Língua Portuguesa — CACD 2005

CESPE/UnB · CACD – 1ª fase (TPS) · 67 itens · julgue cada item como Certo ou Errado

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Texto I

1Que outras lições poderia eu receber de umportuguês que viveu no século XVI, que compôs asrimas e as glórias, os naufrágios e os desencantos4pátrios de Os Lusíadas, que foi um gênio poéticoabsoluto, o maior da nossa Literatura, por muito queisso pese a Fernando Pessoa, que a si mesmo se7proclamou como o Super-Camões dela? Nenhumalição que estivesse à minha medida, nenhuma liçãoque eu fosse capaz de aprender, salvo a mais simples10que me poderia ser oferecida pelo homem Luís Vaz deCamões na sua extrema humanidade, por exemplo, ahumildade orgulhosa de um autor que vai chamando13a todas as portas à procura de quem esteja dispostoa publicar-lhe o livro que escreveu, sofrendo por issoo desprezo dos ignorantes de sangue e de casta, a16indiferença desdenhosa de um rei e da sua companhiade poderosos, o escárnio com que, desde sempre, omundo tem recebido a visita dos poetas, dos19visionários e dos loucos. Ao menos uma vez na vida, todos os autorestiveram ou terão de ser Luís de Camões, mesmo se22não escreveram as redondilhas entre fidalgos da cortee censores do Santo Ofício, entre os amores deantanho e as desilusões da velhice prematura, entre25a dor de escrever e a alegria de ter escrito, foi a estehomem doente que regressa pobre da Índia, aondemuitos só iam para enriquecer, foi a este soldado cego28de um olho e golpeado na alma, foi a este sedutorsem fortuna que não voltará nunca mais a perturbaros sentidos das damas do paço, que eu pus a viver no31palco da peça de teatro chamada: Que Farei comEste Livro?, em cujo final ecoa uma outra pergunta,aquela que importa verdadeiramente, aquela que34nunca saberemos se alguma vez chegará a terresposta suficiente: “Que farei com este livro?”

José Saramago. Discurso proferido por ocasião do recebimento do Prêmio Nobel de Literatura. Estocolmo, 1998 (com adaptações).

Quanto à descrição gramatical de elementos do texto I, julgue o item a seguir.

  1. 1.

    O emprego da conjunção alternativa em “todos os autores tiveram ou terão de ser Luís de Camões” (l.20-21) implica alusão a fases do fenômeno temporal.

  2. 2.

    No último parágrafo, a menção ao sofrimento de Luís de Camões está construída por meio do paralelismo sintático introduzido pela forma “foi a este”.

  3. 3.

    Os vocábulos “redondilhas” (l.22) e “antanho” (l.24) estão em desuso no português contemporâneo.

  4. 4.

    É opcional a regência como transitivo direto ou transitivo indireto do verbo chamar com o sentido empregado em “que vai chamando a todas as portas” (l.12-13).

  5. 5.

    Em “por muito que isso pese a Fernando Pessoa” (l.5-6), a forma “pese” remete a peso e está empregada como verbo transitivo direto.

Texto III

1Quando as 5 mil pequenas lâmpadasiluminaram a fachada do Palácio da Eletricidade, porocasião da inauguração da Exposição Universal de4Paris (1900), causando assombro à multidão queassistia ao espetáculo, comprovou-se o triunfo daciência e a soberania da máquina. A luz vencera o7limite da noite e instaurava as 24 horas como o novotempo da cidade. A arte afastava-se do mundo burguês à procura10de nova clientela, capaz de um ato de fruição total.Era preciso tornar-se autêntica e, para isso, elaprecisava eliminar dos seus efeitos específicos13quaisquer outros que pudessem ter sido tomados porempréstimo. Era necessário tornar-se “autárquica”,“pura”.16A busca incessante dessa pureza motivou osartistas do início do século XX, o que resultou naprodução de obras que deram corpo a uma notável19revolução cultural.

P. E. Grinberg e A. A. Luz. Revoluções artístico-culturais no século XX. In: F. C. Teixeira da Silva (coord.). Século sombrio: guerras e revoluções do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier (com adaptações).

Com base no texto III, julgue (C ou E) os itens que se seguem.

  1. 6.

    O emprego das aspas em “autárquica” e “pura” (l.14-15) indica que a atribuição de sentido às duas palavras não deve ser exatamente a corrente, a usual.

