Língua Portuguesa — CACD 2008

CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 60 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

Quer responder e ver o gabarito comentado?

Na Lumen você marca Certo ou Errado, vê o gabarito e o comentário de cada item, acompanha seu desempenho por matéria e estuda pelo edital verticalizado.

Cadastre-se

As primeiras cartas

O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora. Avô Mariano

1 Escapo-me dali, me apressando entre os atalhos. Quando reentro em casa não encontro vivalma. Todos foram para ocaminho da areia assistir à desgraça, consolando Ultímio. De soslaio, parece-me ouvir um ruído. Entro na sala fúnebre e nada vejo,senão o aquietado corpo do velho Mariano. Lá está o desfinado, entre flores e velas. Subo para o quarto. De novo, sobre a4cabeceira, uma outra carta. A tremência em minhas mãos não me ajuda a ler: Estas cartas, Mariano, não são escritos. São falas. Sente-se, se deixe em bastante sossego e escute. Você não veio a estaIlha para comparecer perante um funeral. Muito ao contrário, Mariano. Você cruzou essas águas por motivo de um nascimento.7Para colocar o nosso mundo no devido lugar. Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida. Todos aqui estãomorrendo não por doença, mas por desmérito do viver. É por isso que visitará estas cartas e encontrará não a folha escrita mas um vazio que você mesmo irá preencher, com10suas caligrafias. Como se diz aqui: feridas da boca se curam com a própria saliva. Esse é o serviço que vamos cumprir aqui,você e eu, de um e outro lado das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura. Para salvarmos Luar-do-Chão, o lugar ondeainda vamos nascendo. E salvarmos nossa família, que é o lugar onde somos eternos.13 Comece em seu pai, Fulano Malta. Você nunca lhe ensinou modos de ele ser pai. Entre no seu coração, entenda aquelarezinguice dele, amoleça os medos dele. Ponha um novo entendimento em seu velho pai. Às vezes, seu pai lhe tem raiva? Poislhe digo: aquilo não é raiva, é medo. Lhe explico: você despontou-se, saiu da Ilha, atravessou a fronteira do mundo. Os lugares16são bons e ai de quem não tenha o seu, congênito e natural. Mas os lugares nos aprisionam, são raízes que amarram a vontadeda asa. A Ilha de Luar-do-Chão é uma prisão. A pior prisão, sem muros, sem grades. Só o medo do que há lá fora nos prende19ao chão. E você saltou essa fronteira. Se afastou não em distância, mas se alonjou da nossa existência. Antes, seu pai estava bem consigo mesmo, aceitava o tamanho que você lhe dava. Desde a sua partida ele se tornounum estranho, alheio e distante. Seu velhote passou a destratá-lo? Pois ele se defende de si mesmo. Você, Mariano, lhe lembra22que ele ficou, deste lado do rio, amansado, sem brilho de viver nem lustro de sonhar.

Mia Couto. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 64-5.

Julgue (C ou E) os itens a seguir, de acordo com o texto.

  1. 1.

    Assim que voltou a Luar-do-Chão para o funeral do pai, ao reentrar na casa, Mariano deparou com os mortos.

  2. 2.

    Quando voltou para a Ilha, Mariano percebeu que a saudade do pai havia-se transformado em tristeza e desapontamento.

  3. 3.

    Na Ilha de Luar-do-Chão, a prisão psicológica vivenciada pelos habitantes os tornava impotentes para dali saírem, por medo do desconhecido.

  4. 4.

    Mariano encontrou cartas, que mais pareciam relatos e comentários orais do que mensagens escritas, e cuja leitura lhe causou assombro.

    Item anulado pela banca

As primeiras cartas

O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora. Avô Mariano

1 Escapo-me dali, me apressando entre os atalhos. Quando reentro em casa não encontro vivalma. Todos foram para ocaminho da areia assistir à desgraça, consolando Ultímio. De soslaio, parece-me ouvir um ruído. Entro na sala fúnebre e nada vejo,senão o aquietado corpo do velho Mariano. Lá está o desfinado, entre flores e velas. Subo para o quarto. De novo, sobre a4cabeceira, uma outra carta. A tremência em minhas mãos não me ajuda a ler: Estas cartas, Mariano, não são escritos. São falas. Sente-se, se deixe em bastante sossego e escute. Você não veio a estaIlha para comparecer perante um funeral. Muito ao contrário, Mariano. Você cruzou essas águas por motivo de um nascimento.7Para colocar o nosso mundo no devido lugar. Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida. Todos aqui estãomorrendo não por doença, mas por desmérito do viver. É por isso que visitará estas cartas e encontrará não a folha escrita mas um vazio que você mesmo irá preencher, com10suas caligrafias. Como se diz aqui: feridas da boca se curam com a própria saliva. Esse é o serviço que vamos cumprir aqui,você e eu, de um e outro lado das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura. Para salvarmos Luar-do-Chão, o lugar ondeainda vamos nascendo. E salvarmos nossa família, que é o lugar onde somos eternos.13 Comece em seu pai, Fulano Malta. Você nunca lhe ensinou modos de ele ser pai. Entre no seu coração, entenda aquelarezinguice dele, amoleça os medos dele. Ponha um novo entendimento em seu velho pai. Às vezes, seu pai lhe tem raiva? Poislhe digo: aquilo não é raiva, é medo. Lhe explico: você despontou-se, saiu da Ilha, atravessou a fronteira do mundo. Os lugares16são bons e ai de quem não tenha o seu, congênito e natural. Mas os lugares nos aprisionam, são raízes que amarram a vontadeda asa. A Ilha de Luar-do-Chão é uma prisão. A pior prisão, sem muros, sem grades. Só o medo do que há lá fora nos prende19ao chão. E você saltou essa fronteira. Se afastou não em distância, mas se alonjou da nossa existência. Antes, seu pai estava bem consigo mesmo, aceitava o tamanho que você lhe dava. Desde a sua partida ele se tornounum estranho, alheio e distante. Seu velhote passou a destratá-lo? Pois ele se defende de si mesmo. Você, Mariano, lhe lembra22que ele ficou, deste lado do rio, amansado, sem brilho de viver nem lustro de sonhar.

Mia Couto. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 64-5.

A propósito dos componentes semântico e estilístico do texto, julgue (C ou E) os itens seguintes.

  1. 5.

    O sentido do trecho “feridas da boca se curam com a própria saliva” (l.10) equivale ao do clássico provérbio Amor com amor se paga.

