Língua Portuguesa — CACD 2020
IADES · CACD – 1ª fase (TPS) · 40 itens · julgue cada item como Certo ou Errado
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Cadastre-seTexto 1 Uma página em branco 1 Uma página em branco a oferecer todas as possibilidades, o papel aceita tudo. A angústia por haver todas essas possibilidades, não se toca ainda coisa alguma. 4 Então escolher uma entre as possibilidades, o que traça um limite. Escrever é traçar um limite. Escolhe-se uma primeira letra, U; uma primeira palavra, UMA; uma primeira frase, 7 título: UMA PÁGINA EM BRANCO. Como se escolhe uma camisa, um filme, um itinerário de viagem, um partido político, incorpora-se um destino. 10 Como se escolhe uma entre as mulheres possíveis e com ela se irá gastar os melhores anos da vida. Pronto, está escolhido, tipos negros mancham agora 13 uma página branca, comprometida, é só seguir o fio. Mas, que fio? Está-se aqui, sozinho, sentado à mesa e colocou-se na 16 máquina uma página em branco com todas as possibilidades possíveis. Como, lá fora, um universo cheio de vidas escolhíveis. Então que se encarne numa dessas vidas, vias, 19 fios. Que se ponha lá entre as vozes, os gritos, os risos. Fazer o percurso das ruas, artérias, os bares, as favelas, a prostituição, os rituais, os crimes. Ou, quem sabe? — apenas 22 permanecer numa casa, caixa, onde no quarto durmam crianças, no fogão haja um resto de comida e, na cama, esperando, certa mulherzinha. 25 De qualquer modo é preciso que entre os dedos, a mente, as teclas não se interponham mais do que uma membrana, um cordão líquido, umbigo. E, escorregando, 28 outras palavras negras avancem mais na floresta do branco, teçam lá dentro o tal fio. Um livro que, dentro de nós, já poderá estar escrito. 31 Como se cada homem já nascesse com seu próprio livro. Deixar pois o itinerário a este acaso necessário, predestinado. Que a mulher, a viagem, a estória e a História 34 de certo modo o escolham, ao invés de serem escolhidas. Livrem-no de escolher por si mesmo entre todas as hipóteses do possível. E libertem-no de qualquer 37 possibilidade porventura escolhida.
SANT'ANNA, Sérgio. O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. Companhia das Letras, 2014.
Considerando as ideias e os sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
- 1.
Nos dois últimos parágrafos do texto (linhas de 30 a 37), o autor sugere que se deve deixar-se levar pelas escolhas que a vida faz, visto que, embora não se perceba, cada homem já nasce com o próprio destino traçado.
- 2.
O autor implicitamente apresenta uma crítica a dois modos de vida distintos: o de quem se envolve com a criminalidade – em que se faz “o percurso das ruas, artérias, os bares, as favelas, a prostituição, os rituais, os crimes” (linhas 20 e 21) – e o de quem se contenta com a mesmice e a previsibilidade – em que se permanece “numa casa, caixa, onde no quarto durmam crianças, no fogão haja um resto de comida e, na cama, esperando, certa mulherzinha” (linhas de 22 a 24).
- 3.
Para o autor do texto, uma página em branco corresponde a “um universo cheio de vidas escolhíveis” (linhas 17 e 18).
- 4.
Como é usual em textos literários, no texto apresentado, observa-se o emprego recorrente de figuras de linguagem, tais como a prosopopeia, presente em “o papel aceita tudo” (linha 2) e “tipos negros mancham agora uma página branca” (linhas 12 e 13).