  2. 7.

    Considerando-se os elementos de coesão textual, verifica-se que a expressão “ao espetáculo” (l.5) tem como referência “Exposição Universal de Paris” (l.3-4).

  3. 8.

    Atenderia às exigências lingüísticas puristas a alteração, na linha 4, de “causando” por: o que causou.

  4. 9.

    A concordância verbal em “comprovou-se” (l.5) atende regra segundo a qual, em construções com posposição de sujeito composto, é obrigatória a concordância do verbo com o primeiro núcleo do sujeito.

Texto II

1O Estado-nação brasileiro tem suas raízes naexpansão mercantil-colonial européia do século XVI.Naquele momento histórico, as burguesias mercantis,4aliadas às monarquias, sobretudo portuguesa eespanhola, empreendiam a busca, para além-mar, doouro, da prata ou de produtos que, de alto valor7comercial nos mercados europeus, pudessem sertransacionados com muito lucro. O pau-brasil, queabundava em nossas florestas tropicais, ao longo da10costa atlântica, foi o primeiro alvo do saque aosrecursos naturais, até então manejados por diversospovos indígenas nômades e seminômades.13Ironicamente, a espécie que acabou por dar origem aonome do país tornou-se a primeira vítima: opau-brasil, madeira de coloração avermelhada que os16europeus utilizavam na produção de tinturas, hoje sóexiste nos jardins e museus botânicos.

Carlos Walter Porto Gonçalves. Formação sócio-espacial e questão ambiental no Brasil. In: Berta K. Becker et al. (org.). Geografia e meio ambiente no Brasil. 3.ª ed. São Paulo: Ana Blume – Hucitec, 2002 (com adaptações).

Julgue o item a seguir, a respeito do texto II.

  1. 10.

    Há elementos no texto, em especial, o emprego do advérbio “Ironicamente” (l.13) e da expressão “a primeira vítima” (l.14), que permitem a inferência de que o Brasil, desde que se tornou Estado-nação, assim como o produto de que se originou seu nome, pode ser percebido como vítima de saque.

  2. 11.

    Se acatado o rigor gramatical, os adjetivos “portuguesa” (l.4) e “espanhola” (l.5) deveriam estar flexionados no plural.

  3. 12.

    Contribuiria para a precisão da informação expressa no segundo período do texto a seguinte reescritura do trecho “ou de produtos (...) lucro” (l.6-8): ou de outros produtos de alto valor comercial que pudessem ser, também, transacionados com muito lucro nos mercados europeus.

  4. 13.

    Caso fosse omitida a vírgula logo após “mercantis” (l.3), o texto não sofreria prejuízo do ponto de vista estritamente sintático, mas a informação expressa no trecho de ocorrência da vírgula ficaria prejudicada do ponto de vista histórico.

  5. 14.

    No período situado nas linhas de 8 a 12, há uma comparação subjacente que enaltece os “diversos povos indígenas nômades e seminômades” (l.11-12) e que está marcada lingüisticamente pelo contraste de “[recursos naturais] manejados” (l.11) com “alvo do saque aos recursos naturais” (l.10-11), expressão atribuída aos europeus.

Texto IV

1O período que se seguiu à Grande Guerra podeser decomposto em três grandes fatias: de 1919 a1924–28, quando todos os países europeus4procuraram liquidar os resquícios deixados pela guerrae voltar às condições econômicas normais, equivaledizer, às condições dominantes em 1914; de 1924–287a 1931–33, com o grande surto de prosperidade, quetrazia, no seu bojo, os elementos da crise detonadanos EUA em 1929; de 1932–33 a 1939, quando os10governos se empenharam no esforço coletivo parasuperar a crise, desenvolvendo práticasintervencionistas não adotadas até então.

J. J. de Arruda. A crise do capitalismo. D. A. Reis Filho, J. Ferreira, C. Zenha (orgs.). In: O século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 22 (com adaptações).

Com relação ao texto IV, julgue o item a seguir.

  1. 15.

    A elipse na oração coordenada iniciada por “e” (l.5) corresponde ao longo segmento oracional “quando todos os países europeus procuraram” (l.3-4).

  2. 16.

