Língua Portuguesa — CACD 2013

CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 58 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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1 A Constituição da República tem um buraco. É possível que tenha muitos, mas sou pouco exigente e satisfaço-me com referir-me a um só. Possuímos, segundo dizem os entendidos, três poderes — o Executivo, que é o dono da casa, o Legislativo e o Judiciário,4domésticos, moços de recados, gente assalariada para o patrão fazer figura e deitar empáfia diante das visitas. Resta ainda um quartopoder, coisa vaga, imponderável, mas que é tacitamente considerado o sumário dos outros três. É aí que o carro topa. Há no Brasil um funcionário de atribuições indeterminadas, mas ilimitadas.7 Aí está o rombo na Constituição, rombo a ser preenchido quando ela for revista, metendo-se nele a figura interessante dochefe político, que é a única força de verdade. O resto é lorota. Em escala descendente, a começar no Catete, onde pontifica o chefe açu, e a terminar no último lugarejo do sertão, com um10caudilho, mirim, isto é um país a regurgitar de mandões de todos os matizes e feitios. Está aqui um deputado que é um poço de manha, papagueador quando parola com o eleitorado, mudo na Câmara, gêneroperu; ali está um presidente de estado que outra coisa não tem feito senão apregoar pelas trombetas oficiais as maravilhas que ninguém13vê, mas que ele teve o notável intuito de realizar; temos acolá um advogado ventoinha, equilibrista emérito, camaleão legítimo; vemdepois o comerciante voraz, enriquecido com os favores clandestinos, negociatas escusas e contrabandos; mais distante, avulta amajestade rotunda do industrial insatisfeito, empanturrado pelas propinas que a guerra lhe meteu no bucho.16 Todos eles são mais ou menos chefes. Não se sabe bem de quê, mas certo é que o são. Graúdos, risonhos, nutridos, polidos,escovados, envernizados, lá estão inchando, inchando. São os grossos batráquios da lagoa republicana. (...) Parece-me claro que uma pergunta aqui se impõe: para que tanta gente de palha a ocupar cargos em penca, a roer sinecuras19nesta confederação cinematográfica, em que o poder é a coisa mais centralizada deste mundo, se, desde o tempo dos capitães-mores,um homem só pode administrar, legislar e julgar a contento das populações sertanejas? (...) Peguemos o chefe político, agitemo-lo no ar e berremos o estribilho com que a imprensa, há tempos, nos anda a amolar —22A Constituição da República precisa de uma revisão.

Graciliano Ramos. Linhas Tortas [artigo de março de 1915]. In: Linhas Tortas. Rio de Janeiro: Record, 1976, 4.ª edição, p. 9-10 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto anteriormente apresentado — de Graciliano Ramos —, julgue o item a seguir.

  1. 1.

    O escritor declara-se “pouco exigente” (l.2) e, desse modo, estaria pronto para aceitar qualquer Constituição, desde que estivessem garantidos direitos aos funcionários governamentais mais humildes e à “confederação cinematográfica” (l.19) que pretende fundar.

  2. 2.

    O autor do texto indica que o “quarto poder” é constituído pela figura indeterminada do “chefe político” (l.8 e 21), que é um tipo mandão e presente em diversos segmentos da sociedade, como, por exemplo, o dos advogados e o dos comerciantes.

  3. 3.

    O articulista vale-se de uma “escala descendente” (l.9), para mostrar que há funcionários “de atribuições indeterminadas, mas ilimitadas” (l.6) em todos os níveis, do mais baixo ao mais alto, e que eles formam o que se convencionou chamar de “lagoa republicana” (l.17).

  4. 4.

    Graciliano Ramos comenta que o Poder Judiciário apresenta problemas de natureza constitucional ainda mais sérios do que o Poder Executivo e o Poder Legislativo, uma vez que o Poder Judiciário mantém vínculo forte com o “quarto poder” (l. 4-5).

  5. 5.

    Segundo o autor do texto, o “industrial insatisfeito” (l.15) é vítima de um sistema político com vícios, no qual muitas autoridades sem vocação para administrar eficientemente o país mandam ao mesmo tempo.

1 As 101 crônicas de Comédias da Vida Privada, deLuis Fernando Verissimo, compõem um desses raros livros quecorrespondem ao que diz sua orelha. Reproduzo, por não saber4dizer melhor: “O território imenso, opaco, denso e imprecisoda classe média. Seus heróis anônimos, os grandes e ospequenos gestos, a complicada engenharia familiar, as7fidelidades, as mesas de bar, as angústias, o trágico e o cômicocombinados na estranha sinfonia do cotidiano, salas de jantaronde são decididos destinos com a televisão ligada, vizinhos10barulhentos, enfim...” Só digo algo mais. Luis Fernando, não por escolha,mas por vocação, é escritor de um gueto — o humorismo. Em13toda parte do mundo, o labéu, o rótulo humorista, continuasendo colocado em intelectuais como um sinal menor ou um“à parte”. Nem adianta lembrar que símbolos maiores de16intelectuais na França são Molière e Rabelais; na Irlanda eInglaterra, Swift e Shaw, e que o gênio ímpar da Espanha éCervantes. No Brasil, então, país que teima em ser19subdesenvolvido apesar de oitava economia do mundo,humorista é ator de peruadas, simpático, sim, divertido, sim,mas deixa pra lá. (...)22 Previno o leitor: ao dar, como eu, insopitáveisgargalhadas durante a leitura (e olha que é difícil rir sozinho)de Comédias da Vida Privada, não esqueça que está diante25do Magnus opum de um escritor. Não se preocupe em comochamar ou em como chamam o livro: crônicas, contos,reflexões, piadas, críticas. E não acredite na aparente28fragmentação. O livro é uno e denso. Ridente e reflexivo deponta a ponta e pungente e metafísico inúmeras vezes.