  2. 6.

    No texto, a oposição ou contraste como estratégia argumentativa pode ser exemplificada em vários enunciados, entre eles: “Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida.” (l.7) e “encontrará não a folha escrita mas um vazio que você mesmo irá preencher” (l.9).

  3. 7.

    A epígrafe do texto estrutura-se em um jogo de palavras.

  4. 8.

    É exemplo de paralelismo sintático o estilo de construção do trecho “você e eu, de um e outro lado das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura” (l.11).

As primeiras cartas

O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora. Avô Mariano

1 Escapo-me dali, me apressando entre os atalhos. Quando reentro em casa não encontro vivalma. Todos foram para ocaminho da areia assistir à desgraça, consolando Ultímio. De soslaio, parece-me ouvir um ruído. Entro na sala fúnebre e nada vejo,senão o aquietado corpo do velho Mariano. Lá está o desfinado, entre flores e velas. Subo para o quarto. De novo, sobre a4cabeceira, uma outra carta. A tremência em minhas mãos não me ajuda a ler: Estas cartas, Mariano, não são escritos. São falas. Sente-se, se deixe em bastante sossego e escute. Você não veio a estaIlha para comparecer perante um funeral. Muito ao contrário, Mariano. Você cruzou essas águas por motivo de um nascimento.7Para colocar o nosso mundo no devido lugar. Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida. Todos aqui estãomorrendo não por doença, mas por desmérito do viver. É por isso que visitará estas cartas e encontrará não a folha escrita mas um vazio que você mesmo irá preencher, com10suas caligrafias. Como se diz aqui: feridas da boca se curam com a própria saliva. Esse é o serviço que vamos cumprir aqui,você e eu, de um e outro lado das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura. Para salvarmos Luar-do-Chão, o lugar ondeainda vamos nascendo. E salvarmos nossa família, que é o lugar onde somos eternos.13 Comece em seu pai, Fulano Malta. Você nunca lhe ensinou modos de ele ser pai. Entre no seu coração, entenda aquelarezinguice dele, amoleça os medos dele. Ponha um novo entendimento em seu velho pai. Às vezes, seu pai lhe tem raiva? Poislhe digo: aquilo não é raiva, é medo. Lhe explico: você despontou-se, saiu da Ilha, atravessou a fronteira do mundo. Os lugares16são bons e ai de quem não tenha o seu, congênito e natural. Mas os lugares nos aprisionam, são raízes que amarram a vontadeda asa. A Ilha de Luar-do-Chão é uma prisão. A pior prisão, sem muros, sem grades. Só o medo do que há lá fora nos prende19ao chão. E você saltou essa fronteira. Se afastou não em distância, mas se alonjou da nossa existência. Antes, seu pai estava bem consigo mesmo, aceitava o tamanho que você lhe dava. Desde a sua partida ele se tornounum estranho, alheio e distante. Seu velhote passou a destratá-lo? Pois ele se defende de si mesmo. Você, Mariano, lhe lembra22que ele ficou, deste lado do rio, amansado, sem brilho de viver nem lustro de sonhar.

Mia Couto. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 64-5.

A propósito da sintaxe de regência do português do Brasil, comparativamente à variedade encontrada no texto do moçambicano Mia Couto, julgue (C ou E) os próximos itens.

  1. 9.

    Em “Comece em seu pai, Fulano Malta” (l.13), o emprego do verbo transitivo indireto obedece à prescrição gramatical brasileira.

  2. 10.

    Para adequar o trecho “lhe lembra que ele ficou” (l.21-22) à prescrição gramatical brasileira, seria necessário acrescentar a preposição de antes da conjunção “que”.

  3. 11.

    Em “comparecer perante um funeral” (l.6), a preposição a substitui corretamente a que foi empregada.

  4. 12.

    No trecho “ele se tornou num estranho, alheio e distante” (l.20-21), a regência do verbo tornar corresponde à que é prescrita no português do Brasil.

As primeiras cartas

O importante não é a casa onde moramos. Mas onde, em nós, a casa mora. Avô Mariano

1 Escapo-me dali, me apressando entre os atalhos. Quando reentro em casa não encontro vivalma. Todos foram para ocaminho da areia assistir à desgraça, consolando Ultímio. De soslaio, parece-me ouvir um ruído. Entro na sala fúnebre e nada vejo,senão o aquietado corpo do velho Mariano. Lá está o desfinado, entre flores e velas. Subo para o quarto. De novo, sobre a4cabeceira, uma outra carta. A tremência em minhas mãos não me ajuda a ler: Estas cartas, Mariano, não são escritos. São falas. Sente-se, se deixe em bastante sossego e escute. Você não veio a estaIlha para comparecer perante um funeral. Muito ao contrário, Mariano. Você cruzou essas águas por motivo de um nascimento.7Para colocar o nosso mundo no devido lugar. Não veio salvar o morto. Veio salvar a vida, a nossa vida. Todos aqui estãomorrendo não por doença, mas por desmérito do viver. É por isso que visitará estas cartas e encontrará não a folha escrita mas um vazio que você mesmo irá preencher, com10suas caligrafias. Como se diz aqui: feridas da boca se curam com a própria saliva. Esse é o serviço que vamos cumprir aqui,você e eu, de um e outro lado das palavras. Eu dou as vozes, você dá a escritura. Para salvarmos Luar-do-Chão, o lugar ondeainda vamos nascendo. E salvarmos nossa família, que é o lugar onde somos eternos.13 Comece em seu pai, Fulano Malta. Você nunca lhe ensinou modos de ele ser pai. Entre no seu coração, entenda aquelarezinguice dele, amoleça os medos dele. Ponha um novo entendimento em seu velho pai. Às vezes, seu pai lhe tem raiva? Poislhe digo: aquilo não é raiva, é medo. Lhe explico: você despontou-se, saiu da Ilha, atravessou a fronteira do mundo. Os lugares16são bons e ai de quem não tenha o seu, congênito e natural. Mas os lugares nos aprisionam, são raízes que amarram a vontadeda asa. A Ilha de Luar-do-Chão é uma prisão. A pior prisão, sem muros, sem grades. Só o medo do que há lá fora nos prende19ao chão. E você saltou essa fronteira. Se afastou não em distância, mas se alonjou da nossa existência. Antes, seu pai estava bem consigo mesmo, aceitava o tamanho que você lhe dava. Desde a sua partida ele se tornounum estranho, alheio e distante. Seu velhote passou a destratá-lo? Pois ele se defende de si mesmo. Você, Mariano, lhe lembra22que ele ficou, deste lado do rio, amansado, sem brilho de viver nem lustro de sonhar.