    O texto é composto por apenas um longo período. Para se atender ao estilo da escrita contemporânea — textos com períodos curtos — e à prescrição gramatical, esse período poderia ser transformado em quatro. Para tal, bastaria substituir o sinal de dois-pontos (l.2) por ponto e fazer corresponder, com os devidos ajustes nas letras maiúsculas, um período a cada uma das “três grandes fatias”.

  3. 17.

    Há redundância em “os resquícios deixados pela guerra” (l.4), o que permite a alteração para os resquícios da guerra.

  4. 18.

    A forma como as datas estão dispostas demonstra que o período a que o texto se refere é delimitado por uma perspectiva científica, e não meramente cronológica. Nesse contexto, a oração adjetiva “que se seguiu à Grande Guerra” (l.1) poderia, sem perda da precisão histórica, ser substituída pela expressão pós-Grande Guerra.

  5. 19.

    O paralelismo sintático seria observado com mais rigor gramatical caso se substituísse “com o grande surto de prosperidade” (l.7) por: quando se assistiu ao grande surto de prosperidade.

Texto I

1Que outras lições poderia eu receber de umportuguês que viveu no século XVI, que compôs asrimas e as glórias, os naufrágios e os desencantos4pátrios de Os Lusíadas, que foi um gênio poéticoabsoluto, o maior da nossa Literatura, por muito queisso pese a Fernando Pessoa, que a si mesmo se7proclamou como o Super-Camões dela? Nenhumalição que estivesse à minha medida, nenhuma liçãoque eu fosse capaz de aprender, salvo a mais simples10que me poderia ser oferecida pelo homem Luís Vaz deCamões na sua extrema humanidade, por exemplo, ahumildade orgulhosa de um autor que vai chamando13a todas as portas à procura de quem esteja dispostoa publicar-lhe o livro que escreveu, sofrendo por issoo desprezo dos ignorantes de sangue e de casta, a16indiferença desdenhosa de um rei e da sua companhiade poderosos, o escárnio com que, desde sempre, omundo tem recebido a visita dos poetas, dos19visionários e dos loucos. Ao menos uma vez na vida, todos os autorestiveram ou terão de ser Luís de Camões, mesmo se22não escreveram as redondilhas entre fidalgos da cortee censores do Santo Ofício, entre os amores deantanho e as desilusões da velhice prematura, entre25a dor de escrever e a alegria de ter escrito, foi a estehomem doente que regressa pobre da Índia, aondemuitos só iam para enriquecer, foi a este soldado cego28de um olho e golpeado na alma, foi a este sedutorsem fortuna que não voltará nunca mais a perturbaros sentidos das damas do paço, que eu pus a viver no31palco da peça de teatro chamada: Que Farei comEste Livro?, em cujo final ecoa uma outra pergunta,aquela que importa verdadeiramente, aquela que34nunca saberemos se alguma vez chegará a terresposta suficiente: “Que farei com este livro?”

José Saramago. Discurso proferido por ocasião do recebimento do Prêmio Nobel de Literatura. Estocolmo, 1998 (com adaptações).

No discurso de José Saramago, a obra Os Lusíadas e seu autor, Luís de Camões, são mencionados com admiração e reverência. Julgue (C ou E) os itens a seguir, com base no texto I.

  1. 20.

    Pelo que se depreende do texto, José Saramago examinou a obra camoniana no drama Que Farei com Este Livro?, representado no palco do paço português.

  2. 21.

    O trecho “que não voltará nunca mais a perturbar os sentidos das damas do paço” (l.29-30) caracteriza-se pelo emprego dos recursos da redundância e do eufemismo.

  3. 22.

    José Saramago alude a Fernando Pessoa como o “Super-Camões” (l.7), relativizando o sentido do predicado “um gênio poético absoluto” (l.4-5), atribuído a Camões.

  4. 23.

    O trecho “as rimas e as glórias, os naufrágios e os desencantos pátrios de Os Lusíadas” (l.2-4) refere-se a episódios do período das grandes navegações portuguesas.