Texto 3 1 É a história da emancipação da escravatura entre nós. Outrora a escravidão pareceria fadada à perpetuidade neste País. Falar em extingui-la seria uma blasfêmia. Fizeram-na 4 esposar a lavoura, cuidando uni-las para sempre. A nação tinha edificado a sua fortuna sobre um crime, consagrando-o nos seus códigos como uma necessidade social. 7 Hoje o princípio emancipador, difundido pela civilização, lavrou por toda a parte. Na Europa e na América desapareceu a escravidão. 10 Só nós alimentamos no seio esta ignomínia. A pressão formidável das ideias cresce de dia para dia em volta de nós como um oceano prenhe de tempestades. 13 No meio de tudo isto o que fez o governo? Nada; absolutamente nada! A fala do trono de 1869 é uma vergonha indelével. O Sr. 16 D. Pedro II que, em 1867 e em 1868, havia proclamado solenemente a urgência da reforma abolicionista, que tinha celebrado compromissos públicos com o País e com a Europa, 19 que alardeava de todo modo tendências humanitárias, vem rasgar aos olhos do mundo o único título meritório com que até hoje podia ufanar-se o despotismo de sua autoridade retratando 22 com o silêncio todas as suas promessas para envolver-se em uma abstenção misteriosa e injustificável. E ainda há quem diga que a emancipação neste País não é 25 questão de partidos! Sim, não devia sê-lo. Mas a índole mesquinha de nossa política tem convertido 28 esse reclamo da consciência nacional em arma de hostilidades. Algum dia, quando a liberdade não for mais o privilégio dos brancos no Brasil, quando a posteridade examinar os 31 nossos feitos com o facho da História na mão, a justiça dos vindouros há de gravar na memória do Partido Conservador o estigma da reprovação eterna, porque ele sacrificou aos 34 interesses momentâneos do poder o interesse imorredouro da verdade; aos cálculos estéreis do egoísmo as necessidades imperiosas do futuro, e à pequenhez das considerações pessoais 37 os direitos inalienáveis de uma raça escravizada. Não protesteis! Se a emancipação, em 1867 e em 1868, era tão urgente, que o imperador a mandava estudar pelo 40 conselho d’Estado, e a consignava nos discursos da coroa como a necessidade capital do País, invocando para ela a reflexão do parlamento, como é que de um ano para o outro esta 43 necessidade urgente e imediata torna-se tão secundária, tão indiferente, tão remota que nem sequer merece ser mencionada na fala do trono? 46 Felizmente, porém, há um preceito e um fato de observação que nos animam. O primeiro é que, desde que a verdade chega a 49 amadurecer com os acontecimentos, cada embaraço com que trabalhamos por contrariá-la é um acréscimo de força para a sua multiplicação. O segundo é o imponente movimento do espírito nacional que se vai formando lentamente no País. A servidão em que temos vivido até hoje, a ausência 55 completa de animação política do País, tem-nos habituado a desdenhar esses fatos, que, sob a modéstia de suas feições, 57 ocultam graves sistemas de regeneração pública.
BARBOSA, Ruy (2013-11-06T22:58:59). Obras de Ruy Barbosa. Biblioteca Digital. Edição do Kindle, com adaptações.
Com base nos aspectos semânticos e gramaticais do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
- 5.
A substituição de “neste” (linha 24) por nesse promoveria incorreção ao texto.
- 6.
No texto, a locução “desde que” (linha 48) introduz uma condição.
- 7.
A palavra “ignomínia” (linha 10) foi empregada no texto com o mesmo sentido de opróbrio.
- 8.
Segundo se depreende do 12º parágrafo do texto (linhas de 29 a 37), o Partido Conservador preteriu “o interesse imorredouro da verdade” (linhas 34 e 35), “as necessidades imperiosas do futuro” (linhas 35 e 36) e “os direitos inalienáveis de uma raça escravizada” (linha 37).