Millôr Fernandes. A comédia da classe média. In: Apresentações. Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 71-2 (com adaptações).

Julgue o item a seguir, a respeito das ideias desenvolvidas no texto acima.

  1. 6.

    O autor do texto alerta o leitor para não acreditar na aparente fragmentação do livro Comédias da Vida Privada, visto que o mesmo julgamento é feito em relação a obras de humoristas franceses, como Molière e Rabelais.

  2. 7.

    No primeiro parágrafo do texto, o autor reproduz um trecho da orelha do livro Comédias da Vida Privada, escrita por ele, e informa só ter mais uma coisa a dizer sobre Luis Fernando Verissimo: “é escritor de um gueto — o humorismo”.

  3. 8.

    Millôr Fernandes comenta e critica a percepção, presente em “toda parte do mundo” (l.13), de que o intelectual e o humorista se diferenciam, desempenhando este uma atividade menos importante do que a daquele.

  4. 9.

    Millôr Fernandes critica a classe média por sua incapacidade de rir de si mesma e por não ler livros unos e densos como é a obra Comédias da Vida Privada.

  5. 10.

    No comentário sobre Comédias da Vida Privada, Millôr Fernandes explica que o humorismo levou Luis Fernando Verissimo a defender visões políticas e a criticar costumes sociais que acabaram por forçá-lo a viver em um gueto.

Texto I

1 A civilização deu uma importância extraordinária à escrita e, muitas vezes, quando nos referimos à linguagem, só pensamos nesse seu aspecto. É preciso não perder de vista,4 porém, que lhe há ao lado, mais antiga, mais básica, uma expressão oral. A rigor, a linguagem escrita não passa de um7 sucedâneo, de um ersatz da fala. Esta é que abrange a comunicação linguística em sua totalidade, pressupondo, além da significação dos vocábulos e das frases, a entoação, os10 elementos subsidiários da mímica, incluindo-se aí o jogo fisionômico. Por isso, para bem se compreender a natureza e o funcionamento da linguagem humana, é preciso partir da13 apreciação da linguagem oral e examinar, em seguida, a escrita como uma espécie de linguagem mutilada, cuja eficiência depende da maneira por que conseguimos obviar à falta16 inevitável de determinados elementos expressivos.

Joaquim Mattoso Câmara Jr. Manual de expressão oral e escrita. 27.ª ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

Texto II

1 A palavra falada é imediata, local e geral. Quando falamos, falamos para ser ouvidos imediatamente, com quem está ali ao pé de nós, e de modo a que sejamos facilmente4 entendidos dele, que sabemos quem é, ou calculamos que sabemos, e que pode ser toda a gente, devendo nós pois falar como se fosse qualquer. A palavra escrita é mediata, longínqua7 e particular. Quando escrevemos, dirigimo-nos a quem não nos vai ouvir, que é ler, logo; a quem não está ao pé de nós; a quem poderá entender-nos e não a quem tem que entender-nos, tendo10 nós pois primeiro que o entender a ele. Em resumo, a palavra falada é um fenômeno social, a escrita um fenômeno cultural; a palavra falada um fenômeno13 democrático, a escrita um aristocrático. São diferentes em substância: são pois forçosamente diferentes os seus respectivos meios e fins. (…)16 Na palavra falada, temos que ser, em absoluto, do nosso tempo e lugar; não podemos falar como Vieira, pois nos arriscamos ou ao ridículo ou à incompreensão. Não podemos19 pensar como Descartes, pois nos arriscamos ao tédio alheio. A palavra escrita, ao contrário, não é para quem a ouve, busca quem a ouça; escolhe quem a entenda, e não se22 subordina a quem a escolhe.

Fernando Pessoa. A língua portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 56-7 e 72.

No que se refere a aspectos linguísticos dos textos I e II, julgue o item a seguir.

  1. 11.

    No trecho “a que sejamos facilmente entendidos dele” (texto II, l.3-4), o elemento “dele” expressa o agente da ação expressa pela forma verbal “entendidos” e equivale a por ele.

  2. 12.