Texto V

1À época da independência, a economia colonialpodia ser descrita de maneira simplificada. Eracomposta por: latifúndios voltados para a produção de4mercadorias exportáveis, como o açúcar, o tabaco, oalgodão; fazendas dedicadas à produção para omercado interno (feijão, arroz, milho) e à criação de7gado, estas sobretudo no norte e no sul; e centrosmineradores já em fase de decadência. Acrescente-se,ainda, grande número de pequenas propriedades10voltadas para a agricultura e a pecuária desubsistência. Nas cidades costeiras, capitais deprovíncias, predominavam o grande e o pequeno13comércio. Os comerciantes mais ricos eram os que sededicavam ao tráfico de escravos. A única alteração importante nessa economia16deu-se com o desenvolvimento da cultura do café. Jána década de 30, o produto assumira o primeiro lugarnas exportações. Mas o café não mudou o padrão19econômico anterior: era também um produto deexportação baseado no trabalho escravo. Esse modelosobreviveu ainda por mais cem anos. Só começou a22ser desmontado após 1930. As conseqüências dahegemonia do café foram principalmente políticas. Ofato de se ter ela estabelecido a partir do Rio de25Janeiro ajudou a consolidar o novo governo do país,sediado nesta província. Se não fosse a coincidênciado centro político com o centro econômico, os28esforços da elite política para manter a unidade dopaís poderiam ter fracassado.

J. M. de Carvalho. Fundamentos da política e da sociedade brasileiras. In: L. Avelar e A. O. Cintra (orgs.). Sistema político brasileiro: uma introdução. Rio de Janeiro: Fundação Konrad-Adenauer-Stiftung; São Paulo: Fundação UNESP, 2004, p. 23.

Julgue (C ou E) os itens a seguir, que dizem respeito ao período “Mas o café não mudou o padrão econômico anterior: era também um produto de exportação baseado no trabalho escravo” (l.18-20).

  1. 24.

    Nesse contexto, a conjunção “Mas” tem a função de estabelecer relação de coordenação entre as duas orações do período.

  2. 25.

    O advérbio “também”, por acrescentar uma circunstância ao verbo, não poderia ser retirado da frase, sob pena de provocar prejuízo à estrutura de base da oração.

  3. 26.

    Esse período é composto por duas orações justapostas que mantêm entre si relação de dependência semântica e sintática, exercendo a segunda oração a função de predicativo da primeira.

  4. 27.

    O período permanecerá perfeitamente em conformidade com os padrões da escrita culta se “baseado” for substituído por: que se baseava.

Texto V

1À época da independência, a economia colonialpodia ser descrita de maneira simplificada. Eracomposta por: latifúndios voltados para a produção de4mercadorias exportáveis, como o açúcar, o tabaco, oalgodão; fazendas dedicadas à produção para omercado interno (feijão, arroz, milho) e à criação de7gado, estas sobretudo no norte e no sul; e centrosmineradores já em fase de decadência. Acrescente-se,ainda, grande número de pequenas propriedades10voltadas para a agricultura e a pecuária desubsistência. Nas cidades costeiras, capitais deprovíncias, predominavam o grande e o pequeno13comércio. Os comerciantes mais ricos eram os que sededicavam ao tráfico de escravos. A única alteração importante nessa economia16deu-se com o desenvolvimento da cultura do café. Jána década de 30, o produto assumira o primeiro lugarnas exportações. Mas o café não mudou o padrão19econômico anterior: era também um produto deexportação baseado no trabalho escravo. Esse modelosobreviveu ainda por mais cem anos. Só começou a22ser desmontado após 1930. As conseqüências dahegemonia do café foram principalmente políticas. Ofato de se ter ela estabelecido a partir do Rio de25Janeiro ajudou a consolidar o novo governo do país,sediado nesta província. Se não fosse a coincidênciado centro político com o centro econômico, os28esforços da elite política para manter a unidade dopaís poderiam ter fracassado.

J. M. de Carvalho. Fundamentos da política e da sociedade brasileiras. In: L. Avelar e A. O. Cintra (orgs.). Sistema político brasileiro: uma introdução. Rio de Janeiro: Fundação Konrad-Adenauer-Stiftung; São Paulo: Fundação UNESP, 2004, p. 23.

Julgue se a reescritura do segundo período do texto (l.2-8) apresentada no item a seguir mantém a informação original e a correção gramatical.

  1. 28.

    Era composta por latifúndios voltados para: produção de mercadorias exportáveis como, açúcar, tabaco, algodão; fazendas dedicadas à produção para o mercado interno como, feijão, arroz, milho e criação de gado, sobretudo no norte e no sul; e em centros mineradores já em fase de decadência.

  2. 29.