Mia Couto. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 64-5.

O item a seguir descreve marca(s) lingüística(s) contida(s) no texto. Julgue se a(s) marca(s) apontada(s) corresponde(m) a traço(s) de oralidade do texto.

  1. 13.

    Não-contração da preposição “de” com o pronome “ele”, que é sujeito de infinitivo, conforme ocorre em “Você nunca lhe ensinou modos de ele ser pai” (l.13).

  2. 14.

    O emprego do vocábulo “Pois” como marcador discursivo no trecho “Pois lhe digo” (l.14-15).

  3. 15.

    Emprego do vocativo “Mariano” e uso do pronome você, para construir o discurso direto.

  4. 16.

    Ocorrência de interrogações em discurso direto, como em “Às vezes, seu pai lhe tem raiva?” (l.14) ou “Seu velhote passou a destratá-lo?” (l.21).

  5. 17.

    Flexibilidade na colocação de pronomes átonos, como em “Sente-se, se deixe em bastante sossego e escute” (l.5) e “Lhe explico” (l.15).

Receita de casa

1 Ciro dos Anjos escreveu, faz pouco tempo, uma de suas páginas mais belas sobre as antigas fazendas mineiras. Ele dáos requisitos essenciais a uma fazenda bastante lírica, incluindo, mesmo, uma certa menina de vestido branco. Nada sei dessascoisas, mas juro que entendo alguma coisa de arquitetura urbana, embora Caloca, Aldari, Jorge Moreira e Ernâni, pobres4arquitetos profissionais, achem que não. Assim vos direi que a primeira coisa a respeito de uma casa é que ela deve ter um porão, um bom porão com entrada pelafrente e saída pelos fundos. Esse porão deve ser habitável porém inabitado; e ter alguns quartos sem iluminação alguma, onde se7devem amontoar móveis antigos, quebrados, objetos desprezados e baús esquecidos. Deve ser o cemitério das coisas. Ali, sobos pés da família, como se fosse no subconsciente dos vivos, jazerão os leques, as cadeiras, as fantasias do carnaval do ano de1920, as gravatas manchadas, os sapatos que outrora andaram em caminhos longe.10 Quando acaso descerem ao porão, as crianças hão de ficar um pouco intrigadas; e como crianças são animais levianos,é preciso que se intriguem um pouco, tenham uma certa perspectiva histórica, meditem que, por mais incrível e extraordinárioque pareça, as pessoas grandes também já foram crianças, a sua avó já foi a bailes, e outras coisas instrutivas que são um pouco13tristes mas hão de restaurar, a seus olhos, a dignidade corrompida das pessoas adultas. Convém que as crianças sintam um certo medo do porão; e embora pensem que é medo do escuro, ou de aranhas-caranguejeiras, será o grande medo do Tempo, esse bicho que tudo come, esse monstro que irá tragando em suas fauces negras16os sapatos da criança, sua roupinha, sua atiradeira, seu canivete, as bolas de vidro, e afinal a própria criança. O único perigo é que o porão faça da criança, no futuro, um romancista introvertido, o que se pode evitar desmoralizandoperiodicamente o porão com uma limpeza parcial para nele armazenar gêneros ou utensílios ou mais facilmente tijolo, por19exemplo; ou percorrendo-o com uma lanterna elétrica bem possante que transformará hienas em ratos e cadafalsos em guarda-louças. Ao construir o porão deve o arquiteto obter um certo grau de umidade, mas providenciar para que a porta de uma das22entradas seja bem fácil de arrombar, porque um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estarescondido um ladrão assassino, ou um cachorro raivoso, ou ainda anarquistas búlgaros de passagem por esta cidade. Um porão supõe um alçapão aberto na sala de jantar. Sobre a tampa desse alçapão deve estar um móvel pesado, que fique25exposto ao sol ao menos duas horas por dia, de tal modo que à noite estale com tanto gosto que do quarto das crianças dê aimpressão exata de que o alçapão está sendo aberto, ou o terrível meliante já esteja no interior da casa.

Rubem Braga. Um pé de milho. 4.ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1982, p. 129-31 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens a seguir, que se referem à compreensão, à interpretação e aos aspectos sintático-semânticos do texto.

  1. 18.

    No segundo parágrafo, tanto o emprego da palavra “cemitério” (l.7) quanto a comparação entre o porão e o “subconsciente dos vivos” (l.8) evidenciam que o sentido produzido, nesse trecho do texto, é o de fim completo das coisas.

  2. 19.

    Depreende-se do texto que moralizar o porão significa mantê-lo razoavelmente limpo e iluminado.

  3. 20.

    Conclui-se da leitura do texto que nenhuma criança que more em casa sem porão se transformará em um romancista introvertido.

  4. 21.

    Na linha 10, a substituição do vocábulo “acaso” por caso prejudicaria o sentido do período, mas a substituição do mesmo vocábulo por porventura manteria a coerência textual do trecho.