    No trecho “os elementos subsidiários da mímica”, (texto I, l.9-10), o termo “da mímica” exerce função de complemento do substantivo “subsidiários”.

  3. 13.

    A oração “que pode ser toda a gente” (texto II, l.5) exerce, no período em que ocorre, a função de complemento da forma verbal “calculamos” (l.4), juntamente com a oração “que sabemos” (l.4-5).

  4. 14.

    No texto II, a conjunção “pois”, em suas cinco ocorrências (l.5, 10, 14, 17 e 19), denota conclusão, razão por que poderia ser corretamente isolada por vírgulas em todas as cinco ocorrências.

  5. 15.

    No texto I, no segmento “lhe há ao lado” (l.4), o pronome “lhe” tem valor possessivo e seu antecedente é o núcleo nominal “linguagem” (l.2).

1 Na trilha do Verdeamarelismo, mas bem cedoconvertido aos chamados da Antropofagia de Oswald e Tarsila,está Raul Bopp, cuja rapsódia amazônica, Cobra Norato, é4o necessário complemento do Manifesto Antropófago.A estrutura da obra é épico-dramática e nela o poeta narra asaventuras de um jovem na selva amazônica, depois de ter7estrangulado a Cobra Norato e ter entrado no corpo domonstruoso animal. Cruzam a história descrições mitológicasde um mundo bárbaro sob violentas transformações.10 Aproximando Cobra Norato de outras obras míticasdo Modernismo, diz, com acerto, Wilson Martins: “Observe-seque o mito da viagem no tempo e no espaço é a viga-mestra de13Macunaíma, Martim Cererê, Cobra Norato: o Modernismofoi uma escola ambulante e perambulante, fascinado peladescoberta geográfica.”16 Diálogos do protagonista com os seres espantados dafloresta e do rio formam o coro cósmico de Cobra Norato,poema ainda vivo como documento do primitivismo entre nós.19O telúrico interiorizado e sentido como libido e instinto demorte: essa, a significação da voga africanizante da Parisanterior à I Guerra; no Brasil, o reencontro com as realidades22arcaicas ou primordiais fazia-se, isto é, pretendia-se fazer semintermediários. Era a faixa mais ocidentalizada da culturanacional que se voltava para o desfrute estético dos temas e da25linguagem indígena e negra.

Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1986, p. 416 (com adaptações).

No que concerne às ideias e a aspectos gramaticais do texto acima, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 16.

    Infere-se do texto que, ao agregar o poema Cobra Norato às obras míticas do Modernismo brasileiro, Alfredo Bosi pretende demonstrar que as tendências literárias na França, como a voga africanizante, não influenciaram a ficção modernista brasileira.

  2. 17.

    De acordo com o texto, Raul Bopp, um dos primeiros escritores a aderir ao Movimento Antropófago, já demonstrava, em sua obra Cobra Norato, alinhamento ao primitivismo literário, tendência que o aproximaria do movimento mais radicalmente nacionalista: o Movimento Verde-amarelo.

  3. 18.

    A ausência de vírgula na denominação “Antropofagia de Oswald e Tarsila” (l.2) indica que o autor do texto considera que, além de Raul Bopp, só Oswald e Tarsila seguiram, com rigor, os postulados do Manifesto Antropófago.

  4. 19.

    Haveria prejuízo para a precisão narrativa se as locuções verbais “ter estrangulado” (l.6-7) e “ter entrado” (l.7) fossem substituídas, respectivamente, por ser estrangulada e entrar.

Cobra Norato

XXVIII

1A floresta se avolumaMovem-se espantalhos monstrosriscando sombras estranhas pelo chão4Árvores encapuzadas soltam fantasmascom visagens do lá se vaiO luar amacia o mato sonolento7Lá adianteo silêncio vai marchando com uma banda de músicaFloresta ventríloqua brinca de cidade10Movem-se arbustos cúbicossob arcadas de samaúmaPalmeiras aneladas se abanam13Jaburus de monóculo namoram estrelas míopesJoão Cutuca belisca árvoresPassa lá embaixo a escolta do Rei de Copas16Chegam de longe ruídos anônimosO mato se acordaCipós fazem intrigas no alto dos galhos19Desatam-se em gargalhadinhasUma árvore telegrafou para outra:psi psi psi22Desembarcam vozes de contrabandoSapos soletram as leis da florestaLá em cima25um curió toca flautaEstira-se o rioO mato é um acompanhamento28Desfiam-se as distânciasentre manchas de neblina― Lá vai indo um navio, compadre!31Jaquirana-boia apitaUma árvore abana adeus do alto de um galho XXIX― Escuta, compadre34O que se vê não é navio É a Cobra Grande― Mas o casco de prata? As velas embojadas de vento?Aquilo é a Cobra Grande37Quando começa a lua cheia ela apareceVem buscar moça que ainda não conheceu homemA visagem vai se sumindo40pras bandas de MacapáNeste silêncio de águas assustadasparece que ainda ouço um soluço quebrando-se na noite43― Coitadinha da moçaComo será o nome dela?Se eu pudesse ia assistir o casamento46― Casamento de Cobra Grande chama desgraça, compadreSó se a gente arranjar mandinga de defuntoUé! Então vamos49Lobisomem está de festa no cemitério

Raul Bopp. Cobra Norato. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009, p. 44-9.