    Era composta por: latifúndios voltados para a produção de mercadorias exportáveis, como o açúcar, o tabaco, o algodão; fazendas dedicadas à produção para o mercado interno, feijão, arroz, milho, e à criação de gado. Estas sobretudo no norte e no sul, e centros mineradores já em fase de decadência.

  3. 30.

    Era composta por latifúndios voltados para a produção de mercadorias exportáveis como: o açúcar, o tabaco, o algodão, fazendas dedicadas à produção para o mercado interno (feijão, arroz, milho) e criação de gado, estas sobretudo no norte e no sul; e centros mineradores já em fase de decadência.

  4. 31.

    Era composta por latifúndios, voltados para a produção de mercadorias exportáveis, como o açúcar, o tabaco, o algodão; fazendas dedicadas à produção para o mercado interno — feijão, arroz, milho — e à criação de gado, estas sobretudo no norte e no sul; e centros mineradores já em fase de decadência.

  5. 32.

    Era composta por latifúndios. Voltados para a produção de mercadorias exportáveis (o açúcar, o tabaco, o algodão), fazendas dedicadas à produção para o mercado interno (feijão, arroz, milho, criação de gado), sobretudo, no norte, e no sul e centros mineradores, já em fase de decadência.

Texto VI

1Os acontecimentos que convulsionaram o país naprimeira metade dos anos 60 e que culminaram com osatos de força que depuseram Goulart não podem ser4adequadamente compreendidos sem que se leve emconta o processo de transformação experimentado peloBrasil desde 1930. Com efeito, a Era Vargas7(1930-1945) havia iniciado o esforço de modernizaçãonacional que, sob a ditadura do Estado Novo (a partirde 1937), atingira dimensão mais acentuada. Essa10modernização foi bastante impulsionada na segundametade da década de 50: era o desenvolvimentismodos Anos JK, sintetizado no Plano de Metas e13consagrado pelo lema “50 anos em 5”. Nessa conjuntura, a Política ExternaIndependente refletia um quadro internacional16favorável à obtenção de margens mais amplas deautonomia por parte das áreas periféricas — com aconsolidação das independências na Ásia, o surto de19descolonização na África e o advento de novas posições(pan-africanismo, pan-arabismo, neutralismo,pacifismo) alicerçadas no conceito de Terceiro Mundo22— e, ante a acentuada radicalização interna, passou aser alvo da máxima atenção dos grupos em choque.

A. J. Barbosa. Parlamento, política externa e o golpe de 1964. In: E. C. de R. Martins (Org.). Relações internacionais: visões do Brasil e da América Latina. Brasília: IBRI, 2003, p. 251 e 254 (com adaptações).

No primeiro período do texto VI: “Os acontecimentos (...) que depuseram Goulart não p odem ser adequadam ente compreendidos sem que se leve em conta o processo de transformação experimentado pelo Brasil desde 1930” (l.1-6), a locução sublinhada (“sem que”) estabelece entre frases uma relação lógica. Julgue o item a seguir.

  1. 33.

    A relação lógica estabelecida pela locução “sem que”, nesse trecho, é de causa.

  2. 34.

    A relação lógica estabelecida pela locução “sem que”, nesse trecho, é de conseqüência.

  3. 35.

    A relação lógica estabelecida pela locução “sem que”, nesse trecho, é de concessão.

  4. 36.

    A relação lógica estabelecida pela locução “sem que”, nesse trecho, é de condição.

  5. 37.

    A relação lógica estabelecida pela locução “sem que”, nesse trecho, é de conformidade.

Texto VI

1Os acontecimentos que convulsionaram o país naprimeira metade dos anos 60 e que culminaram com osatos de força que depuseram Goulart não podem ser4adequadamente compreendidos sem que se leve emconta o processo de transformação experimentado peloBrasil desde 1930. Com efeito, a Era Vargas7(1930-1945) havia iniciado o esforço de modernizaçãonacional que, sob a ditadura do Estado Novo (a partirde 1937), atingira dimensão mais acentuada. Essa10modernização foi bastante impulsionada na segundametade da década de 50: era o desenvolvimentismodos Anos JK, sintetizado no Plano de Metas e13consagrado pelo lema “50 anos em 5”. Nessa conjuntura, a Política ExternaIndependente refletia um quadro internacional16favorável à obtenção de margens mais amplas deautonomia por parte das áreas periféricas — com aconsolidação das independências na Ásia, o surto de19descolonização na África e o advento de novas posições(pan-africanismo, pan-arabismo, neutralismo,pacifismo) alicerçadas no conceito de Terceiro Mundo22— e, ante a acentuada radicalização interna, passou aser alvo da máxima atenção dos grupos em choque.