Texto 3 1 É a história da emancipação da escravatura entre nós. Outrora a escravidão pareceria fadada à perpetuidade neste País. Falar em extingui-la seria uma blasfêmia. Fizeram-na 4 esposar a lavoura, cuidando uni-las para sempre. A nação tinha edificado a sua fortuna sobre um crime, consagrando-o nos seus códigos como uma necessidade social. 7 Hoje o princípio emancipador, difundido pela civilização, lavrou por toda a parte. Na Europa e na América desapareceu a escravidão. 10 Só nós alimentamos no seio esta ignomínia. A pressão formidável das ideias cresce de dia para dia em volta de nós como um oceano prenhe de tempestades. 13 No meio de tudo isto o que fez o governo? Nada; absolutamente nada! A fala do trono de 1869 é uma vergonha indelével. O Sr. 16 D. Pedro II que, em 1867 e em 1868, havia proclamado solenemente a urgência da reforma abolicionista, que tinha celebrado compromissos públicos com o País e com a Europa, 19 que alardeava de todo modo tendências humanitárias, vem rasgar aos olhos do mundo o único título meritório com que até hoje podia ufanar-se o despotismo de sua autoridade retratando 22 com o silêncio todas as suas promessas para envolver-se em uma abstenção misteriosa e injustificável. E ainda há quem diga que a emancipação neste País não é 25 questão de partidos! Sim, não devia sê-lo. Mas a índole mesquinha de nossa política tem convertido 28 esse reclamo da consciência nacional em arma de hostilidades. Algum dia, quando a liberdade não for mais o privilégio dos brancos no Brasil, quando a posteridade examinar os 31 nossos feitos com o facho da História na mão, a justiça dos vindouros há de gravar na memória do Partido Conservador o estigma da reprovação eterna, porque ele sacrificou aos 34 interesses momentâneos do poder o interesse imorredouro da verdade; aos cálculos estéreis do egoísmo as necessidades imperiosas do futuro, e à pequenhez das considerações pessoais 37 os direitos inalienáveis de uma raça escravizada. Não protesteis! Se a emancipação, em 1867 e em 1868, era tão urgente, que o imperador a mandava estudar pelo 40 conselho d’Estado, e a consignava nos discursos da coroa como a necessidade capital do País, invocando para ela a reflexão do parlamento, como é que de um ano para o outro esta 43 necessidade urgente e imediata torna-se tão secundária, tão indiferente, tão remota que nem sequer merece ser mencionada na fala do trono? 46 Felizmente, porém, há um preceito e um fato de observação que nos animam. O primeiro é que, desde que a verdade chega a 49 amadurecer com os acontecimentos, cada embaraço com que trabalhamos por contrariá-la é um acréscimo de força para a sua multiplicação. O segundo é o imponente movimento do espírito nacional que se vai formando lentamente no País. A servidão em que temos vivido até hoje, a ausência 55 completa de animação política do País, tem-nos habituado a desdenhar esses fatos, que, sob a modéstia de suas feições, 57 ocultam graves sistemas de regeneração pública.
BARBOSA, Ruy (2013-11-06T22:58:59). Obras de Ruy Barbosa. Biblioteca Digital. Edição do Kindle, com adaptações.
Considerando as ideias contidas no texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
- 9.
O termo “fala”, na expressão “fala do trono de 1869” (linha 15), faz referência, de forma crítica, ao “silêncio” (linha 22) e à “abstenção” (linha 23) do governante, mencionados nas linhas seguintes do texto.
- 10.
No 13º parágrafo do texto – “Não protesteis! (...) do trono?” (linhas de 38 a 45) –, o autor do texto evidencia o caráter impermanente da emancipação, que ora é tratada como “tão urgente” (linha 39) e como “necessidade capital do País” (linha 41), ora é considerada como “tão secundária, tão indiferente, tão remota” (linhas 43 e 44).
- 11.
Ainda que encerre críticas à história da emancipação da escravatura no País, o texto reconhece a importância da herança deixada por esse momento histórico à nação, como aquela que se observa, por exemplo, no manejo da lavoura, mencionada no segundo parágrafo.
- 12.
A despeito dos fatos relatados no texto, observa-se algum otimismo com relação ao futuro do País no que diz respeito à emancipação da escravatura.