A respeito das relações semântico-sintáticas no poema Cobra Norato, de Raul Bopp, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 20.

    No verso “Vem buscar moça que ainda não conheceu homem” (v.38), o atributo do núcleo nominal “moça” é expresso por estrutura oracional que corresponde a uma perífrase.

  2. 21.

    No diálogo expresso nos versos de 43 a 46, entre as marcas da linguagem coloquial, inclui-se a regência do verbo chamar como verbo não pronominal, o que resulta em acepção diferente da que seria coerente com os sentidos produzidos.

  3. 22.

    Entre as expressões que compõem o campo semântico associado a floresta assombrada, imagem a que remete a leitura do fragmento apresentado, incluem-se: “espantalhos monstros” (v.2), “sombras estranhas” (v.3), “Árvores encapuzadas” (v.4), “fantasmas” (v.4), “visagens do lá se vai” (v.5), “Floresta ventríloqua” (v.9), “ruídos anônimos” (v.16).

  4. 23.

    A liberdade do poeta no emprego dos sinais de pontuação é evidenciada, por exemplo, no trecho entre os versos 46 e 49, em que não é marcada a mudança de interlocutor no diálogo apresentado.

1 Como estranhar que haja aqui, sobrenadando em todaexpressão, um ânimo nacional?... Brasileiro... Brasil...! Por quenão no amar, constante, bem explicitamente, dolorosa, ou4voluptuosamente, como à essência de mim mesmo, e à vida aque me pego?... Chamem-me latino, ocidental... O que me estána voz percebida e entendida será isto mesmo, pois que só7traduz insuficiência de expressão, para uma mentalidade e umtom de sentimento jamais encontrados nas muitas páginas queli e nas gentes estranhas com quem tratei. De fato, procurei10nutrir o espírito e ter matéria de pensamento a par do meuséculo; camadas e camadas se depositaram, assim, sobre amente primitiva. Mas, quando me vem o momento de pensar13pensamento realmente meu e, sobretudo, quando me fala orecôndito sentimento, encontro-me com o nódulo do meu ser,fórmula de mim mesmo, em que me reconheço desde que se16me iluminou a consciência: a alma banalmente simples e, porisso, intensa e livre, a mesma em que vivi a vida sincera eestuante de ontem, única — inteira e completa, de quando19afrontava a experiência na solidez de perfeita unidadeespiritual. Ora, essa unidade, em que me reconheço, é aquilo22mesmo que, na consciência, reflete a singela tradição nacionaldos meus dias de infância e de adolescência. (...)

Manoel Bonfim. O Brasil na América. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, 2.ª edição, p. 28-9.

Com relação às ideias desenvolvidas no texto acima, julgue o item a seguir.

  1. 24.

    O autor recusa ser denominado de latino ou de ocidental, uma vez que as origens dos atributos de tais denominações são muito diferentes das que compõem a caracterização de ser brasileiro.

  2. 25.

    Segundo o autor do texto, a unidade, o ânimo nacional e a essência de si mesmo estão refletidos nos dias da sua infância e da sua adolescência brasileiras.

  3. 26.

    O autor do texto comenta haver encontrado “insuficiência de expressão” (l.7) em todas as obras de escritores que não tiveram a percepção desenvolvida para o ânimo nacional.

  4. 27.

    Manoel Bonfim considera peculiar o fato de que ser brasileiro o esteja impedindo de conhecer melhor países estrangeiros e “gentes estranhas” (l.9).

  5. 28.

    Segundo o texto apresentado, o momento de “pensar pensamento” (l.12-13) realmente seu só ocorre a Manoel Bonfim quando ele recorda os dias da infância e da adolescência brasileiras.

Texto I

1 A civilização deu uma importância extraordinária à escrita e, muitas vezes, quando nos referimos à linguagem, só pensamos nesse seu aspecto. É preciso não perder de vista,4 porém, que lhe há ao lado, mais antiga, mais básica, uma expressão oral. A rigor, a linguagem escrita não passa de um7 sucedâneo, de um ersatz da fala. Esta é que abrange a comunicação linguística em sua totalidade, pressupondo, além da significação dos vocábulos e das frases, a entoação, os10 elementos subsidiários da mímica, incluindo-se aí o jogo fisionômico. Por isso, para bem se compreender a natureza e o funcionamento da linguagem humana, é preciso partir da13 apreciação da linguagem oral e examinar, em seguida, a escrita como uma espécie de linguagem mutilada, cuja eficiência depende da maneira por que conseguimos obviar à falta16 inevitável de determinados elementos expressivos.