Receita de casa

1 Ciro dos Anjos escreveu, faz pouco tempo, uma de suas páginas mais belas sobre as antigas fazendas mineiras. Ele dáos requisitos essenciais a uma fazenda bastante lírica, incluindo, mesmo, uma certa menina de vestido branco. Nada sei dessascoisas, mas juro que entendo alguma coisa de arquitetura urbana, embora Caloca, Aldari, Jorge Moreira e Ernâni, pobres4arquitetos profissionais, achem que não. Assim vos direi que a primeira coisa a respeito de uma casa é que ela deve ter um porão, um bom porão com entrada pelafrente e saída pelos fundos. Esse porão deve ser habitável porém inabitado; e ter alguns quartos sem iluminação alguma, onde se7devem amontoar móveis antigos, quebrados, objetos desprezados e baús esquecidos. Deve ser o cemitério das coisas. Ali, sobos pés da família, como se fosse no subconsciente dos vivos, jazerão os leques, as cadeiras, as fantasias do carnaval do ano de1920, as gravatas manchadas, os sapatos que outrora andaram em caminhos longe.10 Quando acaso descerem ao porão, as crianças hão de ficar um pouco intrigadas; e como crianças são animais levianos,é preciso que se intriguem um pouco, tenham uma certa perspectiva histórica, meditem que, por mais incrível e extraordinárioque pareça, as pessoas grandes também já foram crianças, a sua avó já foi a bailes, e outras coisas instrutivas que são um pouco13tristes mas hão de restaurar, a seus olhos, a dignidade corrompida das pessoas adultas. Convém que as crianças sintam um certo medo do porão; e embora pensem que é medo do escuro, ou de aranhas-caranguejeiras, será o grande medo do Tempo, esse bicho que tudo come, esse monstro que irá tragando em suas fauces negras16os sapatos da criança, sua roupinha, sua atiradeira, seu canivete, as bolas de vidro, e afinal a própria criança. O único perigo é que o porão faça da criança, no futuro, um romancista introvertido, o que se pode evitar desmoralizandoperiodicamente o porão com uma limpeza parcial para nele armazenar gêneros ou utensílios ou mais facilmente tijolo, por19exemplo; ou percorrendo-o com uma lanterna elétrica bem possante que transformará hienas em ratos e cadafalsos em guarda-louças. Ao construir o porão deve o arquiteto obter um certo grau de umidade, mas providenciar para que a porta de uma das22entradas seja bem fácil de arrombar, porque um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estarescondido um ladrão assassino, ou um cachorro raivoso, ou ainda anarquistas búlgaros de passagem por esta cidade. Um porão supõe um alçapão aberto na sala de jantar. Sobre a tampa desse alçapão deve estar um móvel pesado, que fique25exposto ao sol ao menos duas horas por dia, de tal modo que à noite estale com tanto gosto que do quarto das crianças dê aimpressão exata de que o alçapão está sendo aberto, ou o terrível meliante já esteja no interior da casa.

Rubem Braga. Um pé de milho. 4.ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1982, p. 129-31 (com adaptações).

Com base no texto, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 22.

    Na linha 17, o termo “um romancista introvertido” exerce função sintática de predicativo do objeto “da criança”.

  2. 23.

    No terceiro parágrafo, nas expressões “a sua avó” (l.12) e “a seus olhos” (l.13), os pronomes possessivos remetem ao referente “pessoas grandes” (l.12).

  3. 24.

    Caso o acento grave de “à noite” (l.25) seja suprimido, a coesão e a coerência textuais do período em que se insere essa expressão serão prejudicadas.

  4. 25.

    Em “a menor utilidade” (l.22), o emprego do adjetivo no grau superlativo estabelece comparação entre as três possíveis utilidades supostas para um porão.

Receita de casa

1 Ciro dos Anjos escreveu, faz pouco tempo, uma de suas páginas mais belas sobre as antigas fazendas mineiras. Ele dáos requisitos essenciais a uma fazenda bastante lírica, incluindo, mesmo, uma certa menina de vestido branco. Nada sei dessascoisas, mas juro que entendo alguma coisa de arquitetura urbana, embora Caloca, Aldari, Jorge Moreira e Ernâni, pobres4arquitetos profissionais, achem que não. Assim vos direi que a primeira coisa a respeito de uma casa é que ela deve ter um porão, um bom porão com entrada pelafrente e saída pelos fundos. Esse porão deve ser habitável porém inabitado; e ter alguns quartos sem iluminação alguma, onde se7devem amontoar móveis antigos, quebrados, objetos desprezados e baús esquecidos. Deve ser o cemitério das coisas. Ali, sobos pés da família, como se fosse no subconsciente dos vivos, jazerão os leques, as cadeiras, as fantasias do carnaval do ano de1920, as gravatas manchadas, os sapatos que outrora andaram em caminhos longe.10 Quando acaso descerem ao porão, as crianças hão de ficar um pouco intrigadas; e como crianças são animais levianos,é preciso que se intriguem um pouco, tenham uma certa perspectiva histórica, meditem que, por mais incrível e extraordinárioque pareça, as pessoas grandes também já foram crianças, a sua avó já foi a bailes, e outras coisas instrutivas que são um pouco13tristes mas hão de restaurar, a seus olhos, a dignidade corrompida das pessoas adultas. Convém que as crianças sintam um certo medo do porão; e embora pensem que é medo do escuro, ou de aranhas-caranguejeiras, será o grande medo do Tempo, esse bicho que tudo come, esse monstro que irá tragando em suas fauces negras16os sapatos da criança, sua roupinha, sua atiradeira, seu canivete, as bolas de vidro, e afinal a própria criança. O único perigo é que o porão faça da criança, no futuro, um romancista introvertido, o que se pode evitar desmoralizandoperiodicamente o porão com uma limpeza parcial para nele armazenar gêneros ou utensílios ou mais facilmente tijolo, por19exemplo; ou percorrendo-o com uma lanterna elétrica bem possante que transformará hienas em ratos e cadafalsos em guarda-louças. Ao construir o porão deve o arquiteto obter um certo grau de umidade, mas providenciar para que a porta de uma das22entradas seja bem fácil de arrombar, porque um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estarescondido um ladrão assassino, ou um cachorro raivoso, ou ainda anarquistas búlgaros de passagem por esta cidade. Um porão supõe um alçapão aberto na sala de jantar. Sobre a tampa desse alçapão deve estar um móvel pesado, que fique25exposto ao sol ao menos duas horas por dia, de tal modo que à noite estale com tanto gosto que do quarto das crianças dê aimpressão exata de que o alçapão está sendo aberto, ou o terrível meliante já esteja no interior da casa.

Rubem Braga. Um pé de milho. 4.ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1982, p. 129-31 (com adaptações).

Acerca da organização, da linguagem e dos aspectos gramaticais do texto, julgue (C ou E) os itens subseqüentes.

  1. 26.

    O sentido de posição inferior, em “sob os pés da família” (l.7-8) e “subconsciente” (l.8), é expresso, respectivamente, por meio do uso de uma preposição e de um prefixo.

  2. 27.

    Em “incluindo, mesmo, uma certa menina de vestido branco” (l.2), o vocábulo sublinhado (“mesmo”) pode ser corretamente substituído por inclusive.

  3. 28.

    Em “Nada sei dessas coisas” (l.2-3), “entendo alguma coisa de arquitetura urbana” (l.3), “a primeira coisa a respeito de uma casa” (l.5), “cemitério das coisas” (l.7) e “coisas instrutivas” (l.12), a palavra “coisas” (ou seu singular “coisa”) está empregada com o mesmo sentido.

  4. 29.

    O recurso a processos de formação de palavras derivadas pode ser exemplificado em “habitável porém inabitado” (l.6).

