Língua Portuguesa — CACD 2018

CEBRASPE · CACD – 1ª fase (TPS) · 40 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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Texto VI

1 A segunda ignorância que tira o merecimento ao amoré não conhecer quem ama, a quem ama. Quantas cousas há nomundo muito amadas, que, se as conhecera quem as ama,4haviam de ser muito aborrecidas! Graças logo ao engano e nãoao amor (...) Deste discurso se segue uma conclusão tão certacomo ignorada; e é que os homens não amam aquilo que7cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é oque cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há.Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes10estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que sãoperfeições, perfeições ama e não defeitos. Cuidais que amaisdiamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais13que amais perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas.Logo, os homens não amam o que cuidam que amam. Dondetambém se segue que amam o que verdadeiramente não há;16porque amam as cousas, não como são, senão como asimaginam; e o que se imagina, e não é, não o há no mundo.

Padre Antonio Vieira. Sermão do Mandato. In: Sermões Escolhidos. Lisboa: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1996, p. 144-5.

Texto VII

1 Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se doisprincípios que se combatem e regulam diversamente asatividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos4tipos do aventureiro e do trabalhador. Já nas sociedadesrudimentares manifestam-se eles, segundo sua predominância,na distinção fundamental entre os povos caçadores ou coletores7e os povos lavradores (...) Existe uma ética do trabalho, comoexiste uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipotrabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente10ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais edetestáveis as qualidades próprias do aventureiro — audácia,imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade,13vagabundagem — tudo, enfim, quanto se relacione com aconcepção espaçosa do mundo, característica desse tipo. Poroutro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma16recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; tantoas energias que visam à estabilidade, à paz, à segurançapessoal quanto os esforços sem perspectiva de rápido proveito19material passam, ao contrário, por viciosos e desprezíveis paraeles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que oideal do trabalhador. Entre esses dois tipos não há, em verdade,22tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical.

Sergio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. (com adaptações).

Texto VIII

1 A maior injustiça que se poderia fazer a umregionalismo como o nosso seria confundi-lo com separatismoou com bairrismo. Com anti-internacionalismo,4antiuniversalismo ou antinacionalismo. Ele é tão contrário aqualquer espécie de separatismo que, mais unionista que oatual e precário unionismo brasileiro, visa a superação do7estadualismo, lamentavelmente desenvolvido aqui pelaRepública — este sim, separatista —, para substituí-lo pornovo e flexível sistema em que as regiões, mais importantes10que os Estados, se completem e se integrem ativa ecriadoramente numa verdadeira organização nacional.

Gilberto Freyre. Manifesto regionalista. Recife: Editora Massangana, 1996, p. 49.

Texto IX

1 O gosto da maravilha e do mistério, quase inseparávelda literatura de viagens na era dos grandes descobrimentosmarítimos, ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos4quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo. Ouporque a longa prática das navegações do Mar Oceano e oassíduo trato das terras e gentes estranhas já tivessem7amortecido neles a sensibilidade para o exótico, ou porque ofascínio do Oriente ainda absorvesse em demasia os seuscuidados sem deixar margem a maiores surpresas, a verdade é10que não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nema esperança deles. E o próprio sonho de riquezas fabulosas,que no resto do hemisfério há de guiar tantas vezes os passos13do conquistador europeu, é em seu caso constantementecerceado por uma noção mais nítida, porventura, daslimitações humanas e terrenas. (...) Não está um pouco nesse16caso o realismo comumente desencantado, voltado sobretudopara o particular e o concreto, que vemos predominar entrenossos velhos cronistas portugueses? Desde Gandavo e,19melhor, desde Pero Vaz de Caminha até, pelo menos, FreiVicente do Salvador, é uma curiosidade relativamentetemperada, sujeita, em geral, à inspiração prosaicamente22utilitária, o que dita as descrições e reflexões de tais autores.(...) Muito mais do que as especulações ou os desvairadossonhos, é a experiência imediata o que tende a reger a noção25do mundo desses escritores e marinheiros.

Sergio Buarque de Holanda. Visão do paraíso. São Paulo: Editora Brasiliense, 1998, p. 1 e 5.

Com base nas ideias desenvolvidas nos textos VI, VII, VIII e IX, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 1.

    Com base nas ideias expressas no texto VIII, é correto concluir que, na opinião de Gilberto Freyre, uma organização baseada em um sistema de regiões poderia substituir o sistema de Estados federados e fortalecer a união nacional, embora a proposta de “regionalismo” contenha o risco do separatismo lamentavelmente desenvolvido pela República por meio do que ele chama de “estadualismo” (l.7).

  2. 2.

    No texto VII, não obstante o emprego dos substantivos “imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem” (l. 12 e 13), Sérgio Buarque de Holanda não atribui conotação negativa à ética da aventura.

  3. 3.

    No texto IX, o autor apresenta os seguintes argumentos para justificar o reduzido “gosto da maravilha e do mistério” (l.1) dos cronistas portugueses do século XVI sobre o Novo Mundo: redução da sensibilidade para o exótico causado pela longa prática de navegações e pelo assíduo trato de terras e gentes estranhas; consciência das limitações humanas e terrenas da presença de riquezas fabulosas presentes em outras partes do continente; realismo desencantado, concreto e utilitário.

    Item anulado pela banca

  4. 4.

    Infere-se do texto VI que, para Padre Antonio Vieira, a ignorância que tira o merecimento ao amor é não conhecer o que se ama nem ter com o que se ama o adequado cuidado.

Texto VI

1 A segunda ignorância que tira o merecimento ao amoré não conhecer quem ama, a quem ama. Quantas cousas há nomundo muito amadas, que, se as conhecera quem as ama,4haviam de ser muito aborrecidas! Graças logo ao engano e nãoao amor (...) Deste discurso se segue uma conclusão tão certacomo ignorada; e é que os homens não amam aquilo que7cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é oque cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há.Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes10estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que sãoperfeições, perfeições ama e não defeitos. Cuidais que amaisdiamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais13que amais perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas.Logo, os homens não amam o que cuidam que amam. Dondetambém se segue que amam o que verdadeiramente não há;16porque amam as cousas, não como são, senão como asimaginam; e o que se imagina, e não é, não o há no mundo.