Joaquim Mattoso Câmara Jr. Manual de expressão oral e escrita. 27.ª ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

Texto II

1 A palavra falada é imediata, local e geral. Quando falamos, falamos para ser ouvidos imediatamente, com quem está ali ao pé de nós, e de modo a que sejamos facilmente4 entendidos dele, que sabemos quem é, ou calculamos que sabemos, e que pode ser toda a gente, devendo nós pois falar como se fosse qualquer. A palavra escrita é mediata, longínqua7 e particular. Quando escrevemos, dirigimo-nos a quem não nos vai ouvir, que é ler, logo; a quem não está ao pé de nós; a quem poderá entender-nos e não a quem tem que entender-nos, tendo10 nós pois primeiro que o entender a ele. Em resumo, a palavra falada é um fenômeno social, a escrita um fenômeno cultural; a palavra falada um fenômeno13 democrático, a escrita um aristocrático. São diferentes em substância: são pois forçosamente diferentes os seus respectivos meios e fins. (…)16 Na palavra falada, temos que ser, em absoluto, do nosso tempo e lugar; não podemos falar como Vieira, pois nos arriscamos ou ao ridículo ou à incompreensão. Não podemos19 pensar como Descartes, pois nos arriscamos ao tédio alheio. A palavra escrita, ao contrário, não é para quem a ouve, busca quem a ouça; escolhe quem a entenda, e não se22 subordina a quem a escolhe.

Fernando Pessoa. A língua portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 56-7 e 72.

No que se refere aos sentidos dos textos I e II, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 29.

    Do trecho do texto II “Não podemos pensar como Descartes, pois nos arriscamos ao tédio alheio” (l.18-19) infere-se que Fernando Pessoa associa pensamento e linguagem.

  2. 30.

    Depreende-se das ideias desenvolvidas nos textos I e II que seus autores divergem a respeito do que faz da fala e da escrita instâncias diversas: Mattoso Câmara atribui a diferença à natureza delas, e Pessoa, aos meios e fins.

  3. 31.

    Conclui-se do desenvolvimento das ideias do texto II que a “palavra falada” subordina o falante ao seu interlocutor, ao passo que a “palavra escrita” confere ao escritor liberdade de expressão.

  4. 32.

    De acordo com o texto I, a falta de determinados elementos expressivos na linguagem torna a escrita sempre ineficiente, em menor ou maior grau, se comparada à linguagem falada.

Texto I

1 A civilização deu uma importância extraordinária à escrita e, muitas vezes, quando nos referimos à linguagem, só pensamos nesse seu aspecto. É preciso não perder de vista,4 porém, que lhe há ao lado, mais antiga, mais básica, uma expressão oral. A rigor, a linguagem escrita não passa de um7 sucedâneo, de um ersatz da fala. Esta é que abrange a comunicação linguística em sua totalidade, pressupondo, além da significação dos vocábulos e das frases, a entoação, os10 elementos subsidiários da mímica, incluindo-se aí o jogo fisionômico. Por isso, para bem se compreender a natureza e o funcionamento da linguagem humana, é preciso partir da13 apreciação da linguagem oral e examinar, em seguida, a escrita como uma espécie de linguagem mutilada, cuja eficiência depende da maneira por que conseguimos obviar à falta16 inevitável de determinados elementos expressivos.

Joaquim Mattoso Câmara Jr. Manual de expressão oral e escrita. 27.ª ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

Texto II

1 A palavra falada é imediata, local e geral. Quando falamos, falamos para ser ouvidos imediatamente, com quem está ali ao pé de nós, e de modo a que sejamos facilmente4 entendidos dele, que sabemos quem é, ou calculamos que sabemos, e que pode ser toda a gente, devendo nós pois falar como se fosse qualquer. A palavra escrita é mediata, longínqua7 e particular. Quando escrevemos, dirigimo-nos a quem não nos vai ouvir, que é ler, logo; a quem não está ao pé de nós; a quem poderá entender-nos e não a quem tem que entender-nos, tendo10 nós pois primeiro que o entender a ele. Em resumo, a palavra falada é um fenômeno social, a escrita um fenômeno cultural; a palavra falada um fenômeno13 democrático, a escrita um aristocrático. São diferentes em substância: são pois forçosamente diferentes os seus respectivos meios e fins. (…)16 Na palavra falada, temos que ser, em absoluto, do nosso tempo e lugar; não podemos falar como Vieira, pois nos arriscamos ou ao ridículo ou à incompreensão. Não podemos19 pensar como Descartes, pois nos arriscamos ao tédio alheio. A palavra escrita, ao contrário, não é para quem a ouve, busca quem a ouça; escolhe quem a entenda, e não se22 subordina a quem a escolhe.

Fernando Pessoa. A língua portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 56-7 e 72.

Em relação ao vocabulário empregado nos textos I e II, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 33.

    No texto I, o verbo “obviar” (l.15) foi empregado como sinônimo de opor.

  2. 34.

    Dadas as relações de sentido construídas no texto II, a palavra “imediata” (l.1) poderia ser interpretada, no contexto, tanto como sem intermediário quanto como instantâneo.