A. J. Barbosa. Parlamento, política externa e o golpe de 1964. In: E. C. de R. Martins (Org.). Relações internacionais: visões do Brasil e da América Latina. Brasília: IBRI, 2003, p. 251 e 254 (com adaptações).

Julgue o item a seguir, com relação a aspectos lingüísticos do texto VI.

  1. 38.

    Nas linhas 20 e 21, os parênteses sinalizam uma retificação.

  2. 39.

    Em “à obtenção” (l.16), o emprego do sinal indicativo de crase é obrigatório.

  3. 40.

    Entre as expressões “Com efeito” (l.6) e “Nessa conjuntura” (l.14), encontra-se uma explicitação dos acontecimentos que constituem o tópico inicial do texto.

  4. 41.

    Sem que ocorra erro de pontuação, a vírgula que aparece logo após “e” (l.22) pode ser deslocada para imediatamente antes dessa conjunção.

  5. 42.

    Nas linhas 2 e 3, atenderia à prescrição gramatical a escolha da seguinte regência verbal: culminaram nos atos de força.

Texto VII

1A localidade opõe-se à globalidade, mastambém se confunde com ela. O mundo, todavia, énosso estranho. Pela sua essência, ele pode4esconder-se; não pode, entretanto, fazê-lo pela suaexistência, que se dá nos lugares. No lugar, nossoPróximo, superpõem-se, dialeticamente, o eixo das7sucessões, que transmite os tempos externos dasescalas superiores, e o eixo dos tempos internos, queé o eixo das coexistências, onde tudo se funde,10enlaçando, definitivamente, as noções e as realidadesde espaço e de tempo. No lugar — um cotidiano compartido entre13as mais diversas pessoas, firmas e instituições —,cooperação e conflito são a base da vida em comum.Porque cada qual exerce uma ação própria, a vida16social individualiza-se; e, porque a contigüidade écriadora de comunhão, a política se territorializa, como confronto entre organização e espontaneidade. O19lugar é o quadro de uma referência pragmática aomundo, do qual lhe vêm solicitações e ordens precisasde ações condicionadas, mas é também o teatro22insubstituível das paixões humanas, responsáveis, pormeio da ação comunicativa, pelas mais diversasmanifestações da espontaneidade e da criatividade.

Milton Santos. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 2.ª ed. São Paulo: Hucitec, p. 258 (com adaptações).

Julgue (C ou E) os itens que se seguem, a respeito das idéias e das estruturas lexicais, morfossintáticas e semânticas do texto VII.

  1. 43.

    O conteúdo desse excerto resume-se em conceituar e explanar a localidade como uma manifestação próxima, cotidiana, pragmática da globalidade.

  2. 44.

    A expressão “nosso Próximo” (l.5-6) exerce a mesma função sintática que o trecho entre travessões nas linhas 12 e 13.

  3. 45.

    A coexistência tem lugar no “mundo”, e não, no “lugar”.

  4. 46.

    No texto, dois campos semânticos confrontam-se: de um lado: “localidade” / “existência” / “eixo da coexistência” / “cooperação”; de outro: “globalidade”/ “essência” / “eixo dos tempos internos” / “conflito”.

Texto VIII

circum-lóquio

(pur troppo non allegro)

sobre o neoliberalismo terceiro-mundista

 7.1o neoliberal sonha um admirável mundo fixo4de argentários e multinacionais terratenentes terrapotentes coronéis políticos7milenaristas (cooptados) do perpétuo status quo:10um mundo privé palácio de cristal à prova de balas:13bunker blau durando para sempre – festa estática16(ainda que sustente sobre fictas palafitas19e estas sobre uma lata de lixo)

Haroldo de Campos. Poema inédito. In: Folha de S. Paulo, 12/6/1998.

Haroldo de Campos lançou, em 1956, o movimento nacional e internacional de Poesia Concreta. Julgue (C ou E) os itens a seguir, considerando o contexto histórico, cultural e temático do poema acima (texto VIII).