Texto 2 1 “Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas etc.” Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia 4 apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os “cadáveres”. 7 Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande 10 encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, 13 colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio-polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu. 16 A Enciclopédia dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, 19 perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e 22 escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los. À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para 25 evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu “a-b-c” malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. 28 Convenci-me de que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos: 31 — Senhor Castelo, quando salda a sua conta? Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança: — Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser 34 nomeado professor de javanês, e... Por aí o homem interrompeu-me: — Que diabo vem a ser isso, senhor Castelo? 37 Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem: — É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é? 40 Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses: — Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são 43 umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, senhor Castelo? Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a 46 procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei 49 à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de 52 língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar. Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao 55 doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, barão de Jacuecanga, à rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o 58 meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder “como está o senhor?” — e duas ou três regras de 61 gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico. 62 Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil — podes 64 ficar certo — aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza...
BARRETO, Lima. Contos completos de Lima Barreto. Companhia das Letras, 2010, com adaptações.
Com base nos aspectos gramaticais e semânticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
- 13.
No texto, a expressão “a língua javanesa” (linha 11) é retomada de diversas maneiras, de modo a evitar sua repetição. Entre essas formas, é correto citar: “a tal língua malaia” (linhas 16 e 17), “o meu ‘a-b-c’ malaio” (linha 26), “a língua mais fácil do mundo” (linhas 28 e 29), “o javanês” (linha 45), “idioma oceânico” (linha 47), “o alfabeto javanês” (linha 51) e “língua malaia” (linha 52).
- 14.
A supressão da preposição “de” (linha 28) manteria a correção gramatical e o sentido original do texto.
- 15.
Embora as relações entre as orações e os termos das orações sejam alteradas, a sentença “Na minha cabeça... escrevê-los.” (linhas de 20 a 23) poderia ser reescrita, mantendo-se a correção e a coerência do texto, da seguinte forma: Na minha cabeça dançavam hieróglifos, de quando em quando, e eu consultava as minhas notas. Entrava nos jardins e, como desejava guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los, escrevia-os na areia.
- 16.
O termo “entrementes” (linha 57) poderia ser substituído no texto, sem prejuízo para sua correção e sem alteração de seu sentido original, por entretanto.
Texto 1 Uma página em branco 1 Uma página em branco a oferecer todas as possibilidades, o papel aceita tudo. A angústia por haver todas essas possibilidades, não se toca ainda coisa alguma. 4 Então escolher uma entre as possibilidades, o que traça um limite. Escrever é traçar um limite. Escolhe-se uma primeira letra, U; uma primeira palavra, UMA; uma primeira frase, 7 título: UMA PÁGINA EM BRANCO. Como se escolhe uma camisa, um filme, um itinerário de viagem, um partido político, incorpora-se um destino. 10 Como se escolhe uma entre as mulheres possíveis e com ela se irá gastar os melhores anos da vida. Pronto, está escolhido, tipos negros mancham agora 13 uma página branca, comprometida, é só seguir o fio. Mas, que fio? Está-se aqui, sozinho, sentado à mesa e colocou-se na 16 máquina uma página em branco com todas as possibilidades possíveis. Como, lá fora, um universo cheio de vidas escolhíveis. Então que se encarne numa dessas vidas, vias, 19 fios. Que se ponha lá entre as vozes, os gritos, os risos. Fazer o percurso das ruas, artérias, os bares, as favelas, a prostituição, os rituais, os crimes. Ou, quem sabe? — apenas 22 permanecer numa casa, caixa, onde no quarto durmam crianças, no fogão haja um resto de comida e, na cama, esperando, certa mulherzinha. 25 De qualquer modo é preciso que entre os dedos, a mente, as teclas não se interponham mais do que uma membrana, um cordão líquido, umbigo. E, escorregando, 28 outras palavras negras avancem mais na floresta do branco, teçam lá dentro o tal fio. Um livro que, dentro de nós, já poderá estar escrito. 31 Como se cada homem já nascesse com seu próprio livro. Deixar pois o itinerário a este acaso necessário, predestinado. Que a mulher, a viagem, a estória e a História 34 de certo modo o escolham, ao invés de serem escolhidas. Livrem-no de escolher por si mesmo entre todas as hipóteses do possível. E libertem-no de qualquer 37 possibilidade porventura escolhida.
SANT'ANNA, Sérgio. O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro. Companhia das Letras, 2014.