Padre Antonio Vieira. Sermão do Mandato. In: Sermões Escolhidos. Lisboa: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1996, p. 144-5.

Texto VII

1 Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se doisprincípios que se combatem e regulam diversamente asatividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos4tipos do aventureiro e do trabalhador. Já nas sociedadesrudimentares manifestam-se eles, segundo sua predominância,na distinção fundamental entre os povos caçadores ou coletores7e os povos lavradores (...) Existe uma ética do trabalho, comoexiste uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipotrabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente10ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais edetestáveis as qualidades próprias do aventureiro — audácia,imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade,13vagabundagem — tudo, enfim, quanto se relacione com aconcepção espaçosa do mundo, característica desse tipo. Poroutro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma16recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; tantoas energias que visam à estabilidade, à paz, à segurançapessoal quanto os esforços sem perspectiva de rápido proveito19material passam, ao contrário, por viciosos e desprezíveis paraeles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que oideal do trabalhador. Entre esses dois tipos não há, em verdade,22tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical.

Sergio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. (com adaptações).

Texto VIII

1 A maior injustiça que se poderia fazer a umregionalismo como o nosso seria confundi-lo com separatismoou com bairrismo. Com anti-internacionalismo,4antiuniversalismo ou antinacionalismo. Ele é tão contrário aqualquer espécie de separatismo que, mais unionista que oatual e precário unionismo brasileiro, visa a superação do7estadualismo, lamentavelmente desenvolvido aqui pelaRepública — este sim, separatista —, para substituí-lo pornovo e flexível sistema em que as regiões, mais importantes10que os Estados, se completem e se integrem ativa ecriadoramente numa verdadeira organização nacional.

Gilberto Freyre. Manifesto regionalista. Recife: Editora Massangana, 1996, p. 49.

Texto IX

1 O gosto da maravilha e do mistério, quase inseparávelda literatura de viagens na era dos grandes descobrimentosmarítimos, ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos4quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo. Ouporque a longa prática das navegações do Mar Oceano e oassíduo trato das terras e gentes estranhas já tivessem7amortecido neles a sensibilidade para o exótico, ou porque ofascínio do Oriente ainda absorvesse em demasia os seuscuidados sem deixar margem a maiores surpresas, a verdade é10que não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nema esperança deles. E o próprio sonho de riquezas fabulosas,que no resto do hemisfério há de guiar tantas vezes os passos13do conquistador europeu, é em seu caso constantementecerceado por uma noção mais nítida, porventura, daslimitações humanas e terrenas. (...) Não está um pouco nesse16caso o realismo comumente desencantado, voltado sobretudopara o particular e o concreto, que vemos predominar entrenossos velhos cronistas portugueses? Desde Gandavo e,19melhor, desde Pero Vaz de Caminha até, pelo menos, FreiVicente do Salvador, é uma curiosidade relativamentetemperada, sujeita, em geral, à inspiração prosaicamente22utilitária, o que dita as descrições e reflexões de tais autores.(...) Muito mais do que as especulações ou os desvairadossonhos, é a experiência imediata o que tende a reger a noção25do mundo desses escritores e marinheiros.

Sergio Buarque de Holanda. Visão do paraíso. São Paulo: Editora Brasiliense, 1998, p. 1 e 5.

Texto X

1 A facilidade de comunicações acabou com esses tanques em que floresciam as diferentes culturas. Quando antes se olhava o mapa-múndi e via-se cada país de um colorido4 diferente, podia-se tomar isso ao pé da letra. É verdade que o mundo continuou a ser uma colcha de retalhos; mas são todos da mesma cor. Bombaim, Roma, Tóquio, que se escondiam,7 cada um com seu peculiar mistério, nos compartimentos estanques da sua própria civilização, agora, a julgar pelos filmes, estão perfeitamente padronizados, universalizados.10 E, no mundo de hoje, para desconsolo dos descendentes de Sindbad e de Marco Polo, a única cor local das cidades famosas são os turistas.

Mário Quintana. Mapa-múndi. In: Prosa&Verso. Porto Alegre: Globo, 1978, p. 60.

Com relação aos aspectos linguísticos do texto X, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 5.

    As expressões “tomar isso ao pé da letra” (l.4) e “colcha de retalhos” (l.5) são exemplos da função denotativa da linguagem.

  2. 6.

    A locução pronominal “cada um” (l.7) poderia ser substituída por cada uma, sem prejuízo para a correção gramatical e para a coerência do texto, desde que “padronizados” e “universalizados” (l.9) fossem flexionados no gênero feminino.

  3. 7.

    Caso o pronome “esses” (l.1) fosse substituído por estes, seriam mantidas a correção gramatical do período e as principais informações veiculadas pelo texto, mas haveria maior distanciamento do autor com relação aos “tanques em que floresciam as diferentes culturas” (l.2).

  4. 8.

    Nas referências a “Sindbad” e “Marco Polo” (l.11), ativa-se o mecanismo da intertextualidade para a construção da coerência do texto.

Texto II

1 O Brasil se absteve na votação do projeto deresolução sobre “a deterioração grave e contínua dos direitoshumanos e da situação humanitária na República Árabe da4Síria”. Estamos plenamente conscientes da grave situação dosdireitos humanos na região, que precisa ser devidamenteanalisada por este conselho. Apesar das últimas modificações7no texto, a resolução ainda não reconhece a responsabilidadee não repudia devidamente a participação de vários gruposarmados da oposição (…) por graves violações dos direitos10humanos e do direito humanitário. Essa lacuna podeerroneamente transmitir uma mensagem de tolerância a essasgraves irregularidades e, assim, incentivar ainda mais violência13contra a população civil. É também lamentável a falta deênfase na necessidade de maior envolvimento de todas aspartes nas negociações políticas. Não há solução militar para16a crise e a insistência em ver uma vitória militar como a únicasaída é uma causa real e definitiva para a atual situação que apopulação síria enfrenta. O Brasil salienta que é19responsabilidade primordial das autoridades sírias assegurar osdireitos da população síria. Não obstante, é deresponsabilidade de todos os países evitar maior militarização22do conflito. Agir de outra maneira é compartilhar aresponsabilidade pelas atrocidades enfrentadas por civis naSíria e arredores. O Brasil insta todas as partes envolvidas no25conflito e apoiadores a cumprir com suas obrigações sob odireito internacional humanitário, para permitir acesso irrestritoàs agências humanitárias, e a se absterem de qualquer ação que28possa prolongar o conflito.