  1. 47.

    A expressão “admirável mundo fixo” (v.2 e 3) remete a conhecida obra do escritor inglês Aldous Huxley.

  2. 48.

    O poeta, carioca que ainda vive em sua cidade natal, lançou o movimento concretista com o irmão Humberto de Campos e com o artista plástico Décio Pignatari.

  3. 49.

    A temática do poema é a apologia ao neoliberalismo, programa econômico globalizante identificado a partir da década de 80 do século passado.

  4. 50.

    A Poesia Concreta foi o movimento literário que acendeu a consciência plástica da linguagem poética, nas dimensões sonora e visual.

Texto VII

1A localidade opõe-se à globalidade, mastambém se confunde com ela. O mundo, todavia, énosso estranho. Pela sua essência, ele pode4esconder-se; não pode, entretanto, fazê-lo pela suaexistência, que se dá nos lugares. No lugar, nossoPróximo, superpõem-se, dialeticamente, o eixo das7sucessões, que transmite os tempos externos dasescalas superiores, e o eixo dos tempos internos, queé o eixo das coexistências, onde tudo se funde,10enlaçando, definitivamente, as noções e as realidadesde espaço e de tempo. No lugar — um cotidiano compartido entre13as mais diversas pessoas, firmas e instituições —,cooperação e conflito são a base da vida em comum.Porque cada qual exerce uma ação própria, a vida16social individualiza-se; e, porque a contigüidade écriadora de comunhão, a política se territorializa, como confronto entre organização e espontaneidade. O19lugar é o quadro de uma referência pragmática aomundo, do qual lhe vêm solicitações e ordens precisasde ações condicionadas, mas é também o teatro22insubstituível das paixões humanas, responsáveis, pormeio da ação comunicativa, pelas mais diversasmanifestações da espontaneidade e da criatividade.

Milton Santos. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 2.ª ed. São Paulo: Hucitec, p. 258 (com adaptações).

Analisando a relação entre as informações veiculadas pelo texto VII e a articulação dos elementos textuais, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 51.

    A forma verbal prevalente no texto é o presente do indicativo, o que equivale a dizer que o texto se compõe de enunciados categóricos, os quais produzem o tom de certeza na abordagem do tema.

  2. 52.

    Predomina, no texto, a função referencial da linguagem e verifica-se, também, a utilização pontual da linguagem em sua função poética, como recurso para expressar o conceito de “lugar” por meio da metáfora “o teatro insubstituível das paixões humanas” (l.21-22).

  3. 53.

    Na linha 15, o enunciado causal que antecede e em que se sustenta a afirmação “a vida social individualiza-se” é insu ficie n te p a ra justificar o p arad o xo “social/individual”, o que, considerando-se as idéias desenvolvidas no primeiro parágrafo, gera incoerência na linha argumentativa do texto.

  4. 54.

    No trecho “do qual lhe vêm solicitações e ordens precisas de ações condicionadas” (l.20-21), há uma sucessão de vocábulos do campo semântico de determinação, o que é produtivo para a defesa do autor de seu ponto de vista determinista da política mundial, confirmado no apelo romântico às “paixões humanas” (l.22) ao caracterizar “lugar” (l.19).

Texto VIII

circum-lóquio

(pur troppo non allegro)

sobre o neoliberalismo terceiro-mundista

 7.1o neoliberal sonha um admirável mundo fixo4de argentários e multinacionais terratenentes terrapotentes coronéis políticos7milenaristas (cooptados) do perpétuo status quo:10um mundo privé palácio de cristal à prova de balas:13bunker blau durando para sempre – festa estática16(ainda que sustente sobre fictas palafitas19e estas sobre uma lata de lixo)

Haroldo de Campos. Poema inédito. In: Folha de S. Paulo, 12/6/1998.

Com base na análise do vocabulário da estrofe transcrita no texto VIII, julgue (C ou E) os itens a seguir.

  1. 55.

    A composição por justaposição, como processo de formação de palavras, prevalece no texto, tendo como exemplos: “neoliberal”, “multinacionais”, “terratenentes” e “terrapotentes”.

  2. 56.