Origem das culturas

1 O soldado e o marinheiro permutaram bofetadas, mais ou menos teóricas, numa esquina de minha rua por causa danamorada comum, que devia chamar-se Marlene. O duelo durou vinte minutos e cinqüenta pessoas assistiram. A dificuldade totalfoi reconstituir o delito, porque tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz as espontâneas e numerosas4testemunhas prestaram depoimentos inteiramente contraditórios. Como começara e como findara a luta foi impossível apurar. Etodos tinham assistido... Esse processo transfigurador da memória, desajustando e confundindo os elementos formadores do episódio, antecipando7ou postergando a sucessão temática, interfere como autodefesa inconsciente e instintiva, perturbando a seqüência lógica danarrativa. Imagine-se há milênios... A visão do homem pré-histórico padece dessas dificuldades. Reerguer as cidades em ruínas sem a orientação do plano10anterior. Paisagens de intermitências que antes eram continuidades lógicas. Possuímos documentos da atividade humana desde o Pleistoceno, ou seja, do Paleolítico inferior, período chelense. Avelha divisão de Thomsen (Chistian Jungensen Thomsen, 1788-1865) data de 1835; estudando o Homem pelas indústrias iniciais13— Idade da Pedra Lascada, Idade da Pedra Polida, Idade dos Metais —, fixa a origem insofismável das culturas. Creio que do ponto de vista didático o nascimento da cultura humana iniciou-se com os vestígios materiais da indústrialítica, enfrentando pela inteligência o complexo atordoador da natureza hostil e virgem. Articulá-la com o esforço animal, na16plenitude do instinto defensivo, é apenas um exercício intelectual em favor da ditadura biológica. Essa exaltação do orgânico emdetrimento do social reduz a tenacidade do esforço humano, em centenas e centenas de séculos, ao humilhante plano dacausalidade ou do fatalismo, inaceitáveis ambos. Não sendo conhecida de doutrina alguma contemporânea a explicação, mesmo19primária, do processo diferenciador dos primatas superiores ao Homo sapiens, porque justamente o tipo menos biologicamenteresistente foi o escolhido para a vitória fisiológica de todas as forças brutas, bestiais e telúricas, ensinar-nos da aprendizagem pelaobservação zoológica jamais provará por que o Rei da Criação, senhor das técnicas, não conseguiu a perfeição maquinal das22formigas, das abelhas e dos castores. E continua tendo problemas de organização e de acomodação no meio dos semelhantes,inquietos e desconfiados. Creio que a cultura nasce do útil-necessário, no ambiente do real-imediato. Diante da premência da fome, frio e25desabrigo, o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica improvisada pela urgência vital.

Luís da Câmara Cascudo. Civilização e cultura: pesquisas e notas de etnografia geral. 2.ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983, p. 65-6 (com adaptações).

Acerca dos aspectos gramaticais e estilísticos do texto, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 30.

    O fragmento “Diante da premência da fome, frio e desabrigo” (l.24-25) pode, sem que se contrarie a prescrição gramatical, ser reescrito da seguinte forma: Diante da premência da fome, do frio e do desabrigo.

  2. 31.

    Na oração “Não sendo conhecida de doutrina alguma contemporânea a explicação, mesmo primária, do processo diferenciador dos primatas superiores ao Homo sapiens” (l.18-19), o adjetivo “contemporânea” modifica o substantivo “explicação”.

  3. 32.

    No período “Esse processo transfigurador da memória, desajustando e confundindo os elementos formadores do episódio, antecipando ou postergando a sucessão temática, interfere como autodefesa inconsciente e instintiva, perturbando a seqüência lógica da narrativa” (l.6-8), o núcleo do predicado da oração principal é um verbo empregado sem complemento.

  4. 33.

    A complementação da forma verbal “assistiram” (l.2) pelo pronome pessoal o, na modalidade no, manteria a correção gramatical do período.

Origem das culturas

1 O soldado e o marinheiro permutaram bofetadas, mais ou menos teóricas, numa esquina de minha rua por causa danamorada comum, que devia chamar-se Marlene. O duelo durou vinte minutos e cinqüenta pessoas assistiram. A dificuldade totalfoi reconstituir o delito, porque tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz as espontâneas e numerosas4testemunhas prestaram depoimentos inteiramente contraditórios. Como começara e como findara a luta foi impossível apurar. Etodos tinham assistido... Esse processo transfigurador da memória, desajustando e confundindo os elementos formadores do episódio, antecipando7ou postergando a sucessão temática, interfere como autodefesa inconsciente e instintiva, perturbando a seqüência lógica danarrativa. Imagine-se há milênios... A visão do homem pré-histórico padece dessas dificuldades. Reerguer as cidades em ruínas sem a orientação do plano10anterior. Paisagens de intermitências que antes eram continuidades lógicas. Possuímos documentos da atividade humana desde o Pleistoceno, ou seja, do Paleolítico inferior, período chelense. Avelha divisão de Thomsen (Chistian Jungensen Thomsen, 1788-1865) data de 1835; estudando o Homem pelas indústrias iniciais13— Idade da Pedra Lascada, Idade da Pedra Polida, Idade dos Metais —, fixa a origem insofismável das culturas. Creio que do ponto de vista didático o nascimento da cultura humana iniciou-se com os vestígios materiais da indústrialítica, enfrentando pela inteligência o complexo atordoador da natureza hostil e virgem. Articulá-la com o esforço animal, na16plenitude do instinto defensivo, é apenas um exercício intelectual em favor da ditadura biológica. Essa exaltação do orgânico emdetrimento do social reduz a tenacidade do esforço humano, em centenas e centenas de séculos, ao humilhante plano dacausalidade ou do fatalismo, inaceitáveis ambos. Não sendo conhecida de doutrina alguma contemporânea a explicação, mesmo19primária, do processo diferenciador dos primatas superiores ao Homo sapiens, porque justamente o tipo menos biologicamenteresistente foi o escolhido para a vitória fisiológica de todas as forças brutas, bestiais e telúricas, ensinar-nos da aprendizagem pelaobservação zoológica jamais provará por que o Rei da Criação, senhor das técnicas, não conseguiu a perfeição maquinal das22formigas, das abelhas e dos castores. E continua tendo problemas de organização e de acomodação no meio dos semelhantes,inquietos e desconfiados. Creio que a cultura nasce do útil-necessário, no ambiente do real-imediato. Diante da premência da fome, frio e25desabrigo, o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica improvisada pela urgência vital.

Luís da Câmara Cascudo. Civilização e cultura: pesquisas e notas de etnografia geral. 2.ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983, p. 65-6 (com adaptações).

