício de uma classe40privilegiada. Sem se deixar iludir por exterioridades,entendia que era necessária de partida a “expiação decrimes e pecados velhos”. Crimes e pecados velhos contra43os negros que chegavam ao Brasil aos milhares, abafadosno porão dos navios e mais apinhados do que fardos defazenda; crimes e pecados velhos que ele vinha encontrar46mais florescentes, prestigiados e impunes do que nunca. Aprimeira medida a se adotar, a seu parecer, consistia naabolição imediata do tráfico africano “tão bárbaro e49carniceiro”; a segunda, na extinção da escravatura. Fora considerável, sem dúvida, a obra propriamentepolítica realizada, mas havia outra, de natureza social eeconômica a empreender, mais importante e mais difícil. Enenhum dos seus pontos fundamentais escapou à argúciade José Bonifácio – abolição do tráfico, extinção da55escravidão, transformação do regime da propriedadeagrária com a substituição do latifúndio pela subdivisão dasterras de modo a “favorecer a colonização de europeus58pobres, índios, mulatos e negros forros”, preservação dasmatas e renovação das florestas, localização adequada das60novas vilas e cidades, para só citar estes.

SOUZA, Otávio Tarquínio de. História dos fundadores do Império do Brasil. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2015. 5 v., com adaptações.

Considerando a estrutura linguística do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 9.

    No trecho “dava-lhe ensejo a um esboço de mundanismo” (linhas 13 e 14), o complemento verbal direto é expresso pelo nome “ensejo”, enquanto o indireto é representado pelo pronome “lhe” e pela expressão “a um esboço de mundanismo”.

  2. 10.

    O nome “nudez” (linha 32), empregado no texto em sentido denotativo, alude ao fato de José Bonifácio tratar abertamente acerca de aspectos mais profundos dos problemas brasileiros em documentos públicos, expondo-os sem qualquer tentativa de encobri-los ou disfarçá-los.

  3. 11.

    As formas verbais “deixara” (linha 3), “subira” (linha 3), “feriam” (linha 5), “acompanhara” (linha 8), “melhorara” (linha 10) e “foram surgindo” (linha 11), poderiam ser substituídas, mantendo-se a coerência e a correção do texto, por havia deixado, havia subido, haviam ferido, havia acompanhado, havia melhorado e haviam surgido, respectivamente.

  4. 12.

    No trecho “Cuidava-se [...] trabalho.” (linhas de 19 a 27), as formas verbais que se ligam à partícula “se” ora apresentam sujeito simples, ora apresentam sujeito indeterminado.

1 Mas não há casa-grande sem a senzala, e foi em tornodesse duo, que parece composto de opostos, porém naverdade abrange partes contíguas, que Gilberto Freyre4publicou, em 1933, seu clássico Casa-grande & senzala,evidenciando as contradições e relações que seestabeleciam entre senhores e escravos. O próprio “&” do7título original já revela como o antropólogo pernambucanoentendia a importância da correlação entre esses doisextremos. “Equilíbrio de antagonismos de economia e de10cultura” foi a expressão utilizada por ele para demonstrarcomo paternalismo e violência, mas também negociação departe a parte, coexistiam nesse cotidiano.13 “Senzala” é um termo do quimbundo que significa“residência de serviçais em propriedades agrícolas”, ou“morada separada da casa principal”. Nas senzalas da cana16residiam dezenas de escravos, que podiam chegar àscentenas, com frequência presos pelos pés e braços,deitados em chão de terra e em péssimas condições de19higiene ‒ como ter numerosos escravos era sinal deprosperidade e abastança, o senhor preferia quantidade aqualidade. As circunstâncias variavam: por vezes os22escravos eram alojados coletivamente; em outras situaçõesforam achados registros de barracões distintos para homense para mulheres, e em alguns casos até mesmo alojamentos25para casais com filhos. No Nordeste, o mais normal eraencontrar barracas contíguas, dispostas em filas e a certadistância da casa-grande. As senzalas eram trancadas à28noite por feitores, a fim de evitar fugas e de estabelecerdisciplina, pois dessa maneira se determinava o horário dese recolher e de despertar. [...]31 Por sinal, diversos elementos faziam parte daperformance de senhor “aristocrata”: as roupas, a mobília,os cavalos puros-sangues, a alfabetização numa terra deiletrados, a capacidade de mando. [...] Na medida em queeram considerados pagãos, tanto indígenas como africanos,apesar de batizados e transformados em vassalos,continuavam sem direitos. Dessa forma, as divisões entre“gentios” e “índios aldeados”, ou entre “africanos”,“boçais” (aqueles recém-chegados) e “ladinos”(aculturados), representavam gradações culturais quedemarcavam hierarquias internas, as quais, no limite,implicavam maior ou menor exclusão social. Os mais dedentro e os mais de fora. [...] Essas populações podiam ser denominadassimplesmente mestiças (provenientes de uniões entre46escravos e seus senhores); cabras (termo que quase semprese referia à mistura do índio com o negro); morenas(palavra que vem de “mouro” mas guarda antes o49significado “de cor escura”), ou pardas: a cor parda aindahoje consta no censo brasileiro, e mais parece um“nenhuma das anteriores”, um grande et cetera ou um52coringa da classificação.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, com adaptações.