    A estrofe esquematiza-se da seguinte maneira: o neoliberal → mundo fixo (estável), com poder (argentários, multinacionais, terratenentes, terrapotentes, coronéis políticos) e perenidade (milenaristas, perpétuo, status quo); e mundo privé (exclusivo), com segurança (à prova de balas, bunker blau) e perenidade (durando para sempre, festa estática).

  3. 57.

    Nos versos 2 e 3, “sonha um admirável / mundo fixo”, a posição dos adjetivos que modificam o substantivo “mundo” é evidência de que a ordem das palavras na oração diz respeito à sintaxe e também à semântica. Caso se alterasse a ordem (sonha um mundo / admirável fixo), haveria significativa mudança de sentido.

  4. 58.

    O autor utiliza os seguintes estrangeirismos: “terratenentes”, “status quo”, “privé”, “bunker blau” e “fictas”, que deveriam ter sido obrigatoriamente escritos em itálico.

Texto VIII

circum-lóquio

(pur troppo non allegro)

sobre o neoliberalismo terceiro-mundista

 7.1o neoliberal sonha um admirável mundo fixo4de argentários e multinacionais terratenentes terrapotentes coronéis políticos7milenaristas (cooptados) do perpétuo status quo:10um mundo privé palácio de cristal à prova de balas:13bunker blau durando para sempre – festa estática16(ainda que sustente sobre fictas palafitas19e estas sobre uma lata de lixo)

Haroldo de Campos. Poema inédito. In: Folha de S. Paulo, 12/6/1998.

Julgue o item a seguir, quanto à descrição gramatical.

  1. 59.

    A fragilidade das bases do mundo neoliberal é reforçada pelo adjetivo “fictas” (v.17), que significa falsas.

  2. 60.

    Nos cinco últimos versos, os parênteses assinalam isolamento sintático e semântico.

  3. 61.

    A locução conjuntiva “ainda que” (v.16) tem o mesmo sentido de posto que.

  4. 62.

    O verbo sonhar, além da regência expressa no verso 2, tem emprego também, conforme prescrição gramatical, como intransitivo e transitivo indireto.

  5. 63.

    O uso dos dois-pontos depois de “status quo” (v.9) tem a função de introduzir uma explicação.

Texto VII

1A localidade opõe-se à globalidade, mastambém se confunde com ela. O mundo, todavia, énosso estranho. Pela sua essência, ele pode4esconder-se; não pode, entretanto, fazê-lo pela suaexistência, que se dá nos lugares. No lugar, nossoPróximo, superpõem-se, dialeticamente, o eixo das7sucessões, que transmite os tempos externos dasescalas superiores, e o eixo dos tempos internos, queé o eixo das coexistências, onde tudo se funde,10enlaçando, definitivamente, as noções e as realidadesde espaço e de tempo. No lugar — um cotidiano compartido entre13as mais diversas pessoas, firmas e instituições —,cooperação e conflito são a base da vida em comum.Porque cada qual exerce uma ação própria, a vida16social individualiza-se; e, porque a contigüidade écriadora de comunhão, a política se territorializa, como confronto entre organização e espontaneidade. O19lugar é o quadro de uma referência pragmática aomundo, do qual lhe vêm solicitações e ordens precisasde ações condicionadas, mas é também o teatro22insubstituível das paixões humanas, responsáveis, pormeio da ação comunicativa, pelas mais diversasmanifestações da espontaneidade e da criatividade.

Milton Santos. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 2.ª ed. São Paulo: Hucitec, p. 258 (com adaptações).

Considerando as idéias e as estruturas morfossintáticas do texto VII, julgue (C ou E) os seguintes itens.

  1. 64.

    Atenderiam aos princípios de coesão e às prescrições gramaticais as duas seguintes alterações do primeiro período do texto: A localidade e a globalidade opõem-se e ambas confundem-se. Opõe-se e confundem-se também a localidade à globalidade.

  2. 65.

    No primeiro período do texto, a noção de oposição é produzida, via semântica, pelo emprego de duas antíteses: “localidade”/“globalidade” e “opõe”/ “confunde”.

  3. 66.

    As considerações iniciais do autor a respeito da essência e da existência do mundo (l.2-5) encontram seu correlato, no sistema lingüístico, na distinção semântica do par verbal ser / estar.

  4. 67.

    É possível estabelecer uma analogia entre “tempos externos das escalas superiores” (l.7-8) e sincronia e entre “eixo dos tempos internos” (l.8) e diacronia.

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