Com base nos aspectos linguísticos e semânticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
- 17.
Em textos literários, por vezes infringem-se as regras da gramática normativa. No mencionado texto, um exemplo de não observância das regras gramaticais pode ser encontrado na linha 13, no uso da vírgula após “Mas”, e outro exemplo pode ser encontrado na linha 32, na ausência de vírgulas que isolem a conjunção “pois”.
- 18.
A partícula “se” em “Está-se aqui, sozinho, sentado à mesa” (linha 15) funciona como índice de indeterminação do sujeito.
- 19.
O trecho “Ou, quem sabe? — apenas permanecer numa casa, caixa, onde no quarto durmam crianças, no fogão haja um resto de comida e, na cama, esperando, certa mulherzinha.” (linhas de 21 a 24) poderia ser reescrito, mantendo-se a correção gramatical e os sentidos do texto, da seguinte forma: Ou, quem sabe, apenas permanecer em uma casa-caixa, cujos quartos durmam crianças, em cujo fogão haja um resto de comida e em cuja cama haja uma certa mulherzinha esperando.
- 20.
Na linha 34, o pronome “o” pode ter como referente tanto o nome “homem” (linha 31) quanto o sintagma “o itinerário” (linha 32); em ambos os casos, a coerência do texto é preservada.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Três, 1984 (Escola do Futuro da Universidade de São Paulo, Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro). Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/>. Acesso em: 29 jul. 2020, com adaptações.
Considerando os aspectos linguísticos, estilísticos e semânticos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
- 21.
No trecho “resistiu até ao esgotamento completo” (linha 2), se a preposição “a” for omitida, reescrevendo-se até o esgotamento, não haveria alteração no sentido da frase.
Item anulado pela banca
- 22.
O termo “Forremo-nos” (linha 7) poderia ser substituído por dediquemo-nos, sem prejuízo de seu conteúdo semântico, visto que o autor passará a descrever os últimos momentos de Canudos.
- 23.
No trecho “como quem vinga uma montanha altı́ssima” (linhas 10 e 11), o verbo vingar tem sentido distinto do verbo punir, como se a montanha representasse, metaforicamente, Canudos.
- 24.
O termo “Expugnado” (linha 2) tem o mesmo sentido de expulso, indicando que os guerreiros de Canudos foram expulsos gradualmente do território que ocupavam.
Texto 2 1 “Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas etc.” Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia 4 apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os “cadáveres”. 7 Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande 10 encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, 13 colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio-polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu. 16 A Enciclopédia dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, 19 perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e 22 escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los. À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para 25 evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu “a-b-c” malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. 28 Convenci-me de que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos: 31 — Senhor Castelo, quando salda a sua conta? Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança: — Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser 34 nomeado professor de javanês, e... Por aí o homem interrompeu-me: — Que diabo vem a ser isso, senhor Castelo? 37 Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem: — É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é? 40 Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses: — Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são 43 umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, senhor Castelo? Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a 46 procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei 49 à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de 52 língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar. Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao 55 doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, barão de Jacuecanga, à rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o 58 meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder “como está o senhor?” — e duas ou três regras de 61 gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico. 62 Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil — podes 64 ficar certo — aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza...
BARRETO, Lima. Contos completos de Lima Barreto. Companhia das Letras, 2010, com adaptações.
Tendo em vista as ideias e os sentidos do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
- 25.
De acordo com o texto, o narrador-personagem passava por dificuldades financeiras e, no intuito de conseguir um emprego, tornou-se professor de língua javanesa.
- 26.
No trecho “Convenci-me... cômodos:” (linhas de 28 a 30), fica clara a intenção do narrador-personagem de provocar um encontro com o encarregado dos aluguéis dos cômodos, ao sair de casa cedo.
- 27.
Ao mencionar o Timor (linha 38), o narrador-personagem diz atacar o patriotismo de seu interlocutor (linha 37), que tem nacionalidade portuguesa, em razão de o Timor já ter sido uma colônia de Portugal e de ser uma localidade na qual se fala a língua portuguesa.