A respeito dos recursos linguísticos presentes no texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 13.

    O trecho “Na medida em que eram considerados pagãos” (linhas 34 e 35) confere ao período em que foi empregado uma relação de causalidade.

  2. 14.

    Nas linhas 39 e 40, o uso de parênteses em “aqueles recém-chegados” e em “aculturados” sinaliza ressalvas quanto ao emprego de determinadas expressões ou palavras no período.

  3. 15.

    A utilização de aspas em “‘nenhuma das anteriores”’ (linha 51) tem função de marcar citação direta no texto.

  4. 16.

    A substituição de “puros-sangues” (linha 33) por puros-sangue manteria a correção quanto ao emprego de plural desse adjetivo.

1 A comemoração do cinquentenário da DeclaraçãoUniversal dos Direitos Humanos constitui oportunidadepara examinar simultaneamente duas problemáticas4estreitamente imbricadas: os direitos humanos e odesenvolvimento considerado como expansão dos direitospositivos, segundo fórmula do eminente pensador indiano7Amartya Sen. [...] Enquanto, na teoria, os direitos do homem sãoindivisíveis, na prática, não se pode escamotear a questão10de sua hierarquia, especialmente no que toca à aplicaçãodos diferentes direitos econômicos e sociais, considerada amultiplicidade das necessidades e a penúria dos meios. A13partir dessa constatação, é grande a tentação de proceder aarbitragens abusivas. A eficiência socioeconômica nãopoderia, em hipótese alguma, ser invocada para justificar a16deriva autoritária. A trágica experiência de nosso séculonos ensinou que os direitos de primeira geração [direitoscivis e políticos] constituem valor absoluto. Quanto às19arbitragens delicadas relativas aos direitos de segundageração, elas dependem do funcionamento eficiente do21Estado de direito democrático.

SACHS, Ignacy. Desenvolvimento, direitos humanos e cidadania. In: PINHEIRO, P. S.; GUIMARÃES, S. P. Direitos humanos no século XXI. Brasília: IPRI/FUNAG, 1998, p. 155 e 161, com adaptações. Disponível em: <https://hackmd.io/@aA2X45tnSyWrRBLytuzvEw /Bk1KsrHO9>. Acesso em: 10 ago. 2023, com adaptações.

Tendo em vista as ideias do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 17.

    O texto sustenta que não deve haver hierarquia de direitos, devendo ser considerados de maneira indivisível os direitos civis, políticos, econômicos e sociais.

  2. 18.

    O autor argumenta que os direitos de segunda geração não podem ser arbitrados em detrimento dos de primeira geração.

  3. 19.

    O funcionamento do Estado de direito democrático depende de uma economia eficiente, na visão do autor.

  4. 20.

    Segundo o autor, o crescimento econômico e os direitos humanos são problemáticas estreitamente imbricadas.

1 Os princípios da recta ratio, orientando a lexpraeceptiva, emanam da consciência humana, afirmando ainter-relação ineludível entre o direito e a ética. [...] Um4pequeno grupo de países – os nucleares – não podecontinuar a fazer abstração ou minimizar as numerosasresoluções das Nações Unidas, válidas para todos os7estados membros da Organização das Nações Unidas(ONU), acerca da obrigação de desarmamento nuclear.Assim sendo, meu voto dissidente assumiu uma posição10diametralmente oposta à da maioria (dividida) da CorteInternacional de Justiça (CIJ), com base em princípios evalores fundamentais. A CIJ, como órgão judicial principal13das Nações Unidas – concluí em meu voto dissidente –deveria ter mostrado sensibilidade a respeito da matéria, edado assim sua contribuição ao desarmamento nuclear,16matéria que constitui uma das maiores preocupações dacomunidade internacional vulnerável, e na verdade da18humanidade como um todo.

CANÇADO TRINDADE, Antônio Augusto. A obrigação universal de desarmamento nuclear. Brasília: FUNAG, 2017, p. 46-47, com adaptações.