  3. 35.

    No texto II, a relação entre os adjetivos “democrático” (l.13), referindo-se à “palavra falada”, e “aristocrático” (l.13), relativo à “palavra escrita,” é de antonímia, estando ambos os vocábulos empregados em sentido conotativo.

  4. 36.

    No texto I, a palavra “sucedâneo” (l.7) foi empregada como sinônima de sucessor, podendo ser por esta substituída, sem prejuízo do sentido original do texto.

1 Conta Darcy Ribeiro (1996) que, entre os índiosUrubu-Kaapor, a Cobra Grande engolia muita gente e precisouser morta. “Antes de morrer, teve um sobressalto. Se levantou,4subiu e foi bater no céu. Ficou lá a sombra dela. É a ViaLáctea, que até hoje a gente vê. Depois, caiu lá de cima, comgrande barulho. Veio bater no chão, acabou com a mata toda7naquele lugar; só deixou um buraco. Agora é o mar Paraná-Ramiú.” Darcy, com o jeito que lhe era característico, exclama:“Não é uma beleza? Aqui, o sangue de uma Cobra gigantesca10deu origem à Via Láctea e ao Avô-Mar!”

Lux Vidal. A Cobra Grande: uma introdução à cosmologia dos povos indígenas do Uaçá e Baixo Oiapoque – Amapá. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2009, p. 28-30 (com adaptações). , p. (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens seguintes, relativos a aspectos gramaticais do texto acima.

  1. 37.

    Sem alteração de informação, o primeiro período do texto poderia ser reescrito da seguinte forma: Entre os índios Urubu-Kaapor, contou, em 1996, Darcy Ribeiro que a cobra-grande, porque engolia muita gente, morreu.

  2. 38.

    A oração ‘Não é uma beleza?’ expressa uma pergunta retórica que corresponde à frase exclamativa É uma beleza!, sendo o advérbio de negação empregado como termo de realce na sentença interrogativa.

  3. 39.

    Sem que se contrariasse a informação original do texto, o pronome ‘toda’ na expressão ‘com a mata toda’ (l.6) poderia estar anteposto ao substantivo de duas formas: com toda a mata; com toda mata.

  4. 40.

    A referência do sujeito elíptico da oração ‘É a Via Láctea’ (l.4-5) é a expressão ‘a sombra dela’ (l.4), que funciona como sujeito da oração ‘Ficou lá a sombra dela’ (l.4).

1 No romance Vidas Secas, é crucial o enfezamento donarrador com palavras que não remetem a coisas e atosverazes. A palavra escrita, por exemplo, sob cujo limiar se4exprimem Fabiano e os seus, é, para o sertanejo, causa deangústia e de opressão. É a cifra misteriosa rabiscada nacaderneta do patrão, são aquelas letras taxativas que se7impõem na hora do acerto de contas com o cabra. Lembro o que diz Paulo Honório, em São Bernardo,e Luís da Silva, em Angústia, sobre o caráter safado das10palavras pedantes e das estreias literárias que se exibem nasvitrinas como as prostitutas de rua. A palavra escrita sofre umprocesso que lhe movem a economia e a moral da pobreza.13 Volto ao narrador. Este olha de cima, da Históriabrasileira já conhecida, o destino do seu vaqueiro: sair de umciclo, que ao retirante parece apenas natural, e rumar para16alguma cidade grande do Sul, onde, faça chuva ou faça sol,precisa-se de mão de obra barata. O historiador, que está, de algum modo, à frente dos19acontecimentos, vê as etapas do processo. O sonho do vaqueiroe as fantasias que ele projeta no seu Eldorado do Sul se dizem,primeiro, no discurso mental de Fabiano e, depois, na22interpretação que lhes dá o narrador. O sonho, decifrado como ilusão, acorda na históriameridiana do novo proletariado e revela a sua essência de25cativeiro: chegariam a uma terra civilizada, mas ficariampresos nela.

Alfredo Bosi. Céu, inferno: ensaios de crítica literária e ideologia. São Paulo: Ática, 1988, p. 12-13 (com adaptações).

Em relação ao texto acima, julgue o item a seguir.

  1. 41.

    Para reforçar a ideia de “enfezamento” (l.1), o narrador alude, no segundo parágrafo, à crítica de personagens de outras narrativas à linguagem erudita e às estreias literárias em geral, ambas comparadas a prostitutas.

  2. 42.

    No que segmento “sob cujo limiar se exprimem Fabiano e os seus” (l.3-4), é apresentada uma das causas da angústia do personagem Fabiano diante das relações de trabalho.

  3. 43.

    Segundo o autor do texto, na visão do retirante Fabiano, não há desemprego em qualquer cidade do Sul do Brasil, mesmo que, como o próprio reconhece, o trabalho seja mal remunerado.

  4. 44.

    No processo de coesão textual, os termos “O historiador” (l.18) e “o narrador” (l.22) remetem a diferentes referentes, como evidencia o emprego da estrutura de subordinação com oração adjetiva explicativa (l.18-19), que generaliza o sentido da palavra “historiador”.