Acerca dos sentidos e dos elementos de coesão e de referenciação presentes no texto, julgue (C ou E) os itens subseqüentes.

  1. 34.

    O termo “Essa exaltação do orgânico em detrimento do social” (l.16-17) retoma e amplia a idéia de “um exercício intelectual em favor da ditadura biológica” (l.16).

  2. 35.

    O termo “dessas dificuldades” (l.9) sumaria os efeitos da transfiguração da memória descritos no parágrafo anterior.

  3. 36.

    O termo “Esse processo transfigurador da memória” (l.6) está empregado em referência a um vocábulo específico dos dois últimos períodos do primeiro parágrafo do texto.

  4. 37.

    O substantivo “duelo” (l.2) resume, com certa dose de ironia, o episódio narrado no primeiro período do texto.

Origem das culturas

1 O soldado e o marinheiro permutaram bofetadas, mais ou menos teóricas, numa esquina de minha rua por causa danamorada comum, que devia chamar-se Marlene. O duelo durou vinte minutos e cinqüenta pessoas assistiram. A dificuldade totalfoi reconstituir o delito, porque tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz as espontâneas e numerosas4testemunhas prestaram depoimentos inteiramente contraditórios. Como começara e como findara a luta foi impossível apurar. Etodos tinham assistido... Esse processo transfigurador da memória, desajustando e confundindo os elementos formadores do episódio, antecipando7ou postergando a sucessão temática, interfere como autodefesa inconsciente e instintiva, perturbando a seqüência lógica danarrativa. Imagine-se há milênios... A visão do homem pré-histórico padece dessas dificuldades. Reerguer as cidades em ruínas sem a orientação do plano10anterior. Paisagens de intermitências que antes eram continuidades lógicas. Possuímos documentos da atividade humana desde o Pleistoceno, ou seja, do Paleolítico inferior, período chelense. Avelha divisão de Thomsen (Chistian Jungensen Thomsen, 1788-1865) data de 1835; estudando o Homem pelas indústrias iniciais13— Idade da Pedra Lascada, Idade da Pedra Polida, Idade dos Metais —, fixa a origem insofismável das culturas. Creio que do ponto de vista didático o nascimento da cultura humana iniciou-se com os vestígios materiais da indústrialítica, enfrentando pela inteligência o complexo atordoador da natureza hostil e virgem. Articulá-la com o esforço animal, na16plenitude do instinto defensivo, é apenas um exercício intelectual em favor da ditadura biológica. Essa exaltação do orgânico emdetrimento do social reduz a tenacidade do esforço humano, em centenas e centenas de séculos, ao humilhante plano dacausalidade ou do fatalismo, inaceitáveis ambos. Não sendo conhecida de doutrina alguma contemporânea a explicação, mesmo19primária, do processo diferenciador dos primatas superiores ao Homo sapiens, porque justamente o tipo menos biologicamenteresistente foi o escolhido para a vitória fisiológica de todas as forças brutas, bestiais e telúricas, ensinar-nos da aprendizagem pelaobservação zoológica jamais provará por que o Rei da Criação, senhor das técnicas, não conseguiu a perfeição maquinal das22formigas, das abelhas e dos castores. E continua tendo problemas de organização e de acomodação no meio dos semelhantes,inquietos e desconfiados. Creio que a cultura nasce do útil-necessário, no ambiente do real-imediato. Diante da premência da fome, frio e25desabrigo, o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica improvisada pela urgência vital.

Luís da Câmara Cascudo. Civilização e cultura: pesquisas e notas de etnografia geral. 2.ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983, p. 65-6 (com adaptações).

O item a seguir reproduz período do texto ao qual se acrescentaram uma ou mais vírgulas, seguindo-se uma justificativa. Julgue se é procedente a justificativa apresentada para o acréscimo da(s) vírgula(s).

  1. 38.

    Como começara e como findara a luta, foi impossível apurar. Justificativa: a vírgula isola oração subordinada adverbial antecipada.

  2. 39.

    O duelo durou vinte minutos, e cinqüenta pessoas assistiram. Justificativa: a vírgula separa orações coordenadas que, unidas pela conjunção “e”, têm sujeitos diferentes.

  3. 40.

    O soldado e o marinheiro permutaram bofetadas, mais ou menos teóricas, numa esquina de minha rua, por causa da namorada comum, que devia chamar-se Marlene. Justificativa: a vírgula separa adjuntos adverbiais que expressam noções diferentes.

  4. 41.

    Diante da premência da fome, frio e desabrigo, o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica, improvisada pela urgência vital. Justificativa: a vírgula indica elipse do verbo.

  5. 42.

    A dificuldade total foi reconstituir o delito, porque, tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz, as espontâneas e numerosas testemunhas prestaram depoimentos inteiramente contraditórios. Justificativa: as vírgulas isolam o adjunto adverbial antecipado.

Origem das culturas

1 O soldado e o marinheiro permutaram bofetadas, mais ou menos teóricas, numa esquina de minha rua por causa danamorada comum, que devia chamar-se Marlene. O duelo durou vinte minutos e cinqüenta pessoas assistiram. A dificuldade totalfoi reconstituir o delito, porque tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz as espontâneas e numerosas4testemunhas prestaram depoimentos inteiramente contraditórios. Como começara e como findara a luta foi impossível apurar. Etodos tinham assistido... Esse processo transfigurador da memória, desajustando e confundindo os elementos formadores do episódio, antecipando7ou postergando a sucessão temática, interfere como autodefesa inconsciente e instintiva, perturbando a seqüência lógica danarrativa. Imagine-se há milênios... A visão do homem pré-histórico padece dessas dificuldades. Reerguer as cidades em ruínas sem a orientação do plano10anterior. Paisagens de intermitências que antes eram continuidades lógicas. Possuímos documentos da atividade humana desde o Pleistoceno, ou seja, do Paleolítico inferior, período chelense. Avelha divisão de Thomsen (Chistian Jungensen Thomsen, 1788-1865) data de 1835; estudando o Homem pelas indústrias iniciais13— Idade da Pedra Lascada, Idade da Pedra Polida, Idade dos Metais —, fixa a origem insofismável das culturas. Creio que do ponto de vista didático o nascimento da cultura humana iniciou-se com os vestígios materiais da indústrialítica, enfrentando pela inteligência o complexo atordoador da natureza hostil e virgem. Articulá-la com o esforço animal, na16plenitude do instinto defensivo, é apenas um exercício intelectual em favor da ditadura biológica. Essa exaltação do orgânico emdetrimento do social reduz a tenacidade do esforço humano, em centenas e centenas de séculos, ao humilhante plano dacausalidade ou do fatalismo, inaceitáveis ambos. Não sendo conhecida de doutrina alguma contemporânea a explicação, mesmo19primária, do processo diferenciador dos primatas superiores ao Homo sapiens, porque justamente o tipo menos biologicamenteresistente foi o escolhido para a vitória fisiológica de todas as forças brutas, bestiais e telúricas, ensinar-nos da aprendizagem pelaobservação zoológica jamais provará por que o Rei da Criação, senhor das técnicas, não conseguiu a perfeição maquinal das22formigas, das abelhas e dos castores. E continua tendo problemas de organização e de acomodação no meio dos semelhantes,inquietos e desconfiados. Creio que a cultura nasce do útil-necessário, no ambiente do real-imediato. Diante da premência da fome, frio e25desabrigo, o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica improvisada pela urgência vital.