Considerando as ideias e os aspectos semânticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 21.

    O sentido de “fazer abstração” (linha 5) é o de desconsiderar, reduzir a importância.

  2. 22.

    O autor justifica o próprio voto alinhado ao da maioria dos juízes da CIJ, em favor do desarmamento nuclear.

  3. 23.

    O sentido de “ineludível” (linha 3) remete à suposta ilusão das relações entre o direito e a ética.

  4. 24.

    O autor critica a CIJ, o órgão máximo das Nações Unidas, por não ter mostrado sensibilidade diante de uma das maiores preocupações da humanidade.

Por uma reescrita da história literária brasileira 1  Não é possível falarmos acerca da elaboração de uma nova história da literatura brasileira e da inserção das escritoras mulheres nessa história sem antes entendermos 4 como se dá o processo de construção das histórias e do cânone literários. O historiador também tem o poder de legitimar o escritor e a literatura, pela inclusão e abertura 7 de espaço para análise e consideração de sua obra literária. O contrário também é possível, pois, ao excluir escritores, acaba silenciando uma produção que gradualmente vai 10 sendo esquecida, como foi o caso das escritoras oitocentistas.  De acordo com David Perkins, uma história da 13 literatura se constrói por meio de um enredo, que é o discurso feito a respeito de determinada produção. Assim, os historiadores da literatura podem condenar escritores e 16 obras, podem defender estilos não apreciados e podem, também, ser motivados por um conjunto de emoções diferentes: “qualquer que seja o enredo imposto aos 19 eventos, o simples fato de serem organizados em forma de narrativa pode, ele mesmo, preencher o desejo.” Tendo em vista a consciência do desejo que motiva e dá vida a uma 22 memória literária, a questão é: até que ponto a intenção organizadora subjacente ao processo de escrita de uma história da literatura justifica as suas omissões e ênfases? 25 Mais especificamente: no intercâmbio dialético entre luz e sombra, por que a literatura escrita por mulheres é sombra constante nesse tipo de discurso? 28  Ao tratar de histórias da literatura, devemos sempre considerar que elas não são totalidades permanentes, mas sim objetos dinâmicos, pois encontram-se sob o signo da 31 contingência, em constante processo de redefinição. Uma vez publicada a história da literatura, há possibilidades de novas fontes, novos documentos históricos; o historiador, 34 em contínuas pesquisa e busca, pode descobrir um documento inédito e, então, reformular sua hipótese. Essa perspectiva da mobilidade e do constante processo de 37 redefinição serve-nos de conforto, na medida em que torna possível e viável a iluminação sobre a literatura de autoria feminina até hoje obnubilada nos discursos sobre a 40 produção literária brasileira. Entretanto, se, ao atualizar a história da literatura, mantemos o padrão de silenciamento dos textos de autoria feminina, torna-se impossível 43 repensar o cânone literário. Observa-se que, ironicamente, algumas escritoras oitocentistas não foram excluídas em vida, mas o esquecimento foi implacável com a exaltação 46 outrora experimentada por elas.

FAEDRICH, Anna. Escritoras silenciadas: Narcisa Amália, Júlia Lopes de Almeida, Albertina Bertha e as adversidades da escrita literária de mulheres. Rio de Janeiro: Macabéa, 2022, págs. de 39 a 64, com adaptações.

Tendo em vista a estrutura gramatical do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 25.

    O conectivo “pois” (linha 8) tem valor conclusivo acerca do silenciamento de escritores que acabam sendo esquecidos, uma vez que a referida conjunção se apresenta após a forma verbal “é”.

  2. 26.

    A forma verbal “há” (linha 32), poderia ser substituída, no texto, tanto por existe quanto por existem, sem que isso acarretasse alteração de sentido ao texto, nem incorreção gramatical.

  3. 27.

    No trecho “Não é possível falarmos acerca da elaboração de uma nova história da literatura brasileira” (linhas 1 e 2), a segunda oração exerce a mesma função que o termo sublinhado em “Ao tratar de histórias da literatura, devemos sempre considerar que elas não são totalidades permanentes” (linhas 28 e 29).

  4. 28.

    A oração iniciada por “na medida em que” (linha 37), introduz a causa do conforto que se sente com a perspectiva da mobilidade e do processo constante de redefinição da história da literatura.