- 28.
Entre as características do narrador-personagem, destacam-se a sagacidade e a predisposição para a aprendizagem de línguas estrangeiras.
*PA – Project Agreement (Acordo de Projeto) Artigos do Acordo entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América Referente a Projetos de Pesquisa, Desenvolvimento, Teste e Avaliação (Acordo RDT&E). Disponível em: <https://concordia.itamaraty.gov.br/>. Acesso em: 29 jul. 2020, com adaptações.
De acordo com as ideias apresentadas no texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
- 29.
Considerando ser o Acordo RDT&E um tratado internacional, e em conformidade com o disposto no art. 6.1, a atividade de contratação será regida, em última instância, por regras de direito internacional.
- 30.
É correto interpretar o disposto no art. 8.8.4 no sentido de que somente a Parte detentora do título de Invenção do Projeto poderá apresentar a terceiros países os pedidos de Patente.
- 31.
Da leitura do art. 5.12 depreende-se que, em caso de transferência de fundos de uma Parte a outra, somente a Parte beneficiária dos recursos deverá fazer auditoria, ao passo que, nas atividades de aquisição em geral, ambas as Partes farão as próprias auditorias.
- 32.
O art. 5.11 do Acordo RDT&E estipula que uma Parte poderá beneficiar-se de obrigações contratuais incorridas pela outra Parte somente após o pagamento de sua parte equitativa do Contrato ou outra obrigação.
Texto 3 1 É a história da emancipação da escravatura entre nós. Outrora a escravidão pareceria fadada à perpetuidade neste País. Falar em extingui-la seria uma blasfêmia. Fizeram-na 4 esposar a lavoura, cuidando uni-las para sempre. A nação tinha edificado a sua fortuna sobre um crime, consagrando-o nos seus códigos como uma necessidade social. 7 Hoje o princípio emancipador, difundido pela civilização, lavrou por toda a parte. Na Europa e na América desapareceu a escravidão. 10 Só nós alimentamos no seio esta ignomínia. A pressão formidável das ideias cresce de dia para dia em volta de nós como um oceano prenhe de tempestades. 13 No meio de tudo isto o que fez o governo? Nada; absolutamente nada! A fala do trono de 1869 é uma vergonha indelével. O Sr. 16 D. Pedro II que, em 1867 e em 1868, havia proclamado solenemente a urgência da reforma abolicionista, que tinha celebrado compromissos públicos com o País e com a Europa, 19 que alardeava de todo modo tendências humanitárias, vem rasgar aos olhos do mundo o único título meritório com que até hoje podia ufanar-se o despotismo de sua autoridade retratando 22 com o silêncio todas as suas promessas para envolver-se em uma abstenção misteriosa e injustificável. E ainda há quem diga que a emancipação neste País não é 25 questão de partidos! Sim, não devia sê-lo. Mas a índole mesquinha de nossa política tem convertido 28 esse reclamo da consciência nacional em arma de hostilidades. Algum dia, quando a liberdade não for mais o privilégio dos brancos no Brasil, quando a posteridade examinar os 31 nossos feitos com o facho da História na mão, a justiça dos vindouros há de gravar na memória do Partido Conservador o estigma da reprovação eterna, porque ele sacrificou aos 34 interesses momentâneos do poder o interesse imorredouro da verdade; aos cálculos estéreis do egoísmo as necessidades imperiosas do futuro, e à pequenhez das considerações pessoais 37 os direitos inalienáveis de uma raça escravizada. Não protesteis! Se a emancipação, em 1867 e em 1868, era tão urgente, que o imperador a mandava estudar pelo 40 conselho d’Estado, e a consignava nos discursos da coroa como a necessidade capital do País, invocando para ela a reflexão do parlamento, como é que de um ano para o outro esta 43 necessidade urgente e imediata torna-se tão secundária, tão indiferente, tão remota que nem sequer merece ser mencionada na fala do trono? 46 Felizmente, porém, há um preceito e um fato de observação que nos animam. O primeiro é que, desde que a verdade chega a 49 amadurecer com os acontecimentos, cada embaraço com que trabalhamos por contrariá-la é um acréscimo de força para a sua multiplicação. O segundo é o imponente movimento do espírito nacional que se vai formando lentamente no País. A servidão em que temos vivido até hoje, a ausência 55 completa de animação política do País, tem-nos habituado a desdenhar esses fatos, que, sob a modéstia de suas feições, 57 ocultam graves sistemas de regeneração pública.