Trechos da Nota à imprensa MRE n.º 97, mar./2015.

Texto III

1 O Brasil votou a favor do projeto de resolução sobrea situação dos direitos humanos na Síria adotado hoje, 2 dejulho, pelo Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas4(CDH). O texto adotado, fruto de um minucioso e construtivoesforço negociador que contou com a ativa participaçãobrasileira, buscou aproximar posições e levar em conta7preocupações de países que, como o Brasil, tinham problemasde fundo com o texto anterior. O resultado apresenta maiorequilíbrio em comparação à resolução adotada na última sessão10do CDH, em março último, o que permitiu o voto brasileirofavorável. No texto, estão contempladas a necessidade debuscar uma solução política para o conflito e a13responsabilidade de todas as partes pelo respeito aos direitoshumanos. (…) O Brasil saudou o reconhecimento danecessidade de uma solução política negociada para o conflito,16bem como a responsabilidade primária das autoridades síriaspela garantia dos direitos humanos do povo sírio, respeitandoo direito humanitário internacional. Ressaltou, igualmente, que19a responsabilidade de vários grupos armados de oposição (…)por graves violações de direitos humanos não deve de modoalgum ser minimizada e que todas as atrocidades e seus22perpetradores devem ser condenados. A delegação brasileirano CDH reiterou o compromisso do Brasil em apoiar todos osesforços direcionados à construção de solução política para o25conflito sírio, por meio de negociações transparentes,inclusivas e não sectárias e conclamou todas as partesenvolvidas a assumirem o compromisso de dialogar em boa-fé28e sem precondições.

Trechos da Nota à imprensa MRE n.º 263, jul./2015.

A partir da leitura comparada dos textos II e III, que tratam do posicionamento do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da

ONU, em 2015, a respeito da situação dos direitos humanos na

Síria, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 9.

    Houve mudança na posição brasileira, que passou da neutralidade ou imparcialidade, marcada pela abstenção indicada no texto II, à condenação da ação de grupos armados pelas graves violações dos direitos humanos e do direito humanitário, expressa no texto III.

  2. 10.

    A partir das relações estabelecidas nos textos II e III, os seguintes elementos determinaram a mudança do voto brasileiro: participação brasileira nas negociações; referência à solução política, e não militar, para o conflito; e responsabilidade de todas as partes pelo respeito aos direitos humanos, inclusive da oposição.

  3. 11.

    Com vistas à concisão textual e sem prejuízo para o sentido original do texto II, o trecho “O Brasil salienta que (...) Síria e arredores” (l. 18 a 24) poderia ser reescrito da seguinte forma: O Brasil salienta que, embora incumba ao governo sírio o dever de garantir os direitos de sua população, todos os países devem evitar a escalada militar da crise, responsabilizando-se pela dramática situação da população civil.

  4. 12.

    Depreende-se das ideias contidas no final dos textos II e III que o Brasil propugna por uma solução negociada do conflito sírio com as seguintes características: respeito à confidencialidade das negociações, respeito ao direito humanitário, abstenção de atos que interfiram no conflito, participação de todas as partes envolvidas nas negociações e diálogo honesto e sincero, sem imposições apriorísticas de condições.

Texto I

1 A pena de morte é uma flagrante violação dos direitoshumanos e é incompatível com os princípios do tratamentohumanitário e do devido processo legal. Ouve-se, por vezes, o4argumento de que a pena capital tem efeito dissuasório sobreo crime. No entanto, não há comprovação de que exista relaçãode causalidade entre a pena de morte e o controle efetivo da7criminalidade, nem de que ela seja mais eficaz na redução docrime que a pena de reclusão. A própria Assembleia-Geralreconheceu que não existe prova conclusiva do valor10dissuasório da pena de morte. Condenar alguém à pena demorte nega o direito à vida, consagrado na DeclaraçãoUniversal dos Direitos Humanos.13 A execução é o castigo máximo e irrevogável, e orisco de executar uma pessoa inocente não pode ser ignorado.Trata-se de sanção discriminatória, já que as pessoas pobres,16as pertencentes a minorias raciais, étnicas ou religiosasespecíficas têm maior probabilidade de ser condenadas àmorte. É ainda mais preocupante quando utilizada como19ferramenta política. Estamos particularmente preocupados como fenômeno das condenações em massa, já que, às vezes, apena de morte pode ser utilizada para purgar, controlar e22intimidar uma população e para ameaçar opositores políticos. Condenamos com firmeza a imposição da pena demorte na hipótese de qualquer delito e consideramos25particularmente chocante o recurso a tal pena para punir crimesrelacionados com as drogas. Além de sua completaineficácia na luta contra o tráfico de drogas, a imposição da28pena de morte em casos de delitos relacionados a drogas éclaramente uma violação das obrigações internacionais dedireitos humanos. O castigo deve ser proporcional à31gravidade do delito e jamais ver-se agravado porprocedimentos que submetam os presos a tratamentodesumano, cruel ou degradante.34 Instamos os Estados que ainda aplicam essa forma decastigo a juntarem-se a uma moratória universal da pena demorte, com vistas à sua completa abolição. Também instamos37os Estados que ainda não o tenham feito a aceder ao SegundoProtocolo Facultativo do Pacto Internacional dos Direitos Civise Políticos, destinado a abolir a pena de morte, ou a ratificá-lo.

Discurso da representante permanente do Brasil no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas perante o Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre a incompatibilidade entre a pena de morte e os direitos humanos. Genebra, jun./2015.

Considerando os aspectos linguísticos e estilísticos do texto I, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 13.

    Utilizando, em síntese, os argumentos de que a pena capital viola os direitos humanos, o direito humanitário e o devido processo legal; não tem efeito dissuasório; pode punir pessoas inocentes; tem sido utilizada como ferramenta política; e é ineficaz na luta contra o tráfico de drogas, a diplomata insta os Estados a concluir a negociação do Segundo Protocolo Facultativo do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, destinado a abolir a pena de morte.

  2. 14.

    A diplomata contesta a opinião corrente de que a pena de morte tem efeito dissuasório sobre o crime sob o argumento de que esse tipo de pena é contraproducente, por gerar mais violência, o que, segundo ela, pode ser comprovado pela inexistência de evidências empíricas de relação causal entre a pena de morte e a redução da criminalidade e por sua ineficácia na luta contra o tráfico de drogas.

  3. 15.

    Ao defender a tese de que o castigo deve ser proporcional à gravidade do delito, no último período do terceiro parágrafo, a diplomata introduz novo elemento no curso da argumentação, sem conexão com as ideias expressas nos dois períodos anteriores desse mesmo parágrafo, que tratam do tráfico de drogas.

  4. 16.

    A diplomata emprega a expressão “sanção discriminatória” (l.15) para se referir à seletividade e arbitrariedade de penas de morte aplicadas a indivíduos pobres ou pertencentes a minorias raciais, étnicas ou religiosas, sem estender a interpretação do conceito a práticas de genocídio.

Texto VI

1 A segunda ignorância que tira o merecimento ao amoré não conhecer quem ama, a quem ama. Quantas cousas há nomundo muito amadas, que, se as conhecera quem as ama,4haviam de ser muito aborrecidas! Graças logo ao engano e nãoao amor (...) Deste discurso se segue uma conclusão tão certacomo ignorada; e é que os homens não amam aquilo que7cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é oque cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há.Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes10estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que sãoperfeições, perfeições ama e não defeitos. Cuidais que amaisdiamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais13que amais perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas.Logo, os homens não amam o que cuidam que amam. Dondetambém se segue que amam o que verdadeiramente não há;16porque amam as cousas, não como são, senão como asimaginam; e o que se imagina, e não é, não o há no mundo.

Padre Antonio Vieira. Sermão do Mandato. In: Sermões Escolhidos. Lisboa: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1996, p. 144-5.

Texto VII

1 Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se doisprincípios que se combatem e regulam diversamente asatividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos4tipos do aventureiro e do trabalhador. Já nas sociedadesrudimentares manifestam-se eles, segundo sua predominância,na distinção fundamental entre os povos caçadores ou coletores7e os povos lavradores (...) Existe uma ética do trabalho, comoexiste uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipotrabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente10ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais edetestáveis as qualidades próprias do aventureiro — audácia,imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade,13vagabundagem — tudo, enfim, quanto se relacione com aconcepção espaçosa do mundo, característica desse tipo. Poroutro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma16recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; tantoas energias que visam à estabilidade, à paz, à segurançapessoal quanto os esforços sem perspectiva de rápido proveito19material passam, ao contrário, por viciosos e desprezíveis paraeles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que oideal do trabalhador. Entre esses dois tipos não há, em verdade,22tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical.

Sergio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. (com adaptações).

Texto VIII

1 A maior injustiça que se poderia fazer a umregionalismo como o nosso seria confundi-lo com separatismoou com bairrismo. Com anti-internacionalismo,4antiuniversalismo ou antinacionalismo. Ele é tão contrário aqualquer espécie de separatismo que, mais unionista que oatual e precário unionismo brasileiro, visa a superação do7estadualismo, lamentavelmente desenvolvido aqui pelaRepública — este sim, separatista —, para substituí-lo pornovo e flexível sistema em que as regiões, mais importantes10que os Estados, se completem e se integrem ativa ecriadoramente numa verdadeira organização nacional.

Gilberto Freyre. Manifesto regionalista. Recife: Editora Massangana, 1996, p. 49.

Texto IX

1 O gosto da maravilha e do mistério, quase inseparávelda literatura de viagens na era dos grandes descobrimentosmarítimos, ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos4quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo. Ouporque a longa prática das navegações do Mar Oceano e oassíduo trato das terras e gentes estranhas já tivessem7amortecido neles a sensibilidade para o exótico, ou porque ofascínio do Oriente ainda absorvesse em demasia os seuscuidados sem deixar margem a maiores surpresas, a verdade é10que não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nema esperança deles. E o próprio sonho de riquezas fabulosas,que no resto do hemisfério há de guiar tantas vezes os passos13do conquistador europeu, é em seu caso constantementecerceado por uma noção mais nítida, porventura, daslimitações humanas e terrenas. (...) Não está um pouco nesse16caso o realismo comumente desencantado, voltado sobretudopara o particular e o concreto, que vemos predominar entrenossos velhos cronistas portugueses? Desde Gandavo e,19melhor, desde Pero Vaz de Caminha até, pelo menos, FreiVicente do Salvador, é uma curiosidade relativamentetemperada, sujeita, em geral, à inspiração prosaicamente22utilitária, o que dita as descrições e reflexões de tais autores.(...) Muito mais do que as especulações ou os desvairadossonhos, é a experiência imediata o que tende a reger a noção25do mundo desses escritores e marinheiros.

Sergio Buarque de Holanda. Visão do paraíso. São Paulo: Editora Brasiliense, 1998, p. 1 e 5.

Com relação aos aspectos linguísticos do texto VII, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 17.

    O trecho “tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical” (l.22) exprime uma relação de proporcionalidade entre “uma oposição absoluta” e “uma incompreensão radical”.

  2. 18.

    O acento indicativo de crase utilizado à linha 17 poderia ser suprimido, mantendo-se a correção gramatical e as principais informações do texto, tendo em vista a variação, no português do Brasil, da transitividade do verbo visar com a acepção ter em vista, ter como fim ou objetivo.

    Item anulado pela banca

  3. 19.

    Na variedade culta da língua portuguesa falada ou escrita no Brasil, além da ocorrência de expressões como “podem assinalar-se” (l.1), em que o pronome aparece em ênclise à forma verbal infinitiva, verifica-se a ocorrência de próclise a essa forma verbal — podem se assinalar —, ambas consideradas corretas pela gramática.

  4. 20.

    Infere-se do texto que o homem aventureiro é um tipo belicoso, contrário “à estabilidade, à paz, à segurança pessoal” (l. 17 e 18), e materialista, pois concentra esforços no “rápido proveito material” (l. 18 e 19).

Texto XI

1 Até meados do século XIX, a classe que traficaadquire bens para convertê-los em lucro e benefício. Daí emdiante, ela será outra. Um traço para distinguir as duas fases já4foi lembrado: o despertar do entorpecimento que lhe causavaa predominância social da classe proprietária, por sua vez, nacúpula, recoberta pelo estamento dos que mandam, governam7e dirigem a política. Mas que não haja equívoco: o arrastar nasombra denunciava-lhe prestígio negativo, oriundo dacomposição de estrangeiros entre seus membros e do tipo de10negócios a que se dedicava, sobretudo no comércio negreiro.Não que vivesse alheia à importância econômica ou àeficiência no trato do sistema. Era ela a categoria dinâmica da13economia, a que lhe dava impulso à energia, financiando aprodução, com o fornecimento de crédito e escravos.Sobretudo, armava o elo que ligava o café ao comércio16mundial, polo diretor, em última instância, da economianacional, dependente de flutuação de centros de decisões forado país. De outro lado, comunicava às cidades e ao campo a19modernização, de nível europeu, de mercadorias, e, por viadelas, de costumes, modas e hábitos de consumo. Estava nasombra, mas não lhe faltava atividade, vibração nervosa e22energia. Por via desse subterrâneo pulsar, ligava-se ao estratodirigente, o estamento, com repulsa e, não raro, em oposiçãode estilos de vida, mas em íntima compreensão, além da zona25dos salões e dos palácios, aos interesses materiais. Assim éque, antes de 1850, a arquitetura política, caracterizada nocentralismo, servia mais ao grupo dos negociantes,28comissários, traficantes de escravos, importadores eexportadores, do que aos isolados produtores e fazendeiros.Servia-a, também, a estabilidade monetária, quebrada de31maneira grave com a agitação de fazendeiros e especuladoresindustriais no fim do império. Houve um momento em que ela— a classe lucrativa — se emancipou, passou a viver de seu34próprio impulso, sem se disfarçar ou mascarar-se em traçossecundários de outra classe, detentora de maior expressãosocial, ou do estrato monopolizador do prestígio político. Sobe37uma classe e dentro dela elevam-se muitos aspirantes a essacamada. Individualmente, é o momento da crise — o homemescolhe o seu caminho, desdenhando o curso batido e40frequentado. Socialmente, toda uma camada quer os bens davida, materiais e ideais, sem arrimos ou auxílios, agora vistoscomo ilegítimos. O empresário faz-se na cidade, conquista43títulos de nobreza e cadeiras no parlamento. Foi nestemomento que a surpreendeu Machado de Assis, mal inclinadoa ela por força de seu preconceito, nutrido de tradição. No seu46sarcasmo, ferindo-a de zombarias e riso, ele vê um mundo quecresce a sua frente, transformando a sociedade — ele tudo vê,com escândalo, repugnância e indignação. O dinheiro,49avassalando os negócios, invade as consciências,infundindo torpeza em toda parte, na queda de escrúpulos,virtudes e valores.

Raymundo Faoro. Lucro e negócios — classe lucrativa. In: Machado de Assis — a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974. p. (com adaptações).

Ainda considerando os sentidos e os aspectos linguísticos do texto XI, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 21.

    A correção gramatical e os sentidos do texto seriam preservados caso o trecho “ligava-se ao estrato dirigente, o estamento, com repulsa” (l. 22 e 23) fosse reescrito da seguinte forma: relacionava-se com a camada que estava no poder, à corte, com aversão.

  2. 22.

    No período “Sobe uma classe e dentro dela elevam-se muitos aspirantes a essa camada” (l. 36 a 38), os termos “uma classe” e “muitos aspirantes a essa camada” exercem função de sujeito nas orações em que se inserem.

  3. 23.

    Nas expressões “seu preconceito” (l.45) e “seu sarcasmo” (l. 45 e 46), o pronome possessivo remete a referentes distintos.

  4. 24.

    No trecho “toda uma camada quer os bens da vida” (l. 40 e 41), o artigo indefinido foi empregado como item de realce, razão por que sua eliminação não prejudicaria a correção gramatical nem o sentido original do texto.

Texto XI

1 Até meados do século XIX, a classe que traficaadquire bens para convertê-los em lucro e benefício. Daí emdiante, ela será outra. Um traço para distinguir as duas fases já4foi lembrado: o despertar do entorpecimento que lhe causavaa predominância social da classe proprietária, por sua vez, nacúpula, recoberta pelo estamento dos que mandam, governam7e dirigem a política. Mas que não haja equívoco: o arrastar nasombra denunciava-lhe prestígio negativo, oriundo dacomposição de estrangeiros entre seus membros e do tipo de10negócios a que se dedicava, sobretudo no comércio negreiro.Não que vivesse alheia à importância econômica ou àeficiência no trato do sistema. Era ela a categoria dinâmica da13economia, a que lhe dava impulso à energia, financiando aprodução, com o fornecimento de crédito e escravos.Sobretudo, armava o elo que ligava o café ao comércio16mundial, polo diretor, em última instância, da economianacional, dependente de flutuação de centros de decisões forado país. De outro lado, comunicava às cidades e ao campo a19modernização, de nível europeu, de mercadorias, e, por viadelas, de costumes, modas e hábitos de consumo. Estava nasombra, mas não lhe faltava atividade, vibração nervosa e22energia. Por via desse subterrâneo pulsar, ligava-se ao estratodirigente, o estamento, com repulsa e, não raro, em oposiçãode estilos de vida, mas em íntima compreensão, além da zona25dos salões e dos palácios, aos interesses materiais. Assim éque, antes de 1850, a arquitetura política, caracterizada nocentralismo, servia mais ao grupo dos negociantes,28comissários, traficantes de escravos, importadores eexportadores, do que aos isolados produtores e fazendeiros.Servia-a, também, a estabilidade monetária, quebrada de31maneira grave com a agitação de fazendeiros e especuladoresindustriais no fim do império. Houve um momento em que ela— a classe lucrativa — se emancipou, passou a viver de seu34próprio impulso, sem se disfarçar ou mascarar-se em traçossecundários de outra classe, detentora de maior expressãosocial, ou do estrato monopolizador do prestígio político. Sobe37uma classe e dentro dela elevam-se muitos aspirantes a essacamada. Individualmente, é o momento da crise — o homemescolhe o seu caminho, desdenhando o curso batido e40frequentado. Socialmente, toda uma camada quer os bens davida, materiais e ideais, sem arrimos ou auxílios, agora vistoscomo ilegítimos. O empresário faz-se na cidade, conquista43títulos de nobreza e cadeiras no parlamento. Foi nestemomento que a surpreendeu Machado de Assis, mal inclinadoa ela por força de seu preconceito, nutrido de tradição. No seu46sarcasmo, ferindo-a de zombarias e riso, ele vê um mundo quecresce a sua frente, transformando a sociedade — ele tudo vê,com escândalo, repugnância e indignação. O dinheiro,49avassalando os negócios, invade as consciências,infundindo torpeza em toda parte, na queda de escrúpulos,virtudes e valores.

Raymundo Faoro. Lucro e negócios — classe lucrativa. In: Machado de Assis — a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974. p. (com adaptações).

Considerando as ideias e os aspectos linguísticos do texto XI, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 25.

    De acordo com o texto, além do exercício da direção do poder político, à classe proprietária cabia dinamizar a economia, relegando à sombra a classe sustentada pelo tráfico.

  2. 26.

    Os termos “categoria dinâmica” (l.12), “classe lucrativa” (l.33) e “O empresário” (l.42) são expressões usadas para construir referências relativas a um mesmo campo semântico.

  3. 27.

    Para o autor, Machado de Assis capta, em sua literatura, a decadência da classe empresarial, representando-lhe a “queda de escrúpulos, virtudes e valores” (l. 50 e 51).

  4. 28.

    Na frase “o arrastar na sombra denunciava-lhe prestígio negativo” (l. 7 e 8), a substituição do pronome oblíquo “lhe” por a ela prejudicaria a correção gramatical do texto.

Texto IV

1 Nossos blocos econômicos concordaram em inaugurar nova etapa negociadora do acordo comercial. O acordo deverá incluir compromissos ambiciosos de redução4 tarifária e medidas de superação dos entraves não tarifários e outras distorções ou barreiras ao comércio. As regras de origem dos produtos devem ser7 estabelecidas de forma clara e simples, e os mecanismos de certificação e verificação devem permitir o funcionamento transparente de administração das regras de origem, sem dar10 margem a decisões discricionárias que venham a criar obstáculos desnecessários ao comércio. Na esfera de investimentos, o acordo deverá13 estabelecer um ambiente conducente ao fortalecimento dos fluxos entre ambos os blocos econômicos. Para tanto, deverão ser buscadas medidas contra expropriação arbitrária, com base16 em regras precisas e estáveis do Estado de direito.

Texto V

1 A conclusão exitosa das negociações do acordo comercial entre nossos blocos econômicos é uma das prioridades da política externa. O potencial de exportação e de4 investimentos será consideravelmente incrementado por meio do melhor acesso a mercados e da progressiva liberalização do comércio.7 Em que pesem as novas oportunidades, Vossa Excelência deverá propor que o acordo preveja mecanismos de salvaguarda a serem aplicados na hipótese de aumento brusco10 e excessivo de importações que possam causar sério dano à estrutura produtiva de uma das partes. A delegação do outro bloco regional poderá propor13 que as negociações comerciais levem em consideração repercussões em matéria de meio ambiente, responsabilidade social e questões trabalhistas, com medidas de proteção16 àqueles setores e de sanções e compensações em caso de violação. Caso o assunto seja apresentado nesses termos, Vossa Excelência deverá propor que se reconheça a19 possibilidade de abordagens distintas, consignadas nas respectivas legislações nacionais, e enfatizar o tratamento positivo da questão, no sentido de reduzir o viés punitivo e22 privilegiar possibilidades de cooperação, com vistas ao fortalecimento institucional e ao intercâmbio de experiências. Os mecanismos de solução de controvérsias devem25 ser claros e transparentes, incluindo mecanismos de monitoramento e verificação, podendo inclusive prever a possibilidade de acesso a empresas de capital privado.Com relação aos aspectos linguísticos e textuais do texto IV, queestá sendo negociado em uma conferência multilateral, e dotexto V, que compõe um telegrama de instruções para essaconferência multilateral recebido da secretaria de Estado pordeterminada embaixada, julgue (C ou E) os seguintes itens.
  1. 29.

    Conclui-se da leitura do texto V que a inclusão de temas como “meio ambiente, responsabilidade social e questões trabalhistas” (l. 14 e 15) é de interesse do país que expediu o telegrama e que o embaixador deve modular o tratamento do assunto com a proposição de novos elementos.

  2. 30.

    O último parágrafo do texto V poderia ser reformulado com a seguinte redação, sem prejuízo das informações nele veiculadas: As modalidades de solução de litígios devem ser estabelecidas de maneira objetiva, previsível e de forma a contemplar mecanismos de verificação e monitoramento, permitindo também que companhias privadas façam uso de tais instrumentos.

  3. 31.

    De acordo com o texto IV, na esfera de investimentos, o acordo em negociação deverá buscar medidas contra toda forma de expropriação, com base em regras precisas e estáveis do Estado de direito.

  4. 32.

    O texto V recomenda uma resposta de sentido punitivo ao “aumento brusco e excessivo de importações” (l. 9 e 10) que resultaria em “sério dano à estrutura produtiva” (l. 10 e 11) da outra parte, razão por que a substituição do termo “salvaguarda” (l.9) por sanção preservaria o sentido original do texto.

Texto XI

1 Até meados do século XIX, a classe que traficaadquire bens para convertê-los em lucro e benefício. Daí emdiante, ela será outra. Um traço para distinguir as duas fases já4foi lembrado: o despertar do entorpecimento que lhe causavaa predominância social da classe proprietária, por sua vez, nacúpula, recoberta pelo estamento dos que mandam, governam7e dirigem a política. Mas que não haja equívoco: o arrastar nasombra denunciava-lhe prestígio negativo, oriundo dacomposição de estrangeiros entre seus membros e do tipo de10negócios a que se dedicava, sobretudo no comércio negreiro.Não que vivesse alheia à importância econômica ou àeficiência no trato do sistema. Era ela a categoria dinâmica da13economia, a que lhe dava impulso à energia, financiando aprodução, com o fornecimento de crédito e escravos.Sobretudo, armava o elo que ligava o café ao comércio16mundial, polo diretor, em última instância, da economianacional, dependente de flutuação de centros de decisões forado país. De outro lado, comunicava às cidades e ao campo a19modernização, de nível europeu, de mercadorias, e, por viadelas, de costumes, modas e hábitos de consumo. Estava nasombra, mas não lhe faltava atividade, vibração nervosa e22energia. Por via desse subterrâneo pulsar, ligava-se ao estratodirigente, o estamento, com repulsa e, não raro, em oposiçãode estilos de vida, mas em íntima compreensão, além da zona25dos salões e dos palácios, aos interesses materiais. Assim éque, antes de 1850, a arquitetura política, caracterizada nocentralismo, servia mais ao grupo dos negociantes,28comissários, traficantes de escravos, importadores eexportadores, do que aos isolados produtores e fazendeiros.Servia-a, também, a estabilidade monetária, quebrada de31maneira grave com a agitação de fazendeiros e especuladoresindustriais no fim do império. Houve um momento em que ela— a classe lucrativa — se emancipou, passou a viver de seu34próprio impulso, sem se disfarçar ou mascarar-se em traçossecundários de outra classe, detentora de maior expressãosocial, ou do estrato monopolizador do prestígio político. Sobe37uma classe e dentro dela elevam-se muitos aspirantes a essacamada. Individualmente, é o momento da crise — o homemescolhe o seu caminho, desdenhando o curso batido e40frequentado. Socialmente, toda uma camada quer os bens davida, materiais e ideais, sem arrimos ou auxílios, agora vistoscomo ilegítimos. O empresário faz-se na cidade, conquista43títulos de nobreza e cadeiras no parlamento. Foi nestemomento que a surpreendeu Machado de Assis, mal inclinadoa ela por força de seu preconceito, nutrido de tradição. No seu46sarcasmo, ferindo-a de zombarias e riso, ele vê um mundo quecresce a sua frente, transformando a sociedade — ele tudo vê,com escândalo, repugnância e indignação. O dinheiro,49avassalando os negócios, invade as consciências,infundindo torpeza em toda parte, na queda de escrúpulos,virtudes e valores.

Raymundo Faoro. Lucro e negócios — classe lucrativa. In: Machado de Assis — a pirâmide e o trapézio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974. p. (com adaptações).

Texto XII

1 Impugnada a todo instante pela escravidão a ideologialiberal, que era a das jovens nações emancipadas da América,descarrilava. Seria fácil deduzir o sistema de seus4contrassensos, todos verdadeiros, muitos dos quais agitaram aconsciência teórica e moral de nosso século XIX. Já vimosuma coleção deles. No entanto, estas dificuldades7permaneciam curiosamente inessenciais. O teste da realidadenão parecia importante. É como se coerência e generalidadenão pesassem muito, ou como se a esfera da cultura ocupasse10uma posição alterada, cujos critérios fossem outros — masoutros em relação a quê? Por sua mera presença, a escravidãoindicava a impropriedade das ideias liberais; o que, entretanto,13é menos que orientar-lhes o movimento. Sendo embora arelação produtiva fundamental, a escravidão não era o nexoefetivo da vida ideológica. A chave desta era diversa. Para16descrevê-la é preciso retomar o país como todo.Esquematizando, pode-se dizer que a colonização produziu,com base no monopólio da terra, três classes de população: o19latifundiário, o escravo e o “homem livre”, na verdadedependente. Entre os primeiros dois a relação é clara, é amultidão dos terceiros que nos interessa. Nem proprietários22nem proletários, seu acesso à vida e a seus bens dependematerialmente do favor, indireto ou direto de um grande. Oagregado é a sua caricatura. O favor é, portanto, o mecanismo25através do qual se reproduz uma das grandes classes dasociedade, envolvendo também outra, a dos que têm. Note-seainda que entre estas duas classes é que irá acontecer a vida28ideológica, regida, em consequência, por este mesmomecanismo. Assim, com mil formas e nomes, o favoratravessou e afetou no conjunto a existência nacional,31ressalvada sempre a relação produtiva de base, esta asseguradapela força. Esteve presente por toda parte, combinando-se àsmais variadas atividades, mais e menos afins dele, como34administração, política, indústria, comércio, vida urbana, Corteetc. Mesmo profissões liberais, como a medicina, ouqualificações operárias, como a tipografia, que, na acepção37europeia, não deviam nada a ninguém, entre nós eramgovernadas por ele. E assim como o profissional dependia dofavor para o exercício de sua profissão, o pequeno proprietário40depende dele para a segurança de sua propriedade, e ofuncionário para o seu posto. O favor é a nossa mediaçãoquase universal — e, sendo mais simpático do que o nexo43escravista, a outra relação que a colônia nos legara, écompreensível que os escritores tenham baseado nele a suainterpretação do Brasil, involuntariamente disfarçando a46violência, que sempre reinou na esfera da produção.

Roberto Schwarz. As ideias fora do lugar. In: Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades, 1992 (com adaptações).

No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto XII, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 33.

    Do período “O agregado é a sua caricatura” (l. 23 e 24), é correto inferir que o agregado é uma caricatura de si próprio.

  2. 34.

    A correção gramatical e o sentido do texto seriam preservados caso o período “Assim, com mil formas e nomes, o favor atravessou e afetou no conjunto a existência nacional, ressalvada sempre a relação produtiva de base, esta assegurada pela força.” (l. 29 a 32) fosse assim reescrito: Dessa forma, o favor atravessou e afetou, no conjunto e com mil formas e nomes, a existência nacional, embora a relação produtiva de base estivesse sempre ressalvada e assegurada pela força.

  3. 35.

    Segundo preconiza o Novo Acordo Ortográfico, o vocábulo “contrassensos” (l.4) é grafado conforme as mesmas regras que antissocial.

  4. 36.

    Para o autor, como “mediação quase universal” (l. 41 e 42), o favor possuía não apenas a virtude de compor a base das relações coloniais, mas também servia ideologicamente à elisão, na literatura, da violência que estruturava o modo de produção brasileiro.

Texto VI

1 A segunda ignorância que tira o merecimento ao amoré não conhecer quem ama, a quem ama. Quantas cousas há nomundo muito amadas, que, se as conhecera quem as ama,4haviam de ser muito aborrecidas! Graças logo ao engano e nãoao amor (...) Deste discurso se segue uma conclusão tão certacomo ignorada; e é que os homens não amam aquilo que7cuidam que amam. Por quê? Ou porque o que amam não é oque cuidam; ou porque amam o que verdadeiramente não há.Quem estima vidros, cuidando que são diamantes, diamantes10estima e não vidros; quem ama defeitos, cuidando que sãoperfeições, perfeições ama e não defeitos. Cuidais que amaisdiamantes de firmeza, e amais vidros de fragilidade; cuidais13que amais perfeições angélicas, e amais imperfeições humanas.Logo, os homens não amam o que cuidam que amam. Dondetambém se segue que amam o que verdadeiramente não há;16porque amam as cousas, não como são, senão como asimaginam; e o que se imagina, e não é, não o há no mundo.

Padre Antonio Vieira. Sermão do Mandato. In: Sermões Escolhidos. Lisboa: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 1996, p. 144-5.

Texto VII

1 Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se doisprincípios que se combatem e regulam diversamente asatividades dos homens. Esses dois princípios encarnam-se nos4tipos do aventureiro e do trabalhador. Já nas sociedadesrudimentares manifestam-se eles, segundo sua predominância,na distinção fundamental entre os povos caçadores ou coletores7e os povos lavradores (...) Existe uma ética do trabalho, comoexiste uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipotrabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente10ânimo de praticar e, inversamente, terá por imorais edetestáveis as qualidades próprias do aventureiro — audácia,imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade,13vagabundagem — tudo, enfim, quanto se relacione com aconcepção espaçosa do mundo, característica desse tipo. Poroutro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma16recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; tantoas energias que visam à estabilidade, à paz, à segurançapessoal quanto os esforços sem perspectiva de rápido proveito19material passam, ao contrário, por viciosos e desprezíveis paraeles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que oideal do trabalhador. Entre esses dois tipos não há, em verdade,22tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical.

Sergio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. (com adaptações).

Texto VIII

1 A maior injustiça que se poderia fazer a umregionalismo como o nosso seria confundi-lo com separatismoou com bairrismo. Com anti-internacionalismo,4antiuniversalismo ou antinacionalismo. Ele é tão contrário aqualquer espécie de separatismo que, mais unionista que oatual e precário unionismo brasileiro, visa a superação do7estadualismo, lamentavelmente desenvolvido aqui pelaRepública — este sim, separatista —, para substituí-lo pornovo e flexível sistema em que as regiões, mais importantes10que os Estados, se completem e se integrem ativa ecriadoramente numa verdadeira organização nacional.

Gilberto Freyre. Manifesto regionalista. Recife: Editora Massangana, 1996, p. 49.

Texto IX

1 O gosto da maravilha e do mistério, quase inseparávelda literatura de viagens na era dos grandes descobrimentosmarítimos, ocupa espaço singularmente reduzido nos escritos4quinhentistas dos portugueses sobre o Novo Mundo. Ouporque a longa prática das navegações do Mar Oceano e oassíduo trato das terras e gentes estranhas já tivessem7amortecido neles a sensibilidade para o exótico, ou porque ofascínio do Oriente ainda absorvesse em demasia os seuscuidados sem deixar margem a maiores surpresas, a verdade é10que não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nema esperança deles. E o próprio sonho de riquezas fabulosas,que no resto do hemisfério há de guiar tantas vezes os passos13do conquistador europeu, é em seu caso constantementecerceado por uma noção mais nítida, porventura, daslimitações humanas e terrenas. (...) Não está um pouco nesse16caso o realismo comumente desencantado, voltado sobretudopara o particular e o concreto, que vemos predominar entrenossos velhos cronistas portugueses? Desde Gandavo e,19melhor, desde Pero Vaz de Caminha até, pelo menos, FreiVicente do Salvador, é uma curiosidade relativamentetemperada, sujeita, em geral, à inspiração prosaicamente22utilitária, o que dita as descrições e reflexões de tais autores.(...) Muito mais do que as especulações ou os desvairadossonhos, é a experiência imediata o que tende a reger a noção25do mundo desses escritores e marinheiros.

Sergio Buarque de Holanda. Visão do paraíso. São Paulo: Editora Brasiliense, 1998, p. 1 e 5.

A respeito dos aspectos linguísticos do texto IX, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 37.

    O advérbio “melhor” (l.19) foi empregado pelo autor para retificar conteúdo já enunciado.

  2. 38.

    Nas linhas 9 e 10, “é que” caracteriza-se como expressão expletiva, empregada para realçar o conteúdo “não os inquietam, aqui, os extraordinários portentos, nem a esperança deles” (l. 10 e 11).

  3. 39.

    As formas verbais “tivessem amortecido” (l. 6 e 7) e “absorvesse” (l.8) remetem, respectivamente, às fases final e inicial dos eventos que exprimem.

  4. 40.

    A expressão “porventura” indica que o trecho “por uma noção mais nítida, porventura, das limitações humanas e terrenas” (l. 14 e 15) tem sentido hipotético.

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