1 Quem mais contribuiu para a difusão do mito do bomselvagem foi Américo Vespúcio. […] Em carta de 1502,diz o navegador que os índios “não têm fé nem lei alguma,4vivem segundo a natureza, […] não possuem consigo benspróprios, pois tudo é comum. Não têm fronteiras de reinosou províncias, não têm rei […] Não administram justiça,7[…] porque em seu meio não reina a cobiça […] Não dãoqualquer valor nem ao ouro, nem à prata, nem a joias” […]“Vivem segundo a natureza, podendo dizer-se mais10epicuristas que estoicos” […] O mito do bom selvagem se consolidou graças aofranciscano André Thévet e ao calvinista Jean de Léry. […]13Em 1557, […] foi Thévet que inaugurou a tradição decriticar a cultura europeia por meio do confronto com oscostumes indígenas. […]16 Também Jean de Léry […] desculpa o que pareciachocante nos costumes indígenas. A antropofagia, porexemplo, não é pior do que a prática da usura, na Europa,19já que os usurários “sugam o sangue e a medula, e porconseguinte comem vivos as viúvas, os órfãos e outrosinfelizes […] Esses agiotas são portanto mais cruéis do que22os selvagens”. […] A guerra nesse país é nobre e generosa […] Seuúnico fundamento é a glória, a virtude, no sentido antigo.25Os prisioneiros têm uma coragem indômita, desprezam a26morte […].

ROUANET, Sergio Paulo. O mito do bom selvagem. Artepensamento, 1999. Disponível em: <https://artepensamento.ims.com.br/item/o-mito-do-bom-selvagem/>. Acesso em: 17 jul. 2023, com adaptações.

Com base nas ideias apresentadas no texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 29.

    Vespúcio antecedeu o padre franciscano na comparação dos costumes indígenas com características da civilização europeia de sua época.

  2. 30.

    “Mais epicuristas que estoicos” (linhas 9 e 10) significa que os indígenas lhe pareceram mais simples, ligados à natureza, do que austeros.

  3. 31.

    A palavra “indômita” (linha 25) significa que a coragem dos prisioneiros é difícil de ser domada.

  4. 32.

    O huguenote citado faz uso de linguagem conotativa para matizar a antropofagia, comparando-a com a usura.

1O poeta é um fingidorFinge tão completamenteQue chega a fingir que é dor4A dor que deveras senteE os que leem o que escreve,6Na dor lida sentem bem,Não as duas que ele teve,Mas só a que eles não têm9E assim nas calhas de rodaGira, a entreter a razão,Esse comboio de corda12Que se chama coração

PESSOA, Fernando. Autopsicografia. In: Antologia Poética. Lisboa: Relógio d’água, 2014, p. 50

A respeito dos aspectos linguísticos e semânticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 33.

    A repetição da palavra “dor” (linhas 3, 4 e 6) constitui a figura de linguagem anáfora.

  2. 34.

    A palavra “lida” (linha 6), na segunda estrofe, não é um substantivo e não designa o feminino de “lide”, no sentido de labuta, luta da vida.

  3. 35.

    A segunda estrofe contém uma sinestesia.

  4. 36.

    A terceira estrofe contém a figura de linguagem hipérbato, caracterizada pela inversão da ordem dos elementos da oração, e apresenta a palavra “coração” como sujeito.