Luís da Câmara Cascudo. Civilização e cultura: pesquisas e notas de etnografia geral. 2.ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983, p. 65-6 (com adaptações).

Considerando os sentidos do texto, julgue o item a seguir, relativo a sinônimos contextuais.

  1. 43.

    No texto, “telúricas” (l.20) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por ferozes.

  2. 44.

    No texto, “tenacidade” (l.17) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por desvario.

  3. 45.

    No texto, “padece” (l.9) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por prescinde.

  4. 46.

    No texto, “lítica” (l.15) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por pétrea.

  5. 47.

    No texto, “maquinal” (l.21) pode ser substituído, sem alteração de sentido, por mecânica.

Receita de casa

1 Ciro dos Anjos escreveu, faz pouco tempo, uma de suas páginas mais belas sobre as antigas fazendas mineiras. Ele dáos requisitos essenciais a uma fazenda bastante lírica, incluindo, mesmo, uma certa menina de vestido branco. Nada sei dessascoisas, mas juro que entendo alguma coisa de arquitetura urbana, embora Caloca, Aldari, Jorge Moreira e Ernâni, pobres4arquitetos profissionais, achem que não. Assim vos direi que a primeira coisa a respeito de uma casa é que ela deve ter um porão, um bom porão com entrada pelafrente e saída pelos fundos. Esse porão deve ser habitável porém inabitado; e ter alguns quartos sem iluminação alguma, onde se7devem amontoar móveis antigos, quebrados, objetos desprezados e baús esquecidos. Deve ser o cemitério das coisas. Ali, sobos pés da família, como se fosse no subconsciente dos vivos, jazerão os leques, as cadeiras, as fantasias do carnaval do ano de1920, as gravatas manchadas, os sapatos que outrora andaram em caminhos longe.10 Quando acaso descerem ao porão, as crianças hão de ficar um pouco intrigadas; e como crianças são animais levianos,é preciso que se intriguem um pouco, tenham uma certa perspectiva histórica, meditem que, por mais incrível e extraordinárioque pareça, as pessoas grandes também já foram crianças, a sua avó já foi a bailes, e outras coisas instrutivas que são um pouco13tristes mas hão de restaurar, a seus olhos, a dignidade corrompida das pessoas adultas. Convém que as crianças sintam um certo medo do porão; e embora pensem que é medo do escuro, ou de aranhas-caranguejeiras, será o grande medo do Tempo, esse bicho que tudo come, esse monstro que irá tragando em suas fauces negras16os sapatos da criança, sua roupinha, sua atiradeira, seu canivete, as bolas de vidro, e afinal a própria criança. O único perigo é que o porão faça da criança, no futuro, um romancista introvertido, o que se pode evitar desmoralizandoperiodicamente o porão com uma limpeza parcial para nele armazenar gêneros ou utensílios ou mais facilmente tijolo, por19exemplo; ou percorrendo-o com uma lanterna elétrica bem possante que transformará hienas em ratos e cadafalsos em guarda-louças. Ao construir o porão deve o arquiteto obter um certo grau de umidade, mas providenciar para que a porta de uma das22entradas seja bem fácil de arrombar, porque um porão não tem a menor utilidade se não supomos que dentro dele possa estarescondido um ladrão assassino, ou um cachorro raivoso, ou ainda anarquistas búlgaros de passagem por esta cidade. Um porão supõe um alçapão aberto na sala de jantar. Sobre a tampa desse alçapão deve estar um móvel pesado, que fique25exposto ao sol ao menos duas horas por dia, de tal modo que à noite estale com tanto gosto que do quarto das crianças dê aimpressão exata de que o alçapão está sendo aberto, ou o terrível meliante já esteja no interior da casa.

Rubem Braga. Um pé de milho. 4.ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1982, p. 129-31 (com adaptações).

Julgue o item a seguir, relativo à crônica de Rubem Braga.

  1. 48.

    A crônica de Rubem Braga confere ao porão grande relevância para as crianças.

  2. 49.

    A crônica de Rubem Braga define o porão como um espaço de horror e repulsa infantil.

  3. 50.

    A crônica de Rubem Braga parafraseia as páginas de Ciro dos Anjos.

  4. 51.

    A crônica de Rubem Braga contém recomendações arquitetônicas dignas de profissionais.

  5. 52.

    A crônica de Rubem Braga exige que toda casa tenha um porão que vá da frente aos fundos do terreno.