  5. 45.

    No último parágrafo do texto, o autor dá voz ao narrador onisciente do romance Vidas Secas, que faz referência à vida futura dos personagens que acompanham Fabiano ao seu Eldorado do Sul, como evidencia o emprego das formas verbais “chegariam” e “ficariam”, flexionadas no futuro do pretérito do indicativo.

Visita a Jean-Paul Sartre

Os estudantes do velho Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, do Rio, querem levar uma peça de Sartre, Morts sans Sépulture, sem pagar os direitos. O pedido vem às mãos de Roberto Assumpção, secretário da embaixada, que lida com as coisas culturais. Ele escreve a Sartre e recebe logo a resposta, marcando rendez-vous: meio-dia e meia, no apartamento do escritor. Vou também, como penetra. (...)

Sartre mora na esquina da rue de l’Abbaye, num quarto andar aonde se ascende por uma escada meio escura, em caracol. Esse solteirão de 45 anos vive com sua mãe, e tem um apartamento bem-arranjado. Eu melhoraria de estilo se escrevesse como ele, nesse pequeno escritório cheio de livros, com duas janelas dando para o largo: à esquerda, a torre da igreja, à direita, o Deux Magots. (...)

À primeira vista, o dono da casa lembra Portinari; um Portinari que fosse mais forte e mais rústico. Esse parisiense que deriva da Borgonha e da Alsácia tem alguma coisa de camponês do Norte. É vermelho, tem a pele grosseira e os cabelos cor de palha suja. Os pedaços de costeleta que passam sob os ganchos dos óculos já embranqueceram. É impossível saber se está falando com Roberto Assumpção ou comigo, pois cada olho fixa um de nós, formando um ângulo de 45 graus; mas parece que o esquerdo, que fixa o diplomata, é que está com a razão. (...)

Estava escrevendo quando nos recebeu: explica-me que está acabando seu estudo sobre Jean Genet. Tem em sua frente uma edição de luxo de Notre-Dame-des-Fleurs. Automaticamente reparo nos dois livros que tem sobre a mesa: um é Platão, outro de Mallarmé.

É claro que tem prazer em que os estudantes levem sua peça; faz questão de escrever a eles uma carta, dando licença e agradecendo. Roberto lhe fala sobre o interesse que sua obra desperta no Brasil. Já tem notícia disso, e teve um convite de São Paulo para visitar nosso país. “Este ano foi impossível, mas vou dar um jeito de ir no ano que vem.” Conta que o adido cultural francês em São Paulo lhe prometeu mandar a tradução do ensaio de um escritor brasileiro para publicar na Les Temps Modernes, a sua revista. Não se lembra do nome do escritor.

Faz pergunta sobre nosso país. Diz que tem boa impressão dele pelo que lhe contaram Camus, Barrault e outros amigos. Um povo que tem caráter próprio e muita efervescência cultural. Não tem o ar de dizer gentilezas e parece exprimir uma curiosidade sincera. Digo-lhe que, na linguagem do Rio, “existencialismo” tem um sentido não muito austero e lembra mais Chiquita Bacana do que Søren Kierkegaard. Ri: não é apenas no Brasil, é no mundo; isso começou aqui no quartier e — nota — os adversários fingem levar a sério essa legenda de “imoralismo” da doutrina.

Rubem Braga. Visita a Jean-Paul Sartre [crônica de 20/11/1950]. In: Retratos parisienses. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013, 2.ª ed., p.115-7 (com adaptações).

Com relação às ideias desenvolvidas no texto acima, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 46.

    Rubem Braga informa que, como Jean-Paul Sartre foi evasivo durante boa parte da conversa, não foi possível saber com que interlocutor ele falava sobre seus trabalhos literários.

  2. 47.

    O autor do texto, Rubem Braga, registra que o adido cultural francês em São Paulo teve conhecimento do problema relativo a direitos autorais e prometeu enviar uma cópia do processo traduzida para o francês.

  3. 48.

    O encontro dos dois brasileiros com Jean Paul-Sartre foi marcado com urgência em razão de um processo penal que, relativo a direitos autorais, envolvia estudantes do Rio de Janeiro e o escritor francês.

  4. 49.

    O cronista brasileiro comenta que melhoraria seu estilo literário se escrevesse não apenas no ambiente do filósofo francês, mas também se consultasse os livros de Platão e de Mallarmé que estavam sobre a mesa de Jean-Paul Sartre no momento do encontro.