1 Ao partir para estudar em Coimbra, em 1783, JoséBonifácio tinha 20 anos; voltava com 56. A simplescolônia que deixara subira à categoria de reino e era a sede4da monarquia, com ares de metrópole, em uma como queinversão de papéis. As consequências daí advindas feriam oolhar do observador menos atento. Bem diverso se7apresentava, por exemplo, o Rio de Janeiro. A despeito donegativismo da fidalguia parasitária que acompanhara afamília real na transladação para o Brasil, muita coisa10melhorara na fisionomia urbana, e novos bairros, maispitorescos, como o Catete e Botafogo, foram surgindo. Tornara-se mais ativa toda a vida da cidade; a13existência da Corte e de um corpo diplomático dava-lheensejo a um esboço de mundanismo. Mais importantes doque isso eram as iniciativas de ordem administrativa,16econômica e cultural. Nem sempre as medidas tomadasseriam adequadas, e havia muito do mau espírito deimprovisação, de ensaios e tentativas a que faltavam base19segura. Sobretudo não se ia ao fundo das coisas. Cuidava-sede pôr em funcionamento um aparelho administrativocompleto; criavam-se repartições públicas, tribunais,22estabelecimentos de ensino e tipografias; editavam-se obrasvárias (até de Voltaire); fundavam-se os primeiros jornaisbrasileiros; tratava-se de agricultura, de minas, de fundição25de ferro; buscava-se desenvolver os meios de comunicaçãoe de transporte. Mas não se tocava no essencial – o regimede propriedade e de trabalho.28 Aparências de civilização e de progresso JoséBonifácio vinha encontrar, e isto lhe dava, à primeira vista,satisfação. À sua visão de cientista e de pensador,31entretanto, não escapavam os aspectos mais profundos dosproblemas brasileiros. E fixou-os logo, na sua nudez, talcomo os exporia pouco depois em documentos públicos.34Ele que, em fórmula perfeita, achava que “a sociedade civiltem por base primeira a justiça, e por fim principal afelicidade dos homens”, não compreendia como poderia37haver verdadeira liberdade em um país onde o trabalhadorera quase exclusivamente o escravo negro e em que aeconomia se organizara em benefício de uma classe40privilegiada. Sem se deixar iludir por exterioridades,entendia que era necessária de partida a “expiação decrimes e pecados velhos”. Crimes e pecados velhos contra43os negros que chegavam ao Brasil aos milhares, abafadosno porão dos navios e mais apinhados do que fardos defazenda; crimes e pecados velhos que ele vinha encontrar46mais florescentes, prestigiados e impunes do que nunca. Aprimeira medida a se adotar, a seu parecer, consistia naabolição imediata do tráfico africano “tão bárbaro e49carniceiro”; a segunda, na extinção da escravatura. Fora considerável, sem dúvida, a obra propriamentepolítica realizada, mas havia outra, de natureza social eeconômica a empreender, mais importante e mais difícil. Enenhum dos seus pontos fundamentais escapou à argúciade José Bonifácio – abolição do tráfico, extinção da55escravidão, transformação do regime da propriedadeagrária com a substituição do latifúndio pela subdivisão dasterras de modo a “favorecer a colonização de europeus58pobres, índios, mulatos e negros forros”, preservação dasmatas e renovação das florestas, localização adequada das60novas vilas e cidades, para só citar estes.

SOUZA, Otávio Tarquínio de. História dos fundadores do Império do Brasil. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2015. 5 v., com adaptações.

Com base nas ideias do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 37.

    Para José Bonifácio, o desenvolvimento social, o econômico e o político de um país são igualmente importantes e devem ocorrer de forma concomitante.

  2. 38.

    Certos trechos do terceiro e do quarto parágrafos foram colocados entre aspas porque correspondem a falas literais de José Bonifácio e a expressões usadas por ele.

  3. 39.

    O texto trata da vida de José Bonifácio de Andrada e Silva, a quem é atribuída, entre outras personalidades, a fundação do Império no Brasil.

  4. 40.

    No segundo parágrafo do texto, malgrado a extensa enumeração dos avanços observados por José Bonifácio em sua volta ao Brasil – oferta de artigos e objetos de luxo no comércio; existência da Corte e de um corpo diplomático; iniciativas de ordem administrativa, econômica e cultural; criação de repartições públicas; fundação dos primeiros jornais brasileiros, entre outros –, jaz uma crítica do estadista ao modelo de desenvolvimento da nova nação, especialmente no que tange à superficialidade das medidas adotadas e à ausência de regime de propriedade e de trabalho.

1 A democracia transformou-se em um regimesemianárquico, que terá como consequência o“esboroamento” do Estado. […] A democracia parlamentarestá a transformar-se cada vez mais em um regimeautocrático. Mais do que na transformação, parece útil aonosso objetivo concentrarmos a reflexão a respeito dadistância entre os ideais democráticos e a “democraciareal”. […] Um ouvinte meu chamou-me a atenção para aspalavras de conclusão que Pasternak põe na boca deGordon, o amigo do Doutor Jivago: “Aconteceu váriasvezes ao longo da história. O que fora concebido comoalgo nobre e elevado tornou-se matéria bruta. Assim, aGrécia transformou-se em Roma […]”. Assim, acrescentoeu, o pensamento liberal e democrático de um Locke, deum Rousseau, de um Tocqueville, de um Bentham ou deum John Stuart Mill transformou-se na ação de ... (e aquiintroduza cada um o nome que entender […]).

BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1988, p. 27, com adaptações.

Considerando as ideias e os sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 41.

    A ênfase do autor recai sobre o processo de transformação da democracia, mais do que sobre a distância entre seus ideais e sua realidade.

  2. 42.

    Para seguir a linha de argumentação do autor, as reticências inseridas após o período “transformou-se na ação de” (linha 16) poderiam ser completadas, por exemplo, com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948.

  3. 43.

    A “matéria bruta” (linha 12) se refere ao substrato original da democracia, que precisa ser lapidado na história das sociedades.

  4. 44.

    O texto contém crítica de fundo aos princípios democráticos que se concretizam, na realidade histórica, em regimes anárquicos e autocráticos.

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