Origem das culturas

1 O soldado e o marinheiro permutaram bofetadas, mais ou menos teóricas, numa esquina de minha rua por causa danamorada comum, que devia chamar-se Marlene. O duelo durou vinte minutos e cinqüenta pessoas assistiram. A dificuldade totalfoi reconstituir o delito, porque tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz as espontâneas e numerosas4testemunhas prestaram depoimentos inteiramente contraditórios. Como começara e como findara a luta foi impossível apurar. Etodos tinham assistido... Esse processo transfigurador da memória, desajustando e confundindo os elementos formadores do episódio, antecipando7ou postergando a sucessão temática, interfere como autodefesa inconsciente e instintiva, perturbando a seqüência lógica danarrativa. Imagine-se há milênios... A visão do homem pré-histórico padece dessas dificuldades. Reerguer as cidades em ruínas sem a orientação do plano10anterior. Paisagens de intermitências que antes eram continuidades lógicas. Possuímos documentos da atividade humana desde o Pleistoceno, ou seja, do Paleolítico inferior, período chelense. Avelha divisão de Thomsen (Chistian Jungensen Thomsen, 1788-1865) data de 1835; estudando o Homem pelas indústrias iniciais13— Idade da Pedra Lascada, Idade da Pedra Polida, Idade dos Metais —, fixa a origem insofismável das culturas. Creio que do ponto de vista didático o nascimento da cultura humana iniciou-se com os vestígios materiais da indústrialítica, enfrentando pela inteligência o complexo atordoador da natureza hostil e virgem. Articulá-la com o esforço animal, na16plenitude do instinto defensivo, é apenas um exercício intelectual em favor da ditadura biológica. Essa exaltação do orgânico emdetrimento do social reduz a tenacidade do esforço humano, em centenas e centenas de séculos, ao humilhante plano dacausalidade ou do fatalismo, inaceitáveis ambos. Não sendo conhecida de doutrina alguma contemporânea a explicação, mesmo19primária, do processo diferenciador dos primatas superiores ao Homo sapiens, porque justamente o tipo menos biologicamenteresistente foi o escolhido para a vitória fisiológica de todas as forças brutas, bestiais e telúricas, ensinar-nos da aprendizagem pelaobservação zoológica jamais provará por que o Rei da Criação, senhor das técnicas, não conseguiu a perfeição maquinal das22formigas, das abelhas e dos castores. E continua tendo problemas de organização e de acomodação no meio dos semelhantes,inquietos e desconfiados. Creio que a cultura nasce do útil-necessário, no ambiente do real-imediato. Diante da premência da fome, frio e25desabrigo, o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica improvisada pela urgência vital.

Luís da Câmara Cascudo. Civilização e cultura: pesquisas e notas de etnografia geral. 2.ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983, p. 65-6 (com adaptações).

Com relação à organização, à linguagem e aos aspectos gramaticais do texto, julgue (C ou E) os itens subseqüentes.

  1. 53.

    O autor emprega linguagem precisa em “Possuímos documentos da atividade humana desde o Pleistoceno, ou seja, do Paleolítico inferior, período chelense” (l.11) e “processo diferenciador dos primatas superiores ao Homo sapiens” (l.19).

  2. 54.

    Para evitar a estrutura oracional e tornar o texto mais conciso, o autor recorreu ao processo de derivação de palavras em “nasce do útil-necessário, no ambiente do real-imediato” (l.24).

  3. 55.

    No quinto parágrafo, o autor constrói, para a forma verbal “reduz” (l.17), um complemento verbal composto: “a tenacidade do esforço humano” (l.17) e “em centenas e centenas de séculos” (l.17).

  4. 56.

    O autor vale-se da narrativa, na introdução do texto, para captar a atenção do leitor, conduzir-lhe o raciocínio e ilustrar a idéia a ser desenvolvida.

Origem das culturas

1 O soldado e o marinheiro permutaram bofetadas, mais ou menos teóricas, numa esquina de minha rua por causa danamorada comum, que devia chamar-se Marlene. O duelo durou vinte minutos e cinqüenta pessoas assistiram. A dificuldade totalfoi reconstituir o delito, porque tanto no inquérito policial quanto na formação de culpa perante o juiz as espontâneas e numerosas4testemunhas prestaram depoimentos inteiramente contraditórios. Como começara e como findara a luta foi impossível apurar. Etodos tinham assistido... Esse processo transfigurador da memória, desajustando e confundindo os elementos formadores do episódio, antecipando7ou postergando a sucessão temática, interfere como autodefesa inconsciente e instintiva, perturbando a seqüência lógica danarrativa. Imagine-se há milênios... A visão do homem pré-histórico padece dessas dificuldades. Reerguer as cidades em ruínas sem a orientação do plano10anterior. Paisagens de intermitências que antes eram continuidades lógicas. Possuímos documentos da atividade humana desde o Pleistoceno, ou seja, do Paleolítico inferior, período chelense. Avelha divisão de Thomsen (Chistian Jungensen Thomsen, 1788-1865) data de 1835; estudando o Homem pelas indústrias iniciais13— Idade da Pedra Lascada, Idade da Pedra Polida, Idade dos Metais —, fixa a origem insofismável das culturas. Creio que do ponto de vista didático o nascimento da cultura humana iniciou-se com os vestígios materiais da indústrialítica, enfrentando pela inteligência o complexo atordoador da natureza hostil e virgem. Articulá-la com o esforço animal, na16plenitude do instinto defensivo, é apenas um exercício intelectual em favor da ditadura biológica. Essa exaltação do orgânico emdetrimento do social reduz a tenacidade do esforço humano, em centenas e centenas de séculos, ao humilhante plano dacausalidade ou do fatalismo, inaceitáveis ambos. Não sendo conhecida de doutrina alguma contemporânea a explicação, mesmo19primária, do processo diferenciador dos primatas superiores ao Homo sapiens, porque justamente o tipo menos biologicamenteresistente foi o escolhido para a vitória fisiológica de todas as forças brutas, bestiais e telúricas, ensinar-nos da aprendizagem pelaobservação zoológica jamais provará por que o Rei da Criação, senhor das técnicas, não conseguiu a perfeição maquinal das22formigas, das abelhas e dos castores. E continua tendo problemas de organização e de acomodação no meio dos semelhantes,inquietos e desconfiados. Creio que a cultura nasce do útil-necessário, no ambiente do real-imediato. Diante da premência da fome, frio e25desabrigo, o primeiro material foi o mais próximo e a primeira técnica improvisada pela urgência vital.

Luís da Câmara Cascudo. Civilização e cultura: pesquisas e notas de etnografia geral. 2.ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983, p. 65-6 (com adaptações).

De acordo com as idéias apresentadas no texto, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 57.

    A explicação meramente biológica dos primórdios da cultura humana não faz jus ao engenho humano.

  2. 58.

    O termo “o Rei da Criação” (l.21) refere-se a um ente divino.

  3. 59.

    Os estudos de Thomsen, que datam da primeira metade do século XIX, dedicam-se às culturas do início da Revolução Industrial.

  4. 60.

    Por não estarem sujeitas a testemunhos divergentes, as narrativas de episódios longínquos do passado são mais fiáveis que as de eventos mais recentes.

Quer responder e ver o gabarito comentado?

Na Lumen você marca Certo ou Errado, vê o gabarito e o comentário de cada item, acompanha seu desempenho por matéria e estuda pelo edital verticalizado.

Cadastre-se

Outras matérias do CACD 2008