BARBOSA, Ruy (2013-11-06T22:58:59). Obras de Ruy Barbosa. Biblioteca Digital. Edição do Kindle, com adaptações.
Tendo em vista a estrutura gramatical do texto, julgue (C ou E) os itens a seguir.
- 33.
Com manutenção das ideias e da correção gramatical, o último período do texto poderia ser redigido da seguinte forma: A servidão que temos vivido até hoje, assim como a completa ausência de animação política do País, nos têm habituado a desdenhar desses fatos que, sob a modéstia de suas feições, ocultam graves sistemas de regeneração pública.
- 34.
A oração iniciada por “que” (linha 39) introduz uma explicação acerca da oração que inicia o período, sendo classificada como adjetiva explicativa.
- 35.
O sujeito segue o verbo nas seguintes orações do texto: “desapareceu a escravidão” (linha 9), “No meio de tudo isto o que fez o governo?” (linha 13) e “Felizmente, porém, há um preceito e um fato de observação” (linhas 46 e 47).
- 36.
A forma verbal “há” (linha 46) poderia ser substituída, no texto, tanto por existe quanto por existem, sem que isso acarretasse alteração de sentido ao texto, nem incorreção gramatical.
A maior volta ao mundo que eu dei foi na Amazônia (...) Isso explica a copiosa e variada literatura que existe hoje sobre a Terra Verde. Alguns filhos da Amazônia (...), como donos legítimos do assunto, torceram o nariz, com mal dissimulado azedume, aos adventícios que estudaram e descreveram a sua planície.
– Barlaventistas! Era como os denominavam, pejorativamente, no Pará (...)
Nuno Vieira acrescentou: “Literatos, quantos a espiem pelas escotilhas de navios ligeiros, com a preocupação de fazer obra de ciência, não a verão jamais. Para bem vê-la e bem compreendê-la, é questão de querer descer ao chão e escutar com amor os corações subterrâneos”. (...)
A imaginação do homem, na Amazônia, é uma diátese geográfica. (...) O caráter do homem amazônico é a saturação de suas íntimas necessidades: comprimido entre duas infinitas melancolias – a do rio e a da floresta –, ele se contrai sobre si mesmo, para fugir nas asas da imaginação.
JUNIOR, Peregrino. Fisionomia geográfica e social da Amazônia. In: MENESES, Djacir (org.). O Brasil no pensamento brasileiro. Brasília: Senado Federal, 1998, p. 540-541.
Disponível em: <https://www2.senado.leg.br/>. Acesso em: 8 ago. 2020, com adaptações.
Considerando as ideias descritas no texto apresentado, julgue (C ou E) os itens a seguir.
- 37.
Segundo o texto, a imaginação do homem amazônico é uma predisposição imposta pela geografia, que lhe comprime entre as “infinitas melancolias” (linha 17) do rio e da floresta.
- 38.
“Alguns filhos da Amazônia” (linha 3) não dissimulam azedume com relação à produção literária e científica de escritores e pesquisadores adventícios, dado o elevado grau de conhecimento que estes adquiriram.
- 39.
A frase de Nuno Vieira (linhas de 9 a 13) contém crítica aos literatos que acreditam fazer ciência amazônica, quando, na verdade, têm contato superficial com a realidade da região.
- 40.
O texto sugere que a “copiosa e variada literatura” (linha 2) “sobre a Terra Verde” (linha 3) resulta da cooperação acadêmica entre os escritores locais, “donos legítimos do assunto” (linha 4), e os cientistas não amazônicos.
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