1 O trono sem povo é uma árvore sem raízes, é umedifício sem fundamentos. O vento que soprar mais fortedespregará a árvore da terra, e rolará o edifício nas areias.4 Já se dizia na nossa Constituinte: “O trono não tem uma força própria; a de que gozareside na ideia que dele formam os POVOS”.7 E o povo, existe ele hoje? Não: o que temos é uma corrente ligeira que todosdesviam de seu alvo, e que lambe os pés de todos que10dominam. O que temos é uma voz enfraquecida, que se perdeno espaço da terra brasileira. Mas um dia essa voz, quaseperdida, será um rugido de trovão, e a tempestade abalará os13dormentes da caverna. Um dia essa corrente humilde far-se-ário caudal para arrebatar as insígnias falsas, e arrastar novórtice das espumas esse rochedo que parece afrontar os ventos16da democracia. Por isso desfalecer é um crime. A terra brasileira é amãe de nobres ideias, o alenta o valor de seus filhos Antêos.19(…) Na batalha a bandeira rota é a mais gloriosa, e o fumoque a cresta fala dela ao patriotismo.22 Ai de nós se o ceticismo nos arrebatasse a esperançaporque a alma magnânima do povo não sofreria as ânsiascruéis do cativeiro.25 Esperemos. Em vez do governo de hoje, em vez do regimepessoal, que as leis criaram, virá o puro governo28representativo; em vez da vontade de um só substituída àpalavra sincera dos comícios virá a voz da praça pública; emvez do imperialismo, teremos a democracia.31 Esperemos. A regeneração social será completa. Há um pênduloque marca as eras das crises nacionais, e o Brasil está em crise.

Joaquim Nabuco. O povo e o trono. In: Leonardo Dantas Silva (Org.) Nabuco e a República. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Ed. Massagana, 1990, p. 9. Internet: <www.fundaj.gov.br>.

No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto acima, julgue o item a seguir.

  1. 50.

    Infere-se do texto que o “imperialismo” (l.30) a que se refere o autor consiste na prática política de expansão territorial e, principalmente, econômica adotada por alguns Estados para subjugar outros Estados.

  2. 51.

    A palavra “trono” está empregada no texto em referência, de forma genérica, a regime autoritário.

  3. 52.

    Dados os sentidos do texto e as relações sintáticas de seu segundo período, a forma verbal “rolará”, em “rolará o edifício nas areias” (l.3), pode ser interpretada como cair ou como fazer cair.

  4. 53.

    A forma verbal “Esperemos”, à linha 25, denota esperança, mas não expectativa, ou seja, denota desejo de mudança, sem que se possa deduzir que haja a possibilidade de que ela ocorra.

  5. 54.

    O pronome “isso”, em “Por isso” (l.17), retoma a ideia desenvolvida no último período do parágrafo anterior, a qual constitui a consequência do fato expresso na oração “desfalecer é um crime”.

 Lendo provas de um poema1 Com Rubem Braga, certa vez, lia em provas Dois Parlamentos. Na manhã ipanema e verão,4 em volta do alto apartamento, sem que carniça houvesse perto, sem explicação, todo um elenco7 de urubus se pôs a rondar a cobertura, em voos pensos: como se farejassem a morte10 no texto que estávamos lendo e se a inodora morte escrita não fosse esconjuro mas treno

João Cabral de Melo Neto. In: Museu de tudo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, p. 60 (com adaptações).

 O urubu mobilizado1Durante as secas do Sertão, o urubu,de urubu livre, passa a funcionário.O urubu não retira, pois prevendo cedo4que lhe mobilizarão a técnica e o tacto,cala os serviços prestados e diplomas,que o enquadrariam num melhor salário,7e vai acolitar os empreiteiros da seca,veterano, mas ainda com zelos de novato:aviando com eutanásia o morto incerto,10ele, que no civil quer o morto claro.Embora mobilizado, nesse urubu em açãoreponta logo o perfeito profissional.13No ar compenetrado, curvo e conselheiro,no todo de guarda-chuva, na unção clerical,com que age, embora em posto subalterno:16ele, um convicto profissional liberal.

João Cabral de Melo Neto. In: Poesias completas. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, 1968, p. 12-3 (com adaptações).

Com relação aos textos acima — poemas de João Cabral de Melo Neto —, julgue (C ou E) os itens subsequentes.

  1. 55.

    Depreende-se do primeiro texto que o poeta João Cabral de Melo Neto e o cronista Rubem Braga liam juntos as provas da obra Dois Parlamentos, porque ambos eram personagens desse poema.

  2. 56.

    No segundo texto, ao informar que o urubu é “funcionário” (v.2), “veterano” (v.8) e “convicto profissional liberal” (v.16), o poeta quer assim transmitir a rotina, a experiência e a autonomia do urubu no período das secas do sertão, quando a morte dos animais, por fome e sede, aumenta a oferta da carniça de que se alimenta.

  3. 57.

    No primeiro texto, o poeta demonstra apreensão ao perceber “um elenco de urubus” (v.6-7) a circular sobre a cobertura de um prédio e receia que as aves estejam indicando a iminente morte de um dos escritores, como em um presságio.

  4. 58.

    Ao afirmar, no segundo texto, que o urubu “vai acolitar os empreiteiros da seca” (v.7), o poeta ironiza aqueles que lucram com a longa estiagem sertaneja, comparando-os à ave que, no mesmo período, encontra farta